escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

A Crise Que Nos Move

O Viver atual estruturado pelas complicações de um conceito de "crises" constantes e seus temores.


De certa forma, parece que passamos em uma fase atual convencionada por crises em todas as instâncias da vida. O bombardeio de informações e o excesso delas, sejam factíveis ou mera especulação, acabam por denotar e passar a ideia de um limiar do extremo sem volta, na queda de um abismo sem fim, tal como aquele filme clássico passado na sessão da tarde, mas diferentemente do saudoso "História sem fim", não temos um cachorro gigante voador para nos resgatar de situações espinhosas. A realidade não possui um Falco para auxiliar nossa saga de herói em meio as crises, visando salvar o nosso mundinho vivido dia por dia. Infelizmente a realidade concreta não é uma fábula decantada onde as possibilidades de um final com uma versão bem definida tal qual nos livros, mas sim como algo passível de ser reescrito, reinventado, interpretado e até mesmo não existir, ou como a História sem fim, nunca terminar.

Talvez, pelo fato de que o presente é um contínuo fluxo de indefinidas possibilidades, é que o termo crise serve de muletas para nos referirmos aos momentos mais evidentes de dificuldade. Tem-se a impressão de que o que nos move vai além de nossos objetivos, sonhos, metas, vivencias ou o espaço situado. O grande fator determinante da regência inconsciente de nossas vidas não é a cultura, economia, o social, a mentalidade, sentimentos, espírito, a ideologia, luta de classes, dinheiro, o mercado ou o resultado do seu time de futebol: é o medo das consequências das crises nos movendo, somos tolidos a estancar “as dores de parto” gerados nestes momentos conturbados. Todo o conteúdo e meios pelos quais agimos visam evitar os males e efeitos nocivos de tais crises, ampliadas ainda mais pelos meios de linguagem e comunicação inundando nossa visão, audição e mente com informações excessivas, de especulação, cheias das palavras “porque” “quando”, “talvez”, “provável”, e frases como “segundo fulano de tal”. Ou seja, a crise é sugerida, incutida e aceita, nem sempre condizendo com o acontecido real e factual.

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As crises são decantadas e vicejadas em nosso cotidiano. Temos todos os tipos para dar e vender: crise econômica, crise politica, crise institucional, crise histórica, crise medicinal, crise energética, crise de segurança, crise social, crise cultural, crise esportiva, crise da filosofia, crise moral, crise ética, crise dos 7x1, crise das fofocas, e até mesmo crise da role baladeiro sertanejo ou do pobre coitado do bacalhau do batata. Em suma, arranja-se a desculpa para as mais diversas causas e causos devido a “crise devastadora”. Nossa rotina é assolada pelo temor de resultados depreciativos pelas malditas crises, seres desconfiados, precavidos e suspeitando de tudo ao redor, do comportamento próprio e sobretudo, alheio.

Vamos então esperando sempre o pior por vir e devir nas nossas relações, determinando os passos a serem dados de forma preconcebida. Convergindo preconceitos com uma tendência de autopreservação, temos assim estabelecido uma espécie de conduta ética e moral baseada em esperar sempre o pior de tudo. Se esta negatividade fosse estabelecido em algo elaborado e pensado de forma coerente seria até, de certa forma, compreensível e tolerável, porém ele é na maioria esmagadora das vezes, conduzido pelo senso comum mais imbecil e rasteiro existente. Propaga-se assim tipos de ideias, pensamentos e atos dos mais mesquinhos, nocivos a uma convivência estável enquanto ser estabelecido em uma sociedade. A determinante do convívio são a hipocrisia e o cinismo da indiferença, similar a ideia incutida na frase “beltrano morreu, antes ele do que eu”.

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O individualismo e o egocentrismo são os instrumentos para a crise assentar seu domínio sobre nossos corpos e mentes. Ela nos extrai a empatia e consideração pelo outro, toldando as atitudes baseadas numa conservação própria irreal, primitiva, permeada por noções enraivecidas num discurso asqueroso declamado e utilizado ao bel-prazer de uma infraestrutura dominante. Racismo, fascismo e tantos outros discursos de ódio tenebrosos, adentram em nosso dia a dia, auxiliados por nosso conformismo, transformador de humanos em agentes passivos legitimando coisas, ideias e condutas menosprezadas e condenáveis por nós mesmos. A atualidade parece seguir a mesma lógica da economia de mercado que a ela pertence: pulamos de crise em crise, vivendo numa constante de perturbações, problemas a resolver. Atarefados até o pescoço com ocupações fúteis perpassadas por meros caprichos de ansiedade latente e permanente, somos geradores de uma angustia nauseante, um enjoo crescente sobre o tudo e o todo. Tudo indica que existimos, mas existimos agindo para evitar e omitir, não para agir e revelar.


Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC.
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