escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

Os usos, abusos e a falta de: Memória

A retórica da memória como figura de linguagem visando legitimar ideias e tomadas de ações ao longo dos tempos.


A memória é, provavelmente, um dos conceitos perpassados na História com uma enorme gama de variações, entendimentos, configurações e com certeza, cercado de inúmeras polemicas. Percebem-se facilmente os usos, desusos e abusos da memória nas coisas ditas, feitas, escritas, transcritas, faladas ou não faladas para legitimar algo, alguém, uma ideia ou ação. De discursos políticos a religiosos, em chantagens emocionais, relatos de fatos nas manchetes de jornais e no banco dos réus dos tribunais, a memória parece ser uma das forças motoras da legitimação e justificação de N atos, mesmo que muitas vezes estes sejam tresloucados. Não só o uso da memória em excesso, mas também a falta dela e a tentativa de soterra-la é uma ideia perversa permeado de segundas intenções, como denotada na cínica frase “o que eu não lembro eu não fiz”.

O modo de fazer com que a memória se torne prova cabal para determinarem-se verdades pode convergir em um perigoso precedente com finalidades nada benéficas, com objetivos escusos por parte de quem se utiliza da memória, sobretudo a histórica, para dar uma autoridade indiscutível sobre ações tomadas em nome de tal justificativa. Geralmente todo um aparato coercitivo psicologicamente é montado para garantir um efeito emocional eficaz sobre o publico utilizando uma memória, por vezes seletiva e na maioria das vezes, de cunho pessoal, que nem sempre acaba refletindo o todo ou a conjuntura de um panorama geral do acontecimento. A memória, justamente por mexer com o emocional tanto de quem a relata quanto de quem recebe essa informação, é ferramenta utilizada para medidas de demanda nebulosas. foto-galeria-materia-620-2b.jpeg O uso politico da memória ao longo da história humana serviu como muleta para diversos projetos de poder e asseguração do mesmo, seja de um grupo ou individuo. Exemplo deste feitio é o que não falta, somos inundados por eles nos anais da historicidade humana: Faraós, Imperadores Romanos, Diversos papados, Governantes chineses, Os reis Incas e Astecas cultuados como divindades; pautando-se na memória das crenças religiosa, garantiam a legitimidade de seu poder frente as suas respectivas sociedades. Temos exemplos mais espúrios ainda, quando a inquisição utilizou de argumentos de que foram os judeus que condenaram Jesus a cruz, e de que as mulheres foram culpadas do pecado original, para condenar a fogueira mulheres acusadas de bruxaria e os judeus por heresia, na esteira do antissemitismo. Outra forma perversa foi a utilização memorial para a legitimação da escravidão, na noção de superioridade racial, social e religiosa de uma etnia sobre a outra. O nazismo foi pelo mesmo viés, se utilizando de uma pretensa culpabilidade da derrota memorável da Alemanha na primeira guerra e da impureza da população judaica, aproveitando desta falaciosa argumentação para elaborar toda a maquina estatal de limpeza social do holocausto, que ceifou a vida não apenas de judeus, mas de ciganos, homossexuais, pessoas com necessidades físicas, especiais e qualquer opositor do regime.

Também se pode utilizar uma tragédia para legitimar outra atrocidade semelhante. Temos por exemplo os massacres tribais e étnicos em Ruanda, envolvendo os povos Tutsis e Hutus, onde devido a uma ideologia de superioridade racial dos Hutus sobre os Tutsis, para estabelecer um melhor domínio sobre o território naquela região instaurada pelo colonialismo europeu, derivaram numa carnificina secular entre estas duas populações. Situação semelhante a esta foi durante os conflitos nos Balcãs entre sérvios, croatas, bósnios numa guerra em que se reascendeu as diferenças religiosas, culturais e econômicas destas populações e sobre as demarcações territoriais da divisão da Iugoslávia. Outra que segue pelo mesmo viés é a polemica envolvendo a criação do estado de Israel, onde certa corrente extremista do sionismo adota tudo que ocorreu com os judeus durante a segunda guerra como “fato indiscutível” para assegurar e garantir “justiça” e “compreensão” mundial pela expulsão dos Palestinos de suas terras, bem como das incursões militares e todo o descaso humanitário na faixa de Gaza, em nome da preservação do “espaço vital israelense” e da luta contra o terrorismo. artigo.jpg Grande Problema também é o esquecimento e a não preservação da memória, garantia para muitos para permanecerem impunes sobre crimes cometidos num passado. A negação por parte do governo da atual Turquia acerca primeiro grande genocídio do século XX, cometido contra a população armênia do Império Turco-Otomano, é ferida aberta nas relações diplomáticas da Turquia com diversos governos e parceiros comerciais, sobretudo na União Europeia, onde o não reconhecimento do holocausto armênio é uma das pautas que acabam por barrar a entrada da Turquia como membro efetivo da comunidade europeia. No Brasil temos uma imensa dificuldade em tratar da memória de duas grandes chagas em nossa História: Os crimes na época da Ditadura e a escravidão. Mesmo com a instauração da comissão da verdade pelo governo, a dificuldade em levar a julgamento ou conseguir respostas coesas sobre as torturas, mortes e diversos crimes cometidos pelo regime militar permanecem intocados dentro da justiça, devido às manobras burocráticas e politicas de torturadores e sua influencia, que se amparam na lei da anistia para eximirem-se dos crimes cometidos durante a ditadura militar brasileira. Entretanto O caso sem duvida que mais causa constrangimento a sociedade brasileira é a questão da escravidão. Graças ao sufocamento ideológico, parece que a opinião publica apagou de sua memória todo o horror da escravidão e se convenceu de que não somos um país racista, deitando a cabeça sobre o mito da comunhão das três raças (negro, índio e branco), onde o preconceito, racismo e desigualdade social é algo que surge do nada, sendo culpa do individuo, não de uma estrutura histórica que deu margem para isso, na ideia maquiavélica de que “o racismo não existirá se não falarmos dele”.

Fator crucial para estabelecer um caminho esclarecido e discernir melhor toda uma conjuntura do que somos e de como chegamos a esse ponto e dos mais variados porquês, a memória deve ser tratada com todo cuidado por quem a estabelece ou lida com ela. Como citei acima, muitas atrocidades e horrores foram cometidos utilizando delas de modo torto e com desfaçatez beirando o cinismo perverso. O uso, desuso, abuso e falta de memória fazem parte da velha luta nas batalhas pela História. A História é utilizada, sejam por grupos, indivíduos, governos, coletivos, instituições públicas ou privadas, como cerne e justificativa para tomadas de atitudes e ideias. Cabe-se então para não inquirirmos nos erros de sempre, esmiuçar as memórias e disseca-las como um médico legista faz com um corpo: tomemos cuidado, pois assim como um corpo morto, a memória pode estar em estado de putrefação e exalar odores desagradáveis.


Guilherme Lima

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