escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

A corrupção não é cultura

A falsa ideia de que carregamos um DNA cultural da corrupção enquanto brasileiros.


A corrupção não é algo inventado em nosso belo e recente mundo da imaginação moderna do século XXI. Ela está presente desde os primórdios das primeiras civilizações humanas, se caracterizando por ser um meio de obterem-se vantagens ilícitas, prejudicando outrem. No dicionário a definição de corrupção:

Ação ou efeito de corromper. Ação ou resultado de subornar (dar dinheiro) uma ou várias pessoas em benefício próprio ou em nome de outra pessoa; suborno. Utilização de recursos que, para ter acesso a informações confidenciais, pode ser utilizado em benefício próprio. Alteração das propriedades originais de alguma coisa: corrupção de um livro. Ação de decompor ou deteriorar; putrefação: corrupção das frutas. Desvirtuamento de hábitos; devassidão de costumes; devassidão. (Etm. do latim: corruptio.onis).

Em suma, a noção de corrupção está presente em nossa gênese humana a partir do momento em que nossa convivência em sociedade fora estabelecida, e onde alguns indivíduos aparentemente, insatisfeitos com determinada regulação, lei ou trato acordado entre partes envolvidas em algum processo, usa de subterfúgios ilegais, imorais ou antiéticos para atingir seus objetivos.

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A origem do termo vem do latim, língua oficial do Império Romano, outrora uma das civilizações mais imponentes, poderosas, militaristas e opressoras, na qual intrigas, conchavos, conspirações convergiam em complexos esquemas de corrupção. Eram corriqueiras estas tramoias envolvendo os jogos de poder romano, desde seus momentos com o senado da República Romana controlado pela aristocracia e sua disputa pelo controle do império com o Imperador, e os generais do exército. Basta lembrarmos de como foi o fim do Imperador Júlio César sendo apunhalado dentro do senado por muitos a quem ele confiava, como o infame Brutus.

Agora, por que eu remontei à já defunta sociedade romana para abordar a temática da corrupção? É para percebermos que esta noção de corrupção sendo algo intrínseco à cultura brasileira e ao brasileiro é um senso comum errôneo e ridículo, perpassado por uma mistura de pessimismo, aliada à velha e corrente síndrome de vira-lata tupiniquim, como uma vez observou o escritor Nelson Rodrigues. Frases do lugar comum são clássicas para denotar ao brasileiro certo espirito prevaricador, corrupto e cheio de malandragens para conseguir passar por cima de certas situações. A criação mitológica em torno da ideia do “jeitinho brasileiro” está ai exemplificando e dando condições para que o próprio brasileiro acabe caindo no erro de automaticamente considerar-se passível de corromper e corromper-se usando de meios escusos para tal empreitada.

Considerar a corrupção como traço da sociedade brasileira, e, sobretudo, dizer que ela é traço cultural da população, só serve para depreciarmos a nós mesmos e derivar disso inúmeros estereótipos sociais, étnicos, culturais, raciais, abrindo cada vez mais o abismo social já enorme no Brasil. Os mais afetados e tachados como malandros, improdutivos, prevaricadores e claro, usuários do “jeitinho brasileiro” são as populações que estão à margem da pirâmide social brasileira, sobretudo pobre, morador da periferia das grandes cidades e negra. Frases racistas e de grosso calibre preconceituoso como “serviço de preto”, “fazendo negrice” são partes deste quebra-cabeça da estigmatização da população como corrupta e inapta a ter uma ética.

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Tem-se a sensação no país de que toleramos a corrupção, sendo parte do nosso cotidiano e de que nada irá mudar, sobretudo devido aos enormes escândalos envolvendo os desvios de dinheiro publico e privado envolvendo grandes empresários, políticos e a mídia nacional. O senso comum foi condicionado a termos está noção de carregarmos dentro de nós, enquanto cidadãos brasileiros, um caráter ambíguo, sempre querendo levar vantagem a qualquer momento do dia, vivendo numa eterna roda de atos carregados de segundas intenções. Ai joga-se os nossos defeitos “morais” para nossa formação sócia histórica enquanto nação: “como um país tendo sua origem com portugueses burros, africanos violentos e índios preguiçosos poderia dar certo?” este é pensamento recorrente a maioria, o mito das 3 raças inverso, nossos defeitos já vem no berço do tal do “descobrimento”.

Estas afirmações deturpadas e anacrônicas só servem para dar salvaguarda aos processos e estruturas de corrupção presentes em todas as esferas da sociedade civil brasileira. Carregarmos este estigma como algo natural só serve aos agentes corruptores beneficiados com toda a institucionalização dada à corrupção, a legitimando como comportamento normativo. Quebrar com este ciclo vicioso leva tempo, demandando um complexo plano educacional e de conscientização. Ou seja, a corrupção se alimenta também de nossa impaciência ansiosa para resolver as coisas de qualquer maneira.


Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC.
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