escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

O Futebol Do Inseguro Macho Sul-americano

Os reflexos do ranço chauvinista masculino no espaço futebolístico da América do Sul.


Assistindo ao jogo entre Palmeiras X Cerro Porteño pela Taça Libertadores, me deparei com a entrada criminosa dada pelo jogador Palmeirense Felipe Melo no adversário da equipe paraguaia logo aos 3 minutos de partida. Totalmente desnecessária, a falta cometida pelo atleta brasileiro foi extremamente desleal, violenta e descabida, pondo o escrete palmeirense em uma situação complicadíssima, tendo que jogar praticamente o jogo inteiro com um componente a menos em sua equipe.

Minha reação inicial é claro fora de perplexidade pela atitude extremamente burra e ignorante do jogador, já que desportivamente o prejuízo para qual a equipe que ele estava jogando era imenso, deixando em risco a classificação de seu time ,que havia vencido o jogo anterior pelo placar de 2x0. A equipe paulista estava com a classificação para a próxima fase do torneio nas mãos, e que subitamente, graças ao desatino animalesco de seu meio-campista, ficou seriamente ameaçada. O Palmeiras ao final do jogo acabou se classificando, mesmo perdendo a partida por 1x0, em um jogo onde os nervos ficaram a flor da pele e o nível de catimba e anti-jogo por parte da equipe brasileira foi alto. felipe-melo-31082018002253919.jpeg Bom, para aqueles bem inteirados em como tradicionalmente se trata a forma em que é disputada a Libertadores da América, esta foi uma partida tipica do certame sul-americano: violenta, catimbada, milongueira, levada ao final com doses cavalares de disputas ríspidas e desleais. Ou seja, do ponto de vista de como se pratica o futebol dentro do torneio, foi uma partida tipica. Contudo, isto que achamos ser comum como parte da cultura futebolística desta competição continental, deixa muito explicito, se pararmos para refletir sobre esta situação, da atual condição sociocultural sul-americana. É nisso que passei a pensar após o término da disputa entre as equipes Sudacas. O que vemos em campo durante as partidas da Copa Libertadores da América é o espelho concreto da sociedade de nosso continente, para as coisas boas e ruins.

Tudo que envolve o ambiental de uma partida do nobre esporte bretão no torneio de clubes mais importantes na América do Sul é a imagem do espirito da população nas festas realizadas nas arquibancadas, em nossa inventividade de incentivar o clube de coração com um ardor desmedido, tresloucado e sublime, sejam argentinos, uruguaios, chilenos, brasileiros, paraguaios, peruanos, colombianos, equatorianos, bolivianos ou venezuelanos. A festa nas arquibancadas é algo sensacional onde se pode respirar paixão pelos ares, estando acima dos dissabores do difícil cotidiano destas populações. Mas infelizmente isto é acompanhado pelas chagas das dores de parto das sociedades Sudacas.

A violência explicita que por vezes ocorre em campo se expande até as arquibancadas, em arroubos vexaminosos de uma tentativa de demonstrar a virilidade de macho alfa dominante. Isto diz muito sobre a cultura admirada e cultuada nos altares das instituições e pelo homem sul-americano. O mundo do futebol não é algo isolado e fechado em si mesmo, ele faz parte do macrocosmo social em que está inserido, e muito do que acontece dentro da comunidade do futebol nada mais é que influência do que ocorre na sociedade que a cerca. Vamos começar pela instituição que organiza a Copa Libertadores, a Conmebol, entidade máxima do futebol na América do Sul.

Ela é corrupta, ineficiente, burocrática e sujeita a influencias do poder econômico e politico. Escândalos envolvendo a entidade são inúmeros, uma rápida pesquisa no Google com a frase “Conmebol e corrupção” deixa isto bem claro. O órgão regulador do Futebol por estes lados está cercada por suspeitas de arranjos e manipulação de arbitragem em jogos, com gravações de ex-dirigentes do futebol como o falecido presidente da AFA( Associação Argentina de Futebol) Júlio Grondona, admitindo ter escolhido árbitros para favorecerem equipes argentinas contra seus adversários.

