escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

O Fardo do EU

Lidando com o peso de perceber você mesmo e suas peculiaridades, aos quais carregamos pela vida.


Destas coisas a se pensar sobre si e tudo que nos cerca, tem se aquilo que chamamos da lucidez aterradora. Explico: Essa lucidez que por fim alcançamos nos consome em uma profunda angustia derivada da consciência de nos percebermos enquanto o que somos, ou seja, a realidade do EU. Esta realidade nada mais é que tomarmos conhecimento das coisas e de tudo que nos cerca, nos forma, transforma, modifica. Indo para além dos campos do externo, o que realmente vai pesar e nos atormentar nosso ser é de fato aquilo que sentimos, do tamanho disto e da fragilidade aos quais eles estão embasados.

É o peso de ter a ciência de o que nos estrutura e constrói é gerador de uma agonia presente, nos consumindo em um fluxo de questionamentos, rancores, remorsos e culpas num lopping constante. Nisto tudo reside o fato de que nos deparamos com as nossas sombras. Parte de nós em que relutamos enxergar, e quando isto acontece, em frente ao espelho não vemos uma mera imagem distorcida de nossa personalidade, mas nós mesmos vendo a face do vilão habitando o mesmo corpo e mente do herói.

Neste sentido, vamos retomando o velho passo a passo de remoer erros, falhas e defeitos. Ficamos em cima das coisas em que prejudicamos os outros e a si, na dureza de perceber o quanto se pode ser algo que jamais sonharia em tornar-se. Vamos neste processo detalhando os passos e atitudes tomadas desde o principio, conjecturando cada ato, ação e decisão. Acertos parecem ser raros, enquanto os erros são tsunamis avassaladoras, levando em sua correnteza as certezas que antes tínhamos sobre o EU. Assim as duvidas surgem solapando tudo, questionando tudo aquilo que tínhamos como concreto de nossas crenças irem pelos ares.

É o que chamo do Fardo do Eu. De todos que vamos carregar durante a vida, este é o mais pesado e continuo. Ele sempre estará conosco, e em sua esteira os anseios, angustias, perguntas, duvidas, temores, arrependimentos, bem como sonhos, objetivos e certa esperança, sendo como ingredientes da grande receita que vai resultar no que somos. Tudo isto está na ideia do que é necessário para sermos um ser singular, único em toda a esfera terrestre, em suma, o que nos torna um individuo. São nas mesmas sensações que acometem a todos, que nos diferencia do restante. Na similaridade usada para a peculiaridade. 0culpa77.jpg Vai se carregando a noção de insuficiência, crer que acaba sendo esclarecido por justamente perceber a incapacidade e fraquezas que nos constroem também. Está lucidez cobra seu preço, vemos com muita clareza as debilidades e preconceitos entranhados em nosso subconsciente de tal forma, que agimos quase que no automático. Aquela velha ideia é uma meia-verdade: “sei que é errado, imbecil, mas porque diabo fez?”. Não se tem muito como fugir disto, a não ser policiar-se para evitar os mesmos atos falhos, mudar-se aos poucos que o mundo muda, ao menos o seu.

Contudo existem os casos dos chamados amores perdidos, remoídos ou retorcidos. Estes acompanham mais forte, nos limitando a um pequeno fragmento do passado que fora demasiado bom outrora, mas que no presente atual parecem construir um vácuo temporal, engolindo tudo o que se aproxima dele, indo para um limbo. No Fardo do Eu, o remorso e a saudade parecem nos levar a um tribunal, onde somos o próprio júri, juiz e carrasco, sem direito a defesa de nós mesmos com a mesma sentença: culpado por não ser suficiente, seja em amar ou ser amado.

E assim vamos às favas contadas, onde nos transformamos cada qual em uma ilha, distantes em um dos outros por léguas no oceano, cada arquipélago com suas especificidades e rotina própria. Digamos que neste processo o meu EU se despreza, enxergando dentro de si aquilo que mais lhe desespera, em que seus erros destruíram as pontes que tinha com as outras ilhas que o EU quer bem, necessárias de ter uma ligação consigo.

Seguimos assim, Carregando o Fardo do EU. O EU de outrora, O EU que deixou a banda tocar e passar, O EU que percebeu que amou demais tardiamente, O EU teimoso, O EU que não se perdoa. Mas não nos deixamos cair em desespero total, O EU faz parte da vida, e assim segue há milênios, talvez uma das poucas constantes históricas certas da humanidade.


Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC.
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