escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

O Mal-estar das “Boas festas e próspero ano novo”

A obrigação desconfortável em agir segundo o roteiro do final de ano e o planejamento excessivo do próximo que está por vir.


Os idos de fim de dezembro trás reflexões, pensamentos e ideias do que foi feito ao longo do ano que passou e o que deveríamos ter realizado a mais para concretizar nossos objetivos. Envoltos em questionamentos do que, como e quando fazer determinadas ações para enfim, conseguirmos transpor as barreiras impostas durante os dias do próximo ano e qual a melhor forma para que ao frigir dos ovos, pesando desgostos e lamentações, a balança seja positivo.

Entretanto, nada é tão simples e direto quanto o descrito no paragrafo acima, antes fosse. Em boa medida, as formulações e metas nos prendem a prisões internas, transformando um pretenso enfoque em problemas a serem resolvidos, numa obsessão paranoica. Das coisas mais mundanas e corriqueiras, como emagrecer ou buscar fundos para comprar um carro, até algo envolvendo uma nova vida e com fatores extremamente complicadores como ter um filho: tudo passa a virar algo obrigatório e não um sonho em si, obrigação da qual sua vida dependerá totalmente da sua realização. Esta é uma vereda ao qual adentramos gera uma visão estreita das ações, por vezes fechando portas e caminhos que nos possam levar a conseguir alcançar o que se quer, não necessariamente seguindo aquela cartilha imposta outrora. 86298-pageimage-444773-2606585-1208-plakas_crowd.jpg Consequência também observada é o modo de impingir a si mesmo os objetivos como cruciais para o nosso bem-estar e plena satisfação, mas fazendo justamente o contrário. Frustração, stress, além da velha companheira ansiedade, são ingredientes nada aprazíveis para quem começa a se importunar excessivamente em fazer o ano ser melhor que o anterior. Criação e de uma expectativa exagerada aliada a uma pressão tanto interna quanto aquela imposta pela cultura social cada vez mais ligada a prazos, resultados no menor espaço de tempo possível causam incomensuráveis sintomas negativos, influenciando para baixo nossa criatividade e produção, debilitando a inventividade humana em sua plenitude.

A época ligada ao final de ano por si só já é complicadora, pois forçação de barra em tentar parecer feliz e alegre com natal e ano novo virou uma regra tradicional. Dar aquele sorriso amarelado, tentando parecer estar se divertindo com aquele ambiente, quando na verdade o tudo o que se deseja é desnudar o véu, ainda que de leve, desta hipocrisia de fingir uma emoção agradável. Não estou falando que não ficamos alegres no momento em que ocorrem os festejos, mas o clima criado para impelir as pessoas a se portarem de acordo com o script de “Boas Festas e próspero ano novo”, é algo que no amago da verdade dos fatos, imprime mais raiva e um profundo desconforto, questionando sobre se o que se está passando por nossa cabeça acomete também o semelhante.

Agimos como autômatos nesse sentido, com o riso forçado, no cumprimentar sem força nas mãos, na raiva em estar numa fila enorme de compras ou no transito caótico da cidade nesta época do ano. São os mesmos movimentos e atos realizados por uma massa seguindo o mesmo enredo frustrante de agir de maneira igual, apenas por estar atrelado a um pensamento impulsivo abraçado e legitimado como atitude cultural já espraiada e sem volta. Nada de questionamentos sobre como e porque estamos tendo determinadas ações simplesmente por ser final de ano, apenas vamos seguindo a toada do admirável gado humano e suas convenções habituais.0001213.jpg

Vamos impondo inúmeras maneiras de desconfortos psicológicos, físico e emocionais em nome de ideais vagos como “auto realização”, sucesso pessoal”, “estabilidade de vida”, metas sem uma definição em si, acarretando numa agonia latente, pois o conceito destes termos é tão subjetivo que vamos percebendo que aquele planejamento organizado acabou virando um grão de areia em meio as dunas do deserto. Nada mais perverso do que ser sabotador das próprias esperanças afim de evoluir em algo mais afeito aos nossos sonhos, justamente por querer de modo obsessivo-compulsivo estes.

É o desespero e a ânsia da melhora vem ao que tudo indica, como peça auxiliar na engrenagem de desgostos futuros. Não perceber os poréns de uma ambição desmedida nos leva ao mal-estar da sociedade atual: o apego ao relógio. Tudo é exigido para o agora, fazer mais rápido e em quantidade, e a qualidade, bem, a qualidade deixamos para discutir no ano que vem.


Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC.
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