Ricardo Gessner

Professor de Literatura.

Moralismo e Cânone

O que faz de uma obra literária tornar-se canônica? Uma atitude ética como critério seletivo redunda num elitismo cego. Este artigo é uma breve reflexão sobre o assunto.


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Associar obras canônicas, obras importantes que contribuíram para a formação e consolidação cultural da humanidade, a um elitismo cultural, tornou-se uma atitude chique: ao mesmo tempo soa cool, blasé, além de uma impressão consciente e flexível diante das diferenças culturais. Veja-se Edward Said, no livro Humanismo e crítica democrática, que defende a abertura do cânone em função de seu “humanismo crítico”, supostamente “mais democrático”. Desconfio dessa conversa. Como disse Cioran no livro Breviário da decomposição: “A sociedade é um inferno de salvadores”. No fundo, desenvolveu-se um receio em assumir que há obras melhores do que outras, que há obras que exerceram uma influência cultural maior e mais ampla do que outras, como se isso implicasse numa atitude moral menos desenvolvida.

Literatura e moral nem sempre andam juntas.

No capítulo “Uma elegia para o cânone”, do livro O Cânone Ocidental, diz Harold Bloom: “... a crítica literária, como uma arte, sempre foi e sempre será um fenômeno elitista” (p. 25). É uma frase que deixa a muitos de cabelo em pé; facilmente o crítico norte-americano é alvo de apedrejamento. Porém antes de condená-lo, vejamos com mais detalhes.

Para Harold Bloom a fruição de uma obra canônica depende mais de uma sensibilidade estética individual do que de uma capacidade cognitiva, racional. Isto é, a fruição de uma obra artística se deve em virtude da percepção de sua força estética. Alguns têm, outros, não. Como não são todos os que têm essa sensibilidade, a crítica literária seria uma atividade reservada aos poucos que conseguem desfrutar esteticamente de uma obra. Daí o “elitismo” de Bloom. Não implica num menosprezo social ou ético, como de imediato pareceria. “Nada é tão essencial para o Cânone Ocidental quanto seus princípios de seletividade, que só são elitistas à medida que sem fundem em critérios severamente artísticos” (p. 30).

O posicionamento crítico de Bloom se opõe ao que ele chama de Escola do Ressentimento, referindo-se a uma vertente dos estudos literários, os Estudos Culturais, que estabelece como critério de seletividade um fator político/ideológico, não a força artística de uma obra. “O ataque à poesia ou a exila por ser destrutiva do bem estar social ou lhe concede tolerância se ela assumir o trabalho de catarse social sob as bandeiras do novo multiculturalismo” (p. 26). Não raro essa escola, inclusive, associa “os critérios severamente artísticos” a uma elite cultural intolerante, motivando uma “desconstrução” ou “abertura” do cânone.

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Entendo como “força artística” de uma obra, e aqui sou eu falando, não Bloom, a capacidade que ela tem de revelar artisticamente nossa própria natureza e condição. Isto é, há um fator ético no estético, não o contrário. E o fator ético independe de ideologias pré-estabelecidas, mas revela-se na própria obra. Submetê-la a um posicionamento ideológico a priori é reduzir seu campo de realização estética e, consequentemente, também ética. E isso é válido tanto para o autor quanto para o leitor.

Por outro lado, o conjunto de obras canônicas pode ser maleável, no sentido de estar aberto para agregar aquelas que contribuam para o repertório cultural da humanidade, independente do lugar – país, orientação sexual do autor, etc – de onde ela surge. Estabelecer como critério de seletividade um aspecto externo à obra – nação periférica, discurso minoritário, etc – é um anacronismo. É uma atitude análoga, por exemplo, a de Sílvio Romero, no século XIX, quando insinua a escrita de Machado de Assis a sua gagueira e epilepsia.

Associar uma “ideologia dominante” a Shakespeare no intuito de deslegitimá-lo não implica numa atitude moral melhor, nem garante um avanço cultural, visto que o acesso ao cânone é direito de qualquer um. A privação a essas obras, esta, sim, é uma atitude elitista.


Ricardo Gessner

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