escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

Entendimento, tolerância e abstração do contrário

O complicado exercício de respeitar opiniões opostas num debate sadio, sem cair na armadilha de tolerar discursos de ódio nocivos.


Sempre pensamos em como proceder acerca de respeitar opiniões contrárias à nossa. Para estabelecermos um debate e troca de ideias amistosas, sem acirramento de ânimos ou excessos, de ambos os lados - que convergem, via de regra, em troca de farpas e discursos perniciosamente agressivos - faz-se mais do que necessário conseguir ser paciente com o pensamento diverso ao seu. Buscar no diálogo entre posições opostas um frutífero debate, e não uma luta encarniçada de retórica enviesada.

Numa sociedade tão complexa e diversa como a nossa, na qual atualmente o excesso de informações e opiniões se transformaram em produto mercantilizado aos borbotões pelas redes sociais e tantos outros veículos de comunicação, opinião entrou no hall das grandes causas dos conflitos verbais internet afora. Cada lado partindo de um binarismo latente, das clássicas referências de 8 ou 80, “nós contra eles” e outras frases chavões. Estamos no tempo das fissuras de discursos cada vez mais imbuídos de obviedades inquestionáveis, sendo louvadas no altar do infame senso comum.

Esta conjuntura parte de como vamos estabelecendo em certa medida, nossa aversão ao pensamento discordante, julgando tal na maioria das vezes como absurdo ou em boa parte do tempo, falta de conhecimento glorificado pela cegueira do puro achismo. Somos tomados pela prepotência de julgar-nos superiores e mais esclarecidos, simplesmente por termos uma opinião em determinado assunto como algo moralmente acima de qualquer suspeita, carregados do mais perfeito ideal ético e benfazejo. Vamos assim crendo que estamos tomados de toda a razão mundana, irredutíveis a considerar aqueles que pensam diferente como seres de iguais capacidades cognitivas porque possuem uma visão diferente de mundo.

Isso possibilita e da força para que cada vez mais os discursos de ódio vão saindo de suas sarjetas, conseguindo destaque e sendo publicizado aos 4 cantos. Nada mais fácil para semear discursos de ódio irracionais e condenáveis do que um ambiente dicotômico, onde o radicalismo de opiniões é via pavimentada para este tipo de opinião, pois afinal das contas, ódio e medo são sentimentos facilmente explorados, sendo de forma assustadora assimilados pelo público. Desta feita, nos afastamos do debate porque na maior parte das vezes, o que nele está sendo pautado agride, afeta de tal maneira psicológica e emocional, que conversas banais e certas afirmações(geralmente ofensivas) se tornam violências extremas ao nosso ser. dssa.jpg Entramos então numa complicada vereda, que é afinal das contas, buscar respeitar as opiniões contrárias e divergir delas sem que isto descambe para excessos ou discursos ofensivos. Ao contrário do que poderia se imaginar, a disponibilidade de informações que hoje possuímos está nos levando a tendência de concentrarmos em pequenos guetos de pensamento e opiniões iguais as nossas, estabelecendo uma zona de conforto, nesta espécie de proteção inconsciente aos nossos ideais e pretensas verdades absolutas. Construímos uma redoma que só adentrem em nosso campo de saberes e conhecimento aqueles em ressonância com nosso modo de enxergar as coisas, excluindo totalmente de nossa vista outras perspectivas.

Agir desta forma é claramente inadequado para uma possível melhora em todos os contextos de nosso convívio social, mas se pensarmos friamente, reagir desta forma é natural, já que pensamentos realmente nos afetam de modo visceral. Vai muito além de questões ideológicas, gostos ou preferência, mas sobretudo na maneira de vivenciarmos as coisas. O estilo de vida e modo de como encaramos o cotidiano vai sendo afetado pelos pensamentos nocivos e permissivos que muitos cultuam como certo, encaixado nas normas e padrões. O problema é que essas normas e padrões são as dos outros, e não a nossa.

Temos que saber ao menos diferenciar, e bem, que nem toda opinião divergente se torna necessariamente errônea ou descartável. Para rebater uma opinião contrária é preciso de argumentos, e vamos aprendendo na busca desses argumentos novos saberes, graças a discussão estabelecida com ideias opostas. Lembrando que nem toda opinião contrária se torna um discurso ofensivo a sua individualidade, muito menos é de fato, um preciso discurso de ódio. Ter ciência dos abismos que existem entre uma opinião contrária e um real discurso de ódio não é um mero exercício de tolerância e abstração de ideias: é peça-chave para compreendermos muito mais nós mesmos do que o outro. 31b.jpg Obter o entendimento das divergências é essencial para não cairmos num eterno ciclo vicioso, onde tudo é uma eterna e confusa batalha de Bem VS Mal. Também se faz necessário estabelecer limites de tolerar e abstrair um pensamento agressivo, sobretudo quando este descamba para um discurso de ódio repleto dos mais condenáveis estereótipos e preconceitos, pois no momento que uma opinião se torna um discurso de ódio, ela perde sentido, força de argumento, virando algo tão doentio quanto uma gangrena exposta. As linhas de separação entre estas não é tão fácil assim de serem reconhecidas e estabelecidas, ficando evidente para a necessidade de um ambiente sadio e respeitoso, conseguir estabelecer esta diferenciação, evitando a metamorfose de si em um intolerante de mente fechada e obtusa.

É um exercício difícil, onde demanda-se paciência de Jó almejando um resultado satisfatório. Neste processo de aprendizado, percebemos a que pé esta a nossa empatia pelo outro, o quanto ela está refletindo na verdade, o nosso modo de ver, perceber, encarar e nos relacionar com o mundo que nos cerca. Sair da esfera de comodismo intelectual faz com que assim, enxergamos a enorme massa cinzenta que está entre as pontas pretas e brancas. Compreender aquilo que nos incomoda ou machuca é tarefa primordial para ao menos, amenizar estas dores de parto da discordância.


Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC.
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