escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

Crônica de um desconforto omisso

Percepção de alguém agarrado aos desconfortos e velhos medos.


Acordara, passou o tempo a se ferir com as lamentações recorrentes de sempre. Era a politica ineficiente e corrupta de sempre, seu time de futebol que ia mal das pernas, a falta de tempo e excessos de trabalhos e textos a se terminar no fim de semestre da faculdade. Coisas do lugar comum de reclamações não apenas dele, mas a muitos viventes deste moribundo cotidiano humano, chatices do leite derramado geral, em que muitos assim como ele eram acometidos, certo como 1+1=2 ou que bater com o dedo mindinho do pé na quina de algum móvel causa uma dor aguda e profunda. pensar demais.jpg Mas seu tédio não era como dos seus pares de senso comum. Nas internas das ventanas de seu pensamento cerebral complexo e de idas e vindas do fluxo de ideias, vivia a ser o réu, vitima, júri, o juiz e o promotor das autoacusações. Nesta trama dentro de sua caixa craniana, era acusado de crimes de fraqueza concreta, tais como falta de estima própria, ser omisso e relapso consigo mesmo, bem como para seus sentimentos e emoções. No caso em que se segue o desenrolar do processo estipulavam graves crimes de cunho memorial, em que o réu forçara a vitima a viver de um passado sem volta, refém de um presente inútil com perspectiva de futuro incerto. O júri atônito escutava as acusações proferidas sem piedade por um voraz promotor, de caráter típico do pensamento de que bandido bom é bandido morto. A sentença então proferida pelo juiz é clara, precisa e mortal: pena de morte para suas motivações ou planos, metas e sonhos seriam mandados para um campo de trabalhos forçados ao esquecimento.

Graves consequências para uma cabeça incerta para agir, tensionada pelas dores acumuladas nos antigos momentos traumáticos de outrora, Acometido pelo remorso da incapacidade de ação, a saída de casa já era fadada a uma derrota, mesmo não tendo na maioria das vezes a ciência do que iria fazer no dia, a maldita lei de Murphy faria o seu jogo perfeito: estando ruim, irá piorar certamente. Cansativa rotina que se arrasta por meses, uma sombra o encobre e disfarça seu real estado perante aos semelhantes. Nisto talvez fosse uma de suas hipócritas qualidades, fingir tão bem estar bem. human-brain-mechanics-003-620x350.jpg Jogo de cartas marcadas, este mero passante já não espera coisa alguma. Fica a ser mero observador em cima da murada, vendo a sua vida e dos outros a passar, sem interferir ou agir, esperando o acontecer fazer das suas, mero espectador da própria História. Nesta narrativa não era narrador, ator ou agente transformador, ficava como mero ser passivo sendo conduzido de um lado para o outro pelo tempo e espaço, tendo suas expectativas podadas por si mesmo, desesperançado das coisas ou experiências já vividas. Temendo o triste fim, o seu conto seria eternas agulhadas embaixo da unha, dor que incomoda mas não mata.

Triste sina ao que tudo indica viver era apenas algo voltado a sobreviver ao passar das horas do dia entediante. Diminuição de si em relação aos outros, uma pretensa certeza de que não seria empático para os outros, desmerecedor de bons sentimentos de seus pares para com si. Amor, paixões, amizades eram sentimentos que deles desistiu quando estes partiram de seu horizonte. O que restou então foi acompanhar o desenrolar, esperando por nada de um todo incompleto. Em suma, sofria por temer sofrer.


Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC.
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