Ricardo Gessner

Professor de Literatura.

Paulo Leminski: de Invenções a Caprichos e Relaxos

Este é um panorama geral e resumido da produção poética de Paulo Leminski, entre os anos de 1964 a 1983: das primeiras publicações na revista Invenção ao livro Caprichos e Relaxos.


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Foi no ano de 1964 que Paulo Leminski nasce como poeta, ao publicar seus primeiros poemas na revista Invenção, mantida pelos concretistas Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari. A ocasião do encontro se deu no mês de agosto de 1963, em Belo Horizonte, durante a Semana Nacional de Poesia de Vanguarda. Até então Leminski não havia publicado nada. Tinha interesse pelo concretismo e vislumbrou no evento uma oportunidade de estabelecer contato com o grupo paulista. Foi o que fez. Posteriormente, quando Haroldo escreve a apresentação de Caprichos e Relaxos, relembra: “Foi em 1963, na ‘Semana Nacional de Poesia de Vanguarda’, em Belo Horizonte, que Leminski nos apareceu, 18 ou 19 anos, Rimbaud curitibano com físico de judoca, escandindo versos homéricos, como se fosse um discípulo zen de Bashô, o Senhor Bananeira”. Essa é a imagem que vai se constituir em torno de Leminski: de alguém com um amplo leque de interesses, que exerce várias atividades diferentes, diluindo suas fronteiras e vivendo a vida com intensidade.

Em alguns momentos Leminski chega a dizer que era mais concretista do que os próprios fundadores, afinal, enquanto estreara dentro do contexto do movimento, eles não. Por outro lado, classificar Leminski como concretista é um equívoco; pode funcionar como referencial imediato, mas sua postura frente a esse e outros movimentos não é ortodoxa. Nas cartas enviadas a Régis Bonvicino em vários momentos declara abertamente sua ânsia em superar uma “ortodoxia”, enfatizando mais as conquistas que o movimento trouxe, tendo em vista constituir sua própria dicção poética.

Cabe aqui uma observação: em Leminski nada é ortodoxo. Sempre buscou referenciais para articular e constituir seus próprios interesses que, diga-se de passagem, não se resume apenas a constituir sua dicção poética...

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Seu primeiro livro de poemas foi publicado em 1976, um ano depois da publicação de sua “obra-prima”, o Catatau. Se Catatau é poesia ou não, devido ao seu alto grau de experimentalismo, deixo essa questão para outra oportunidade. 40 clics em Curitiba foi publicado em conjunto com o fotógrafo Jack Pires, onde poemas e fotos dialogavam. A inter-relação entre mídias diferentes é um interesse comum em Leminski, que procura associar diferentes linguagens e suas características na escrita de poesia. Apesar dos poemas desse livro estarem integrados no volume Toda Poesia – Paulo Leminski, não foram inclusas as fotos e ainda hoje é uma raridade bibliográfica.

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Passados quatro anos, em 1980 Leminski publica dois livros de poemas: Polonaises e Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase, ambos em edição independente, com baixa tiragem, hoje também raridades bibliográficas. O destaque vai para Não fosse isso e era menos... que foi composto com a tipografia expandida na página, de modo que as ranhuras ficassem evidentes e os poemas, similares a anúncios publicitários. Devido a isso, alguns estabeleceriam uma ligação com o livro anterior, devido a inter-relação entre mídias diferentes, sugerindo uma aproximação com o Concretismo. Pode ser, mas não se reduz a isso, pois outros elementos estão em jogo, principalmente o uso de uma linguagem simples e efeitos humorísticos.

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Em 1983 Leminski publica seu primeiro livro através de uma grande editora, a Brasiliense. Caprichos e Relaxos é uma coletânea que engloba tanto poemas inéditos como de sua produção anterior, com exceção de 40 clics... e alguns outros poemas dos dois outros livros. Na época, vendeu em torno de 20.000 cópias, um feito em matéria de poesia. Ao mesmo tempo, demonstra que o sucesso de vendas de Toda Poesia – Paulo Leminski não é à toa, nem é de hoje que Leminski tem certa projeção sobre o publico geral. O livro se evidencia principalmente pela síntese entre o erudito e o popular em sua dicção, em que se combina a uma linguagem aparentemente simples (oralidade, humor), efeitos mais sutis (anagramas, jogos de palavras). Nessa época Leminski também era conhecido como compositor de música popular, e também havia trabalhado como redator publicitário, aspectos que contribuíram para o sucesso da obra.

O que caracteriza todo esse período, de 1964 até 1983, é a formação da dicção poética de Leminski, período em que a pesquisa e experimentação poética foi intensa. Ou melhor, a pesquisa sempre existiu – daí a formação de um repertório amplo e eclético –, mas servindo a interesses diferentes ao longo de sua produção. Nas cartas a Bonvicino é frequente a ânsia de Leminski em pensar e repensar sua própria poesia. Sem se ater a uma ortodoxia ou estética específicas, enfatiza os aspectos que lhe interessa. Caprichos e Relaxos é o momento de coroação desse momento, da formação de uma dicção própria, que estará presente nos livros seguintes e, por conseguinte, caracterizará toda a sua obra.


Ricardo Gessner

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