escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

A Construção do “Herói” Sérgio Moro e Sua Jornada Nada Heróica.

Como foi a construção e engrandecimento da figura de Sérgio Moro Como Herói Nacional brasileiro.


Nos últimos dias, fomos bombardeados com o escândalo impulsionado pelas reportagens do site The Intercept, acerca das ilegalidades cometidas pelo então Juiz Sérgio Moro e o procurador da força tarefa da Operação Lava-jato, Deltan Dallagnoll, onde estes, através de conversas nada republicanas entre a parte de acusação e um Juiz, combinavam um modus operandi para afinar seus passos e medidas referentes aos processos que estavam sob o âmbito da Lava-jato. O que se segue dessas conversas é o detalhamento de uma série de arbitrariedades que ferem de morte as prerrogativas do estado democrático de direito, referentes a conduta e decisões de um juiz e é claro, a lei pétrea de nosso país: a constituição.

Sérgio Moro de fato, instaurou um modelo persecutório e ilegal, pautado em premissas escusas e de interesse pessoal, se portando de uma forma colossalmente ilegal, imoral, narcisista e antiética. Nisto, não agiu como um juiz, mas como um inquisidor pautado em suas próprias crenças e motivações individuais, tais quais seus semelhantes durante a idade média, quando lançavam a fogueira milhares de pessoas por simplesmente duvidarem de seu caráter. Assim como Moro e Dallagnoll, estes agiam somente com convicção, nunca evidenciando as fontes de suas acusações, ao que tudo indica. Mas as atitudes e ações cometidas pela operação Lava-jato e seus comandantes, só foi possível, graças a uma boa parte de uma rede complexa de relações publicas, e de um esforço e propaganda midiática das Operações realizadas pelo grupo da lava-jato. A mídia, sobretudo os grupos de comunicação hegemônicos e de poder elitista, tiveram um papel crucial para alavancar, estimular a aprovação e obter a comoção popular para as ações da Lava-jato e também a construção da figura de Herói do Personagem Juiz Sérgio Moro, figura esta enaltecida por diversas personalidades populares.

O próprio Juiz Sérgio Moro delineia a importância da Mídia para orquestrar os métodos por ele perpetrados: "O juiz tem compromisso com fatos, provas e leis. O juiz precisa nesses casos de processos com pessoas poderosas, do apoio da opinião pública". Contudo, parece que a primeira parte de sua fala ele esqueceu completamente, ao avalizar os processos a que estava encarregado: fatos, provas e leis, sobre estas ele passou por cima sem nenhum decoro ou arrependimento. Assim, a postura indecente de Sérgio Moro só foi possível e crível, graças a toda uma rede midiática que estimulava e era estimulada pelo circo farsesco e publicitário das operações de conduções coercitivas e prisões. Basta lembrarmos da Prisão de Eduardo Cunha, Sérgio Cabral e Eike Batista, onde o cenário apresentado era de um reality show e não o noticiário televisivo e imparcial. O papel da mídia se torna mais intenso ainda quando nos concentramos na analise da Construção “Heróica” do individuo Sérgio Moro. O Juiz então foi configurado como um ser implacável e incansável, dotado de uma férrea missão para extirpar a corrupção das instituições brasileiras. Diversos adjetivos foram aplicados a sua personalidade a partir disso: coragem, determinação, compromisso, fé, resiliência, força. Sua figura passou a ser símbolo e modelo de conduta do “cidadão de bem brasileiro”, a fortaleza de toda a salvação moral da nação. Deste modo, ele acabou encarnando a ideia de um homem permeado das qualidades que deveria se ter: incorruptível, sério, digno, imponente, esperto, impiedoso e perspicaz frente aos inimigos. Sendo assim, temos a concretização da frase “A mulher de César não basta ser honesta, precisa parecer honesta”. E Sérgio Moro estava conseguindo fazer isto, até suas conversas no aplicativo de mensagens Telegram serem expostas ao Público. capa-da-veja-desmoronando.png Essa elaboração da Imagem de Sérgio Moro parece seguir algumas prerrogativas Clássicas da Construção dos mitos de Heróis. Então ao que tudo indica, muitos editores e publicitários dos grandes Jornais e revistas semanais brasileiras leram e entenderam muito bem o livro de Joseph Capbell, “O Herói de Mil Faces”. No livro, Campbell, baseado nas ideias de arquétipos e inconsciente Coletivo da psicanalise junguiana, detalha como todas as histórias de heróis, desde as mais remotas dos primórdios da humanidade, até os grandes blockbusters mais recentes de hollywood, tem um fio condutor comum, como se fosse um passo a passo da jornada do Herói em 3 atos. E Sérgio Moro se encaixa em boa parte destas premissas. Vejamos o roteiro:

1ºATO: APRESENTAÇÃO

1. O MUNDO COMUM: Começa a se contar a história na grande mídia do cotidiano e do valoroso trabalho feito por Sérgio Moro como Juiz Federal em Curitiba. 2. CHAMADO À AVENTURA: Com a Operação Lava-Jato se inicia a Jornada épica de Sérgio Moro contra a corrupção instalada no governo brasileiro e suas instituições. 3. RECUSA DO CHAMADO: Aqui Sérgio Moro fica com receio de seguir com sua missão, pois seus adversários são poderosos e corruptos, estão por toda parte. 4. ENCONTRO COM O MENTOR: Neste Ponto o encontro com o Mentor se refere ao encontro e identificação com a missão ao qual foi encarregado, o fardo e tarefa divina relegada a ele para eliminar a corrupção do Brasil. 5. TRAVESSIA DO PRIMEIRO LIMIAR: É O inicio das grandes operações midiáticas da Lava-Jato contra grandes políticos.

