escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

SE JOGANDO AOS LOBOS DO PASSADO

A Insistência com o passado e uma memória seletiva, extraviando o desenrolar do presente.


Remoemos o passado a todo instante. Ele serve para nos julgar a cerca das mais variadas formas de interpretação sobre o porquê de estarmos em uma situação no presente e vislumbrar opções de um incerto futuro. São pensamentos corriqueiros e mundanos em boa parte do tempo, mas, entretanto, porém, a certa feita, a ideia de que o passado simplesmente passou se torna uma falácia das grandes. Ele parece que não se separa de nosso cerne, agindo como determinante nas situações do atual momento, ou seja, o passado está presente (em toda a sua temporalidade) no presente.

Vamos confabulando pensamentos e inferindo dentro de nossa esfera de vida, as representações e posicionamentos que temos dado ao nosso passado. O passado é para a História na maior parte das vezes, o grande juiz do tempo: condenando, absolvendo, glorificando ou censurando as coisas. Assim como deveria ser a conduta de um juiz, o passado atua no presente seguindo os formalismos de leis que regem o fluxo temporal. Sua balança não irá pender para um lado, pois para o passado não existe dois pesos e duas medidas, ele simplesmente o é e não existe recurso ao alcance da pobre humanidade atualmente que possa ser usado para altera-lo. passado-presa-estagnada.jpg O juiz que o passado encarna por vezes se transforma em um carrasco, e assim sendo, sua piedade é nula e resolve fazer seu serviço de executar o pobre condenado da alma humana. É inerente a nós usar o passado como um eterno modelo do que se fazer, e acima de tudo, do que não fazer. Confúcio explanava que para se prever o futuro era preciso compreender o passado; Lamentar uma dor passada, no presente, é criar outra dor e sofrer novamente, assim dizia Shakespeare. Em suma, do mais simples trabalhador aos grandes intelectuais ao longo da existência da humanidade, o passado vai servindo de muleta para buscarmos compreender o presente e assim, possibilitar, como frisou Confúcio há séculos atrás, se precaver contra futuros dissabores.

Ai entramos num ciclo onde nós mesmos agimos, num radicalismo binário de recorrente incoerente do 8 ou 80, de tentar reviver partes do passado endeusadas graças a dores atuais. Aqueles que como eu, são acometidos pelo mal moderno da humanidade chamado ansiedade, irão entender o que digo: tentamos reviver o passado, assim acabamos não vivendo o presente e por fim tememos o futuro. Com os grilhões da saudosa memória, na ilusão gerada pelo sentimento da saudade que o passado sempre fora muito melhor que o presente, onde mudanças são dolorosas por demais a se encarar. Demonizando nosso presente, fugimos de nossa realidade, escondendo-se nos usos e abusos da memória seletiva, que escolhe só o que lhe convém. Em Nome do passado, jogamos o presente e futuro aos lobos.

O auto-engano é moeda utilizada para esquecer tudo aquilo que incomodou ao longo de todo o tempo. Selecionamos cinicamente as lembranças aos quais nos apegamos para assim convencer a si mesmo de que o que ficou lá atrás era realmente melhor, idealizando e encarnando os ocorridos anteriores como uma bela fábula, um conto de fada onde vivíamos felizes para sempre, na doce e venenosa ilusão. O apego aos velhos hábitos, antigos métodos e meios utilizados para inúmeras situações são permanências no presente, de nossa teimosia em aceitar que as correntezas ao qual irão desaguar as águas da história são incertas e sujeita a mudanças, não sendo necessariamente boas ou ruins. Ao que parece, nossas ações acabam nos qualificando como espécies de seres reacionários e conservadores ligados umbilicalmente a (certa) memória. Os-Lobos-de-Paris-1.jpg Antigos sentimentos e resquícios do saudosismo emocional são praticamente impossíveis de nos desconectarmos, mas parece que usamos a saudade do passado como os 10 mandamentos para o presente. Construímos comparações entre estes tempos de maneira ingênua e tola, não há meios e termos para comparar o que aconteceu com o que está acontecendo, pois o fato ainda não está finalizado. O que nós sentimos é que impulsiona por fim ao que iremos lembrar e esquecer, ou até mesmo transmitir enquanto memória. É preciso ressaltar que esquecer também formula as ligações entre presente e passado. O problema é que não se deve, com o exercício do esquecimento, ausentar e ocultar momentos e situações. Neste quesito vamos apenas preenchendo a mente não com uma memória dos fatos, mas sim com uma imaginação surrealista do ocorrido.

A humanidade tenta nos seus vislumbres de horizonte na relação de passado, presente e futuro, buscar solucionar as mazelas tanto do individuo quanto do coletivo. Todo esse exercício é, sobretudo, uma eterna busca para se autocompreender enquanto ser, através das experiências, seja elas dolorosas ou prazerosas. Ai que reside todas as aflições, pois a compreensão teoricamente não está sujeita a erros, pois ela está sempre incompleta, nunca termina na constante mudança de nossa existência dentro do tempo e espaço. Nessa busca por compreender, a felicidade plena é a utopia que vamos buscar no estranho ninho que formulamos dentro de nosso mundo, e cada individuo tem não apenas um, mas diversos mundos dentro de si e que vira e mexe, entram em colisão.


Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC.
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