escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

O desconforto angustiante de celebrar as "Boas Festas"


Chegamos nesta época do ano e os sentimentos parecem florescer de súbito, graças ao ambiente propicio de festas e celebrações. Contudo, nada parece ser tão assim festeiro para boa parte dos seres humanos deste lado ocidental do planeta Terra. O clima de aparente felicidade incomoda por demais em muitas situações, afinal, a comemoração em muitos termos é uma fuga momentânea de todo o percurso do ano que está por terminar. Nada mais passageiro do que o ano que vai se finalizando, dos seus dias que minguam e que aguardam o horizonte de expectativa do ano que vem. O que me incomoda (e creio que a muitos) é todo um preparativo de súbita alegria que contagia. Porém, esta sensação de reunião, confraternização e união dos povos se esvai e se torna algo de algumas horas, ficando apenas num belo discurso e não indo para a concretude da realidade. Estas emoções e palavras de generosidade para com o próximo se tornam, vamos ser sinceros, tão falsos quanto aquela maçã de plástico servindo de enfeite da mesa da sala de jantar da ceia de natal.

É difícil para mim e para tantas outras pessoas ao redor do globo, entrar neste espirito de “boas festas”. Tendo passado por certos obstáculos, lutas e conflitos tanto externos quanto internos, a comemoração se torna algo insipido. O culto a algo que fora extremamente custoso que foi o ano que se encerra acarreta numa angustia tremenda, pois nele depositamos as velhas esperanças do ano passado e ao que parece, não se concretizaram. Muito pelo contrário, apareceram mais e mais conflitos e batalhas as quais não sabemos se foram perdidas, mas ao que tudo indica elas não foram vencidas.

Outro fator que contribuiu para que boa parte desta humanidade ansiosa não se encaixar nesta onda de falseada alegria, é que nesta época do ano fazemos uma retrospectiva de tudo que ocorreu, e aí os erros e problemas são relembrados. Planos que não se concretizaram; idade chegando; crises existenciais, dores de amores perdidos, ausências de pessoas a quem magoamos e deixamos pelo caminho; amigos e familiares que já passaram para o outro plano, em suma: internamente estamos em frangalhos, mas nos obrigamos a esboçar um grande sorriso e comemorar para não sermos “inconvenientes” e estragar a festa.

A antiga sensação de ser um fracasso aos olhos do mundo, é o que atormenta boa parte dos seres que sentem o desconforto do final do ano. Reviver de certa forma, todas as incapacidades humanas e as crises crônicas. Ser um peso para os familiares, nada de atingir os objetivos, incapaz de progredir e atingir aquilo regido pelo tecido social como sucesso. E assim, você mesmo não se valoriza, sendo o juiz de si mesmo, ao se condenar como o mais abjeto dos humanos. Holiday-Blues-1_0.jpg Essa sensação povoa a mente, e não há como escapar desta conjuntura apresentada. Somos forçados por toda uma cultura de espetáculo que repete um mantra de ano pós ano, como o show do Roberto Carlos na TV globo, em uma idílica e hipócrita celebração para comemorar um ano custoso. Nada de alivio por ele ter terminado, mas comemorar o mesmo e esta reunião. Sei que tudo que estou detalhando aqui no texto soa como papo de “velho rabugento”, entretanto isto não invalida o que aqui expus como algo real: Para muitos a balburdia de comemorar e sair por aí sorrindo para pessoas as quais passaram o ano inteiro lhe espezinhando é um suplício.

O ambiente criado nesta época na verdade só contribuiu ainda mais para que se entre em sensações que acabam por deprimir e estorvar qualquer chance de sossego. É desgastante ter que confraternizar forçosamente, obrigação de costumes em que ano após ano vai se perdendo o sentido. Reuniões familiares em que vamos nos encontrando com fantasmas do passado que sempre nos agouraram, e por vezes são esqueletos presentes no armário da família que podem aparecer para nos assombrarem como de praxe nestas épocas.

Não é questão de que este texto seja algo anti-natal ou ano novo, muito pelo contrário. O ideal é que aqueles que não se encontram nesta posição de se sentirem angustiados e chateados nesta época, que se aproximem de seus amigos e familiares que assim se sentem, não com um “FELIZ NATAL”, mas com um abraço sincero e com “ foi difícil o ano, precisando de alguém para desabafar, estamos aí”. Este silencio, por incrível que pareça, é um grito de socorro velado, de alguém que precisa expor para outrem sua situação de cansaço por parecer sempre bater com a cara no muro e nada parece avançar na vida.

Para aqueles permeados pelo descontentamento ansioso neste período, o melhor presente de natal seria compreensão e paz de espirito e mente. Seja empático, estimule conversas, e mais do que falar e distribuir conselhos inadequados, tenha ouvidos para escutar o que se passa com o outro. O ano não fora fácil para ninguém, mas muitos possuem uma sensibilidade e dificuldade para se enquadrarem neste ambiente fantasioso de final de ano. Portanto, ser ouvinte de desabafos sinceros é o melhor presente que você possa dar para alguém nesta época.


Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC.
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