escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

O Jogo da Memória do EU

A memória do EU sobre lembranças daquilo que se foi mas insiste em permanecer nos pensamentos.


Memórias que permanecem, memórias catárticas, memórias saudosas, memórias dolorosas, memórias redentoras, memórias de lição: São tantas as memórias que personificam o EU, que vai se elaborando caminhos um tanto quanto complexos sobre aquilo que ficou nas lembranças dos atos do dito passado. Nada mais resta do que por vezes chafurdar na memória os breves e fugazes instantes de plenitude, onde a passageira felicidade adentrou no trem da vida por um curto período, para já descer na próxima estação.

Essa memória é doce, acalentadora, tal qual o embalo dos braços de uma mãe ninando seu filho recém-nascido. Em tempos de liquidez e obsolescência programada, a memória se torna o refúgio para preservação de sentimentos e reconfortantes emoções, mesmo que seja de amores perdidos. Amores proscritos, de maneira acachapante, em que não sabemos lidar com o sentimento da ocasião onde as coisas se apressam como um disparo de arma de fogo, o estrondo do trovão. O que a memória faz é acabar trazendo à tona a lembrança doce de um passado que no presente se torna amarga, na medida em que sabemos a que se refere e a quem se feriu, achando o grande algoz da situação: nosso querido e ególatra EU. memoria do eu imagem.jpg O passado saudoso nada mais representa para o presente um reviver constante de remorsos e culpas daquilo que passou. É a própria prisão individual do EU, este EU que pôs fim ao NÓS. Assim segue EU absorto em seus pensamentos, na eterna negação do presente tão desanimador e de perspectiva incerta, em que o futuro parece se reservar a mera sobrevivência e existência por existir. Aí parece residir o apreço deste que vos fala a princípio, a memória do tempo passado serve de fuga da realidade necessária. Oras, podemos condenar esta ideia por achar que isto é uma negação do tempo real, mas buscar algum alento durante tempos sombrios, mesmo que em lembranças que trazem remorso, não seria medida profilática para permanecer são em meio a distopia esquizofrênica de um presente?

Estou me reservando afinal das contas, a preencher o espaço da minha mentalidade e sentimentalidade para o passado, tal qual Fernando Pessoa e seus alter-egos e heterônimos de suas obras: Eterna saudade daquilo que passou em nossa terra, terra esta não a pátria ou nosso lugar de origem do nascimento, mas das origens de nossa felicidade e de onde frutíferou amores. Aquilo apregoado por Chico Buarque que não tem remédio nem receita, impossível de ser esquecido, em meio aquilo que nos consome ardorosamente por dentro. Vai assim ser meu paradoxo por suposto, que talvez os leitores deste texto por ventura possam compartilhar, de rememorar tudo aquilo de erros que se teve loucamente, para poder conter a loucura de não ter mais braços e abraços.

Nesta toada, o que tivemos de precioso infelizmente não se tem conserto, tal qual a mais fina porcelana chinesa quebrada em inúmeros pedaços. Juntar os cacos de porcelana em uma caixa é o equivalente de guardar na memória amores perdidos, numa espécie de recordação daquilo que tivemos e não demos o devido tratamento e cuidado. Foi até mesmo dada outra oportunidade de reconstruir, mas parece que o artesão que aqui vos fala não soube usar as colas adequadas para tal empreendimento.

O que fica de uma certa maneira, é a lição de que a memória nos traz a alegria dolorosa de recordar os erros do passado, em que a vida se torna uma eterna busca de uma redenção, visando corrigir erros que por vezes já não tem mais solução de seu problema. Seria este o mote da vida, uma constante de buscar o perdão por aquilo dito, proferido, lançado e gerado mágoas e rancores? Não sei nem tenho a pretensão de saber sob tais coisas, porém sei o que sinto, e isso diz que o tempo já se foi mas é um tempo que persiste em não passar na memória. No final das contas, esse EU teima valentemente em querer o NÓS, mesmo que sem esperanças.


Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC.
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