Sendo controlado por uma instituição que não serve de exemplo para ninguém, impera dentro do futebol sul-americano um quadro completo de inércia e descaso em relação a violência, desde a arquibancada para os campos. A Copa Libertadores da América tem um histórico de batalhas campais, afora tentativas de invasão de campo, a mais recente durante a Partida entre Santos X Indepediente, em São Paulo. Confrontos entre torcidas adversárias se tornou corriqueiro, onde os alambrados que cercam o campo se tornam uma espécie de octógono de um vale-tudo, em que se utiliza qualquer artefato como arma. Lembremos da morte do menino boliviano Kevin Espada, após ter sido atingido no olho por um morteiro disparado por um torcedor corintiano, durante a partida entre Corinthians e San José, na Libertadores de 2013. A morte do garoto gerou apenas punições leves, brandas por demais aos envolvidos, tanto torcedores quanto os clubes. 6980180_x720.jpg Este Comportamento irracional e animalesco, tanto por parte das torcidas quanto dos jogadores e clubes envolvidos é na verdade, a exemplificação daquilo em que a sociedade sul-americana esta calcada: num Patriarcalismo obtuso, na glorificação da macheza pela força bruta, pela personificação do homem ideal sendo aquele em que a testosterona exala pelos poros. Este comportamento tipico dos tempos em que o Homem de Neandertal habitava a terra é celebrado por boa parte da cronica esportiva sul-americana, onde a vitória através da força, da luta sangrenta e da utilização dos mais diversos subterfúgios lícitos e ilícitos, é enxergada como ápice de um clube futebolístico.

Este aspecto não foi debatido por praticamente todas as grandes mídias esportivas após o fim das partidas desta semana durante a Copa Libertadores. Muito pelo contrário, exaltaram as reações de “força”, “garra”, “valentia”, em que os jogadores das equipes classificadas para a próxima fase do torneio demonstraram ter “aquilo roxo”. Porém esta “força”, “garra” e “valentia” são meras figuras de linguagem que mascaram um comportamento violento, intempestivo, arrogante e bárbaro. Não duvido que daqui uns tempos veremos jogadores entrando em campo pela Libertadores com Tacapes na mão para parar um ataque adversário na base da pancada.

Todas estas questões levantadas deixam claro o quanto a masculinidade por estas bandas é frágil. É através destas atitudes realizadas dentro do ambiente futebolístico, que surge esta necessidade recorrente de afirmar a sua macheza. O homem sul-americano entranhou em sua psicologia social sociopatias ligadas diretamente ao culto do constante estado de guerra do macho-alfa. Na insegurança de demonstrar sua virilidade, acaba confundindo vontade com deslealdade, coragem com agressividade e esperteza com trapaça. Isto não é novidade se pararmos para pensar, pois nossa sociedade é assim. O homem desde a mais tenra idade tem que demonstrar “força”, não chorar ou ser delicado, se comportar de forma máscula e onipotente. O homem acaba sendo educado para possuir estas características como modelo a se seguir de masculinidade.

Neste Visão deturpada e obtusa de mundo, tanto futebol quanto sociedade perdem. O futebol praticado hoje nos gramados sul-americanos, que outrora possuiu as melhores equipes e seleções do mundo, hoje somente exporta seus jogadores como mão de obra para grandes clubes europeus. Parece que se assiste outro esporte quando comparamos qualquer jogo de um grande campeonato europeu com os nossos aqui abaixo da linha do Equador. Apesar de crescer nos últimos anos, a presença de mulheres ainda é pequena nos estádios de futebol, graças ao machismo imperante neste espaço. Ainda a que se destacar a homofobia latente dentro das torcidas, com cânticos claramente deste feitio.

Por mais que certos setores resistam e fechem os olhos para isto, a verdade dos fatos é uma só: O Futebol não está a margem da sociedade, é sua extensão de disputas e fricções de uma sociedade em crise.


Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Guilherme Lima