escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

Reflexões de José Saramago sobre o amor e morte em Florianópolis

O que diria o Lendário escritor português (ao se fazer uma imaginativa carta atribuída a ele) sobre a morte de entes queridos e de amores amargurados.


“Das coisas afins que ando fazendo comigo mesmo? Parece que entrei em uma espécie de limbo, não sentindo nada, tudo parece sem gosto, insipido, onde a única certeza é a distancia. Sinto-me cada vez mais afastado de tudo. Ando em termos da sem fim, isolado daquilo que amo, impedido pelas circunstâncias em exercer o direito do livre sentimento. Escrevo isso enquanto observo um casal ao luar em um balanço a beira mar. Ironias do cotidiano: enquanto uns se lamentam fazendo uma ode a eterna dor de cotovelo, outros se refastelam nas caricias e emoções, que mesmo passageiras, são aquilo que podemos chamar de sopro de vida. Tortas letras estas que viram mera lembrança de que nada tenho enquanto refugio para as aporrinhações da vida.

Retórica da esperança vindoura já se esvaiu. Assim sigo como o velho brinquedo da infância: depois de certo tempo ele perde o encanto, deixado a margem sem serventia, pois ele é insuficiente. O mundo se deforma, e no meu caminho de deformado cada passo dado é a crônica da zombaria prescrita, a balada da canção de um triste riso esquizofrênico. Ai daqueles pobres mortais, que assim como eu, o descarte parece ser tão certo quanto o ir e vir das ondas do mar. Tolo sou destas andanças solas por ai, consumindo tempo para nada ser, ou um ser nada. Tudo se anestesia nestes trilhos de minha rotina de tédios, mesmices e outras derivações da modernidade. Na tragicômica peça que enceno por viver, creio ser o palhaço, o mordomo assassino e a moça indefesa, ambos sofrendo injurias das matreiras linguás que andam por ai a disseminar fofocas e pós verdades. saramago1.jpg A morte daqueles a quem um dia fizeram parte da minha vida são parte de um pedaço do presente que se vai, embora a memória (está auxiliar da história nem sempre bem utilizada) preserve aquilo de bom que foi-se realizado. Não sei que possibilidade nas ventanas tenho cá este que vos fala, afinal, Para perceber a ilha é preciso sair dela, mas não sei o caminho ou a rota para sair deste pedaço de terra cercado pelos mares, ainda não encontrei essa ponte entre o racional, emocional e psicológico.

Quando aqueles que foram nossos antecessores enquanto progenitores da arvore genealógica a qual pertencemos, uma parte se encerra e a outra renasce. Nesta arvore podamos um galho para outro nascer. Sabe-se lá como este galhudo irá florescer, se cheio de frutos, com ervas daninhas e musgo, ou todo retorcido e quebradiço. A incerteza é a única certeza, bem como a ausência daquilo que findou. Fica o legado, a lembrança da velha infância compartilhada entre avós rabugentos mas cheios de concreta razão e netos hiperativos que nada temem pois nada ainda conhecem. Cegos humanos, neles me incluindo, se esbarram andando em repetidos circulares de monótona sede de existir, quiçá essa existência fora completa se exercermos e termos a capacidade de reconhecer as bravatas dos bravateiros. Seguimos um ciclo não organizado por nós mesmos, e sim aquele rede oculta dos meandros e costumes sociais prescrevidos a todos e a tudo.

Nesta boa conta fico com a lucidez racional dos loucos de amor, Racionais e lúcidos sim são aqueles acometidos pelos espasmos de amar, afinal de contas, nada mais certo na visão destes o sentimento que carregam consigo.”

Carta encontrada em uma praia da Cidade de Florianópolis, a quem especialistas atribuem a José Saramago, quando ainda nutria o luto pelo falecimento de sua avô, e claro, quando exercia a rabugice característica quando ainda não tinha encontrado sua estimada esposa Pilar, haja visto sua ranzinzice por estar tão só quanto faroleiro no farol.


Guilherme Lima

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