escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

Sobre Os Invisíveis

O perverso modo de como marginalizamos e ignoramos a humanidade daqueles que negamos enxergar.


Tantas coisas nos afetam no dia a dia, hábitos pequenos que nos movem no cotidiano nada concreto de uma vida atribulada, nos vícios e manias da modernidade, que nos exige tempo, dinheiro e disposição nos afazeres, estes afazeres que vez ou outra nos sugam tudo isto. A rotina criada em torno deste tripé nos tornam surdo, mudos e cegos para o que nos cerca. Acabamos por nos fecharmos no casulo, entrando num aparente ato de hibernação total os ambientes a nossa volta, absortos que ficamos perdidos em nossos devaneios e obsessões egoisticamente narcisistas.

Neste ápice da concretização de uma constante individualista, cada vez mais tencionada a transformar o humano e sua humanidade de cidadão a consumidor, de pessoas a números em alguma lista de cartão de crédito atrasado, fechamos os olhos para aqueles seres vivendo a margem de tudo, de todos e do todo: os excluídos invisíveis. Soa estranha essa noção de excluído invisível, sobretudo por ela soar de modo quase pornográfico para a língua portuguesa. Mas utilizo desta excentricidade para explicitar o quanto nos fazemos de cegos perante os semelhantes em situações de vida extremas, ignorados e taxados como inúteis imprestáveis pela esfera social ou meros trabalhadores dos ditos “subempregos” ao qual o senso comum imbecil considera como indignos ou de pouca relevância. 10253942_1597122657179094_5098536598968580813_n.jpg Fios imperceptíveis vão sendo tecidos em torno dos olhos, um véu construído por uma lógica mercadológica perversa em nossa cultura: viramos objetos com valor determinado, na ideia maniqueísta de quem presta para ser tolerado e notado, ou imprestável ao ponto de ser marginalizado, escorraçado para as sarjetas, abandonado aos infortúnios da hipocrisia social. Estes indivíduos invisíveis são ignorados em sua totalidade enquanto seres. A eles são negados as necessidades mais básicas de humanidade, muitos dos sentimentos e consideração que temos como algo corriqueiro e natural, para estes seria uma grande dádiva divina, a “benção” concretizada no sonhado milagre redentor de suas vidas.

Quem seriam estes invisíveis? Resposta simples para esta questão: são os imperceptíveis imprestáveis, aqueles que nos damos à pecha de fracassados por sua condição. O morador de rua que devido a infortúnios em sua vida faz do espaço público sua única moradia; O pedinte do sinal; a garota de programa ou a travesti da esquina; a faxineira do centro comercial; o gari da empresa de limpeza da cidade. Os exemplos são muitos, e a atenção dadas a eles ou a mínima consideração sobre sua vivencia é nula, sobretudo por parte daqueles que usam, abusam e em boa parte dos casos, ganham com a exploração de sua parca condição.

Suas realidades, verdades, experiências de vida, direitos a ter e ser lhes são negadas, excluídos por não disporem de meios ou serem “merecedores” da reivindicação para pertencerem ao mesmo mundinho hipócrita e cínico ao qual estamos inseridos confortavelmente. Utilizando de uma ótica perversa, vamos tratando estes como algo sem valor, numa determinante necessária a serem ignorados com boas doses de niilismo egocentrista. Os culpamos por suas condições de infortúnio, desmerecedores de empatia, pois a sua situação confirma que merecem estar passando e sofrendo as mazelas da vida. É escória justamente por isso, na ideia falaciosa de que o fracasso é deles e não da sociedade como um todo que os fez chegar a esta condição. homem-invisivel_1182.jpg Vamos então criando abismos espúrios desumanizando suas figuras. Não sendo humanos lhes é negado qualquer consideração a ser levada em conta na finalidade de respeitarem seus afetos, desejos, vontades e necessidades. Na visão dominante atual, eles não têm direito a sentir, ir e vir, encarcerados por muros invisíveis a um ambiente aos quais perversamente, os fizeram acreditar que acabaram merecendo estar em seu estado de fragilidade total perante a uma submissão, espécie de mortos vivos: a princípio ignorados, mas odiados e temidos por serem o que são.

A questão não é os taxarmos de culpados ou vitimas em todo o contexto da situação, e sim nós sairmos da nossa zona de conforto de privilégios, benefícios e de problemas ínfimos perto do que estes vivem, reconhecendo bem como respeitando o direito de serem o que são e que nós também somos que levamos em muita conta: SER GENTE. Valores como dignidade e reciprocidade que para nós são tão comuns na vida, mas que para eles seria uma conquista para enfim serem reconhecidos como seres existentes e visíveis ao semelhante, este semelhante que sempre passou por cima dele por nunca ter reparado (ou então fingindo não ver) ele como um IGUAL.

Eles não querem piedade, nem grandes atos de filantropia de algum escroque querendo tirar vantagem de sua situação de risco para autopromoção na mídia de alguma coluna social ou para um programa de TV, que na maior parte das vezes é uma tentativa de aliviar a consciência e seus pecados. Os invisíveis Querem VISIBILIDADE, RESPEITO além de garantias de poderem finalmente ter RECIPROCIDADE. Não apenas atuarem em nosso ambiente onde ainda uns são mais iguais que os outros, como aquela velha música canta. Muito mais do que serem transformados, eles almejam tornar-se os transformadores atuantes da sua própria condição.


Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC.
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