escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

A Europa, a indiferença e os pequenos tiranos do cotidiano

O drama dos refugiados sírios e africanos e a aparente frieza da comunidade européia, confusa e incerta sobre como lidar com este problema humanitário.


Durante a década de 1960, o Psicólogo Norte-Americano Stanley Milgram realizou um teste sobre Obediência. Milgram fez testes psicológicos para observar como pessoas comuns conseguem ser capazes de cometer atitudes vis e desumanas. O psicólogo buscava compreender o que poderia ter levado humanos, aparentemente decentes e de boa conduta, fazer parte de todo o mecanismo genocida envolvendo o Holocausto nazista na Alemanha durante o governo nefasto de Adolf Hitler.

Stanley Milgram acreditava que um ser humano, quando exposto a um comando hierárquico de uma autoridade, tende a obedecer ao que lhe ordenam, eximindo-se de responsabilidade sobre seus próprios atos. O teste consistia em que voluntários na posição de professor aplicassem choques em um “aluno” toda vez que este errasse a resposta da pergunta que lhe faziam. Os resultados confirmaram em parte a tese de Milgram, pois, durante os experimentos realizados com 40 voluntários, 65% aplicaram a carga máxima do choque, de 450 volts, mesmo que o aluno implorasse para pararem as doses de descargas elétricas, e a argumentação dos voluntários para continuarem os testes eram que estavam apenas obedecendo às ordens daqueles responsáveis pela aplicação do teste.

budpeste-imigration.jpg Estação de trem com os refugiados à espera na Macedônia, na cidade de Gevgelija. Agosto, 2015. Por que estou citando a experiência de Milgram? A resposta é devido ao aparente descaso e a ausência de responsabilidade que muitas autoridades e membros da população europeia estão a tratar toda a problemática caótica no caso dos refugiados, sejam eles sírios ou africanos. Parece não haver qualquer comoção por parte da cúpula dos grandes mandatários e governantes europeus sobre como lidar com o mar humano atravessando longas distancias por terra e mar, tentando alcançar o continente europeu em busca não de condições melhores de vida ou emprego, mas sim sobreviver a genocídios, fome, doenças e um estado de guerra constante contra seu povo e país de origem. A Europa parece ter regredido novamente ao período da 2ª Guerra Mundial, onde grandes massas populacionais se deslocavam de um país a outro, sem nenhum amparo e condições mínimas de subsistência, fugindo do morticínio e selvageria causados pela guerra.

Os relatos e cenas propagadas pela mídia, demonstram o quanto a situação dos refugiados é de desespero extremo. As fotos do menino sírio morto devido ao afogamento no mediterrâneo, bem como a morte de refugiados dentro de um caminhão frigorifico abandonado em uma estrada na Áustria são gotas d’agua deste Oceano que parece estar prestes a transbordar do copo europeu.

A Europa não está sabendo lidar de maneira eficaz e clara sobre o que fazer e como se portar perante os refugiados. Os lideres europeus se fazem de cegos sobre a questão de imigrantes e refugiados, negando e invalidando diversas leis e tratados internacionais sobre o tema, como a Convenção de Genebra e a declaração dos direitos humanos, que tanto beneficiaram a população europeia no período de guerras, como no caso da Guerra dos Balcãs e da 2ª Guerra Mundial. Um grande perigo assombra a Europa: que ela volte às costas a sua História e assim teme-se que velhos erros do passado se repitam de modo similar.

comboio nazi.jpg

Não são apenas os políticos e autoridades os únicos responsáveis pela atual situação a se desenvolver no continente europeu, mas sim toda a conjuntura da sociedade europeia, bem como quem nela está inserida e todo o seu arcabouço cultural, politico, econômico e social. A população europeia em muitos casos fecha os olhos e se nega a perceber que boa parte de seus direitos sociais de bem estar garantidos pelas leis de seus países, foram conseguidos em boa parte graças à exploração e sofrimento em outras partes do globo, como a África e Oriente Médio. Hordas e mais hordas de lucro à custa da espoliação dos recursos naturais e humanos destas regiões foram utilizados para o desenvolvimento e “progresso” da civilização europeia.

No seu eurocentrismo e tendo a Europa como o centro de ápice da civilização e modelo de sociedade, os preconceitos e racismos florescem novamente, e os fantasmas do fascismo e seus representantes voltaram a aterrorizar o velho continente. O caso da Jornalista Húngara Petra Laszlo (tanto a jornalista quanto a sua emissora estão ligados ao partido de extrema-direita do primeiro Ministro húngaro Viktor Orbán, defensor de medidas duras contra os refugiados), que canalhamente aplicou rasteiras em refugiados sírios tentando atravessar a fronteira em direção à Alemanha, demonstram o quanto a humanidade perversamente acaba persistindo em antigos erros e monstros ideológicos insanos de um passado de certa forma, recente e latente.

Infelizmente, as maiorias das pessoas só se tocam das coisas além do seu umbigo quando as projetam na sua cara, como no caso da foto do Menino Sírio morto em uma praia da Turquia. Tanto para se responsabilizar quanto para ausentar-se de culpa por tomadas de certas medidas e ações, Um líder tirano necessita de um exército de pequenos tiranos. Cada pequeno tirano terá uma função especifica e determinada neste exército, agindo com eficácia, precisão e sem nenhum remorso, alienados totalmente da ciência que também fazem a parte de uma estrutura nociva, maligna e violenta. Por mais sensacionalista, mesquinha e interesseira que a grande mídia agiu na propagação das fotos da pobre criança sem vida a beira do mar, quem sabe a reflexão a partir dela seja a ponta de um esclarecimento da população mundial, principalmente a europeia, para tentarem resolver e tomar medidas condizentes com o tamanho do problema envolvendo os refugiados.


Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @nopub //Guilherme Lima