escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

Arrumem Um Bode-expiatório, Estamos Em Crise

O repetitivo erro da humanidade em buscar culpados imaginários para seus erros, para absolver seus próprios pecados.


É recorrente dentro da História humana o indecoroso uso e abuso, sobretudo em tempos de crise, de bodes expiatórios. Tática clássica seja de grupos ou indivíduos para alcançar seus obscuros objetivos, escolhem algo ou alguém como culpados pela situação negativa ao qual a sociedade está passando. A crise é cenário perfeito para o aparecimento das perseguições perversas, permeadas de segundas intenções beneficiando-se da fragilidade e situação extrema de problemas diversos, sobretudo na ordem social, econômica, politica e ambiental. No momento em que as instituições aos quais estão alicerceadas a sociedade perdem credibilidade e entram em completa espiral decadente, isto favorece até certo ponto, a aproximação de indivíduos com aqueles que se consideram seus “iguais” e estabelece grandes diferenciações na figura dos “outros”, através de estereótipos, preconceitos e uma série de sensos comuns rasos e falaciosos.

Órgãos e instituições de relevância para a sociedade conseguiam fazer, através de sua importância perante aos olhos da população, manter o consenso e a manutenção da ordem, estabelecendo premissas básicas de certa igualdade e preservação de direitos mínimos de convivência, direitos, fazendo a mediação de conflitos os apaziguando. No momento em que as instituições, sobretudo aquelas ligadas ao estado, perdem a confiança e seu poder de influencia social, a ordem tende a vir a baixo. Nesta situação, um ambiente propicio surge para se instaurar a exerbação de atos de caráter violento e extremos, onde a violência parece ser uma regra constante nestes casos. Assim, é estabelecida sempre a culpa no outro, no diferente, naquilo ou naquele com algo fora do padrão, da norma dita vigente. A culpa de todos os males está do lado de lá, nunca do de cá, assim apontando o dedo acusador para o pobre bode expiatório. Scapegoat.jpg Tomemos como exemplo a História para nos atentar nas farsas e tragédias ao longo do tempo. Casos conhecidos da utilização do pobre bode são infindáveis e nos ajudam a entender a gênese de um comportamento psicossocial humano nenhum pouco belo. A perseguição às bruxas pela inquisição, onde o aspecto religioso fora usado para um completo esquema de controle social da figura feminina, e posteriormente, no uso politico do aparato inquisidor para perseguir os inimigos da igreja; Os judeus durante o entre guerras na Alemanha nazista, onde o próprio estado elaborou uma maquina complexa e estruturada de um genocídio em escala industrial, usando de uma propaganda pesada, lobotomizando boa parte da população alemã; A paranoia histérica com o comunismo instaurada e propagada pelos Estados Unidos em boa parte da América-Latina, acusando estas ideias subversivas de ser todo o mal da situação de pobreza na região, contribuindo para o florescimento de ditaduras e regimes antidemocráticos. Em todos estes casos é retratado na figura de um grupo, todo o mal que precisa ser combatido e extirpado da face da terra. A mulher bruxa serva do demônio e herege, O Judeu avarento e doentio que rouba a população através dos bancos e o comunista ateu destruidor da moral e dos bons costumes: Suas figuras se tornam o problema em pessoa, sendo o combate e destruição destes a solução dos problemas aparentemente.

Vemos isso claramente na atualidade, no caso, sobretudo dos imigrantes haitianos aqui no Brasil, e da situação dos refugiados sírios na Europa. Corpos estranhos, estrangeiros com costumes diferentes das populações já estabelecidas naquelas regiões. O preconceito com os haitianos no Brasil se utilizada de fatores da atual conjuntura brasileira para ocultar o racismo e xenofobia nacional. Com toda a crise politica e econômica sendo alardeada e consumida diariamente no país, o pretexto de que os haitianos estariam roubando os empregos dos brasileiros (preocupação desonesta, já que os haitianos acabam trabalhando em empregos que muitos não querem, subempregos), as redes sociais destilam o ódio contra os haitianos, os xingando de “macacos”, “pretos imundos” e outras insanidades paranoicas, como “guerrilheiros comunistas infiltrados no Brasil pelo PT”. No Caso dos refugiados sírios, a situação é ainda pior, pois envolve um choque cultural imenso, além das barreiras sociais, econômicas e humanitárias. Muitos europeus reclamam e afirmam que o continente não tem condições de receber esta grande massa populacional em seu território, devido a argumentos como falta de espaço, segurança, ameaça de terrorismo. Estes argumentos foram reforçados ainda mais nos recentes casos de estupro durante o ano novo cometidos por alguns imigrantes,muitos muçulmanos como os sírios, na Alemanha. Porém, naquele senso comum torpe, xenófobo e preconceituoso, todo muçulmano passou a ser visto como um potencial estuprador, além de terrorista é claro. cartaz_pnr-português-1.jpg A perseguição para aqueles que fogem do padrão, quando as dificuldades surgem no horizonte da sociedade, tende a ser uma conduta repetitiva como comportamento do gênero humano. Isto fica claro na medida em que vai atribuindo-se ao bode-expiatório condutas criminosas e malignas, generalizando todo um grupo ou coletivo, onde aquela conduta transgressora e criminosa é um hábito indissociável característico destas pessoas. Bode-expiatório vai ser estabelecido assim por ter certas características diferente em aspectos do dito cidadão comum, seja por fatores econômicos, físicos, religiosos, comportamentais. No momento em que se taxam indivíduos ou grupos como um corpo estranho a maioria, se propicia um ambiente para perseguições.

O que podemos tirar de lição de tudo isto, são os avisos constantes de certas teimosas e burras repetições das tragédias humanas. Ao que parece até mesmo com os erros estamos tendo dificuldades em aprender, batendo cabeça na parede até sangrar, para ai depois descobrirmos que seria mais fácil passar pela porta. Vai ficando cada vez mais a certeza de que são nos momentos extremos de crise, em que o pior da humanidade aflora em detrimento do respeito e empatia ao semelhante. Cada vez mais acuado, o dito bicho humano se comporta mais e mais de forma irracional, cometendo ações egoístas por demais, na velha relação de “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Ao que tudo indica a roda da imbecilidade humana não para de girar nunca.


Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC.
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