2º ATO: CONFLITO

6. TESTES, ALIADOS E INIMIGOS: Os testes seriam a aprovação do público para seus atos, aliados como boa parte da mídia hegemônica nacional, e a escolha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como seu grande algoz. 7. APROXIMAÇÃO DA CAVERNA OCULTA: Armado de seus poderes Judiciários Moro começa a expedir mandados de prisões e conduções coercitivas, chegando cada vez mais perto da caverna oculta, o Território de seu grande inimigo. 8. A PROVAÇÃO SUPREMA: Finalmente o Embate no depoimento de Luiz Inácio Lula Da Silva em Curitiba. 9. RECOMPENSA: Após batalhar tanto em uma luta longa e desgastante, finalmente a derrota do inimigo é completa, como encarceramento de Lula na Policia federal de Curitiba.

3º ATO: RESOLUÇÃO

10. CAMINHO DE VOLTA: Ao finalizar sua grande tarefa, agora Moro se Torna Ministro da Justiça do Governo Bolsonaro. 11. RESSURREIÇÃO: Agora sua ressurreição é combater a morosidade e corrupção diretamente de Brasília, apontando suas armas para o congresso Nacional. 12. RETORNO COM O ELIXIR: Seu elixir de cura do País até então é o Pacote de leis Anti-Crime, que é bem aceito pela mídia tradicional se valendo de um senso comum raso e inconsistente.

Usando muito bem dos aparelhos midiáticos disponíveis, Sérgio Moro e demais encarregados da Operação Lava-jato, souberam aproveitar a seu favor todos os holofotes da mídia. Conseguiram jogar diversas cortinas de fumaça para as arbitrariedades cometidas, portando-se com uma empáfia e desdém para as prerrogativas existentes em lei para sua conduta perante o cargo público ao qual ele exercia função. A postura de mídia nesse caso foi insuflar e apoiar deliberadamente os meios e atos de Sérgio Moro. Um juiz é aplicador da lei e não um criador delas, nem as usa de acordo com seus escusos interesses. Nestes tempos turvos, é impressionante que ainda devemos argumentar e lembrar que um juiz deve ser imparcial e independente, ausente de paixões para salvaguardar os ditames pregados em um estado democrático de direito. Ou seja, é obrigação pela força das leis, o juiz seguir o ordenamento jurídico e ter isenção politica. Sérgio Moro heroi nacional.jpg A luz dos últimos acontecimentos, vimos que nada disto foi seguido. As conversas entre Deltan Dallagnoll e Sérgio Moro revelam um esquema mafioso na prática, onde as relações espúrias entre acusação e Juiz eram cotidianas, em ao que o calor dos fatos e dos acontecimentos indica, Moro acabou agindo desta forma mirando uma posição na mais alta corte do país: Ministro do Supremo Tribunal Federal brasileiro. As evidencias apontam para isso, como no detalhamento das operações e medidas tomadas na Lava-jato para impedir a candidatura de Lula nas eleições de 2018, bem como em delações premiadas divulgadas na mídia para minar a eleição do candidato do PT Fernando Haddad, dando ares de escárnio para a já frágil condição democrática do Brasil. Os Grupos Midiáticos, portanto, agindo para conquistar e garantir seus próprios interesses de mercado atuaram como roteiristas de uma história que beira a fantasia, surrealidade. Vemos então a bela Estória contada de “um Juiz cavaleiro Puro de Coração contra o dragão do corrupto politico cachaceiro de 9 dedos”.

A figura de Moro como Herói parece, portanto, ser feita de Cera. Aos poucos, a cada divulgação do teor pornográfico de suas conversas com o procurador Dallagnoll, vai derretendo. Temos presenciado provavelmente, o equivalente brasileiro ao caso Watergate, que derrubou o ex-presidente dos Estados Unidos da América Richard Nixon em 1974. A História na verdade, foi acelerada quase que na velocidade da Luz, pois geralmente documentos deste porte, são revelados após um longo tempo deles terem tomado forma. Ficamos sabendo dos documentos sobre as ditaduras Latino-americanas e todos os seus crimes, após os seus términos. No Caso da Operação lava-jato, ela ainda está acontecendo e toda sua conjectura ilegal foi desmascarada em meio a sua execução. A História é implacável com aqueles que deixam rastros latentes de seus crimes e desvios, ou como parece ter sido no Caso das estripulias jurídicas cometidas por Moro e Deltan, de envios de Mensagens por celular logados em computadores de terceiros. Não existe salvação histórica nem ocultamento eterno para grandes ilegalidades, e nos dias de hoje, sobretudo para ignorantes com ferramentas de comunicação digital.


Guilherme Lima

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