Ricardo Gessner

Professor de Literatura.

PCN's e Literatura

Um pequeno desenvolvimento sobre como a Literatura é abordada nos Parâmetros Curriculares Nacionais.


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“O conceito de texto literário é discutível. Machado de Assis é literatura, Paulo Coelho não. Por quê? As explicações não fazem sentido para o aluno” (p. 16).

O excerto foi retirado dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s), volume “Linguagens Códigos e suas Tecnoclogias”, voltado ao Ensino Médio. Os PCN’s são documentos emitidos pelo Governo Federal, no intuito de orientar educadores da rede pública ou privada, para organizar e/ou reformular a estrutura curricular nas escolas. São documentos de domínio público e podem ser acessados pelo site do Ministério da Educação: http://portal.mec.gov.br/component/content/article?id=12598:publicacoes

Dito isso, retorno ao excerto: o que ele diz?

O conceito de texto literário é discutível. De fato, é e deve ser discutível. Inclusive é uma discussão de base na Teoria da Literatura, cujo esforço é estabelecer concepções e matizes conceituais para perguntas como “O que é Literatura? Qual a relação do texto literário com o autor? Com o leitor? O que é literário?”, no intuito de, se não fundamentar, ao menos subsidiar teoricamente uma metodologia, uma visão, para a análise do texto literário. É um campo de discussão – que deveria/poderia ser – sério.

Não é o que parece sustentar a fala do documento citado. Na verdade, percebe-se que há uma concepção que vem pronta, de maneira implícita, identificável na ironia estabelecida entre Machado de Assis e Paulo Coelho. A intenção, na verdade, é deslegitimar um falso elitismo, que determinada visão crítica enxerga quando se contrapõe autores diferentes; um posicionamento que associa obras canônicas a um elitismo cultural, como se o cânone literário fosse fruto de uma construção ideológica para deslegitimar outras formas de cultura. E intenta uma justificativa para isso dizendo que “as explicações não fazem sentido para o aluno”.

É uma justificativa que não se sustenta, e abre-se para outros questionamentos: como são e quais são as explicações dadas aos alunos? O documento não diz nada sobre isso. Se não fazem sentido ao aluno, pode ser antes um problema de formação do próprio professor, que não logra uma explicação minimamente acessível, ou mesmo pode ser um problema do aluno, que não se esforça para entender. Nesse sentido, direcionar o ensino pela falta de esforço – seja do aluno ou do professor – seria um gesto, no mínimo, perigoso.

E o documento continua:

“Outra situação de sala de aula pode ser mencionada. Solicitamos que alunos separassem de um bloco de textos, que iam desde poemas de Pessoa e Drummond até contas de telefone e cartas de banco, textos literários e não-literários, de acordo como são definidos. Um dos grupos não fez qualquer separação. Questionados, os alunos responderam: ‘Todos são não-literários, porque servem apenas para fazer exercícios na escola’. E Drummond? Responderam: ‘Drummond é literato, porque vocês afirmam que é, eu não concordo. Acho ele um chato. Por que Zé Ramalho não é literatura? Ambos são poetas, não é verdade?’ Quando deixamos o aluno falar, a surpresa é grande, as respostas quase sempre surpreendentes. Assim pode ser caracterizado, em geral, o ensino de Língua Portuguesa no Ensino Médio: aula de expressão em que os alunos não podem se expressar.” (p.16)

Novamente, o documento transmite os questionamentos dos alunos como se viessem de uma atitude consciente, de um questionamento sério diante dos limites sobre o entendimento de literatura. Não há nada que indique tal aspecto. Quem garante que o tal grupo não fez a atividade por simples desinteresse e/ou preguiça? É uma suposição plausível, que ganha força quando o suposto “aluno” diz que não concorda que Drummond seja literatura por acha-lo “chato”, simplesmente. Por um lado, é direito de qualquer um compartilhar dessa opinião, porém não deslegitima a literariedade de Drummond, assim como não justifica a discordância. E os autores dos PCN’s parecem achar esse aspecto “surpreendente”, numa acepção positiva.

“Se nenhum dos textos são literários porque servem apenas para fazer exercícios”, este é um problema que não reside na literatura, mas na própria abordagem do texto literário. Que tipo de exercícios, e como são esses exercícios? Os PCN’s não dizem nada a respeito.

Não raro os textos literários são utilizados como pretexto de análise sintática, ou para justificar as constantes estéticas de determinado período. Em nenhum dos casos se trabalha com a literatura propriamente dita. É um descompasso legitimado pelos próprios PCN’s, quando sugerem a união das disciplinas de Redação, Gramática e Literatura, que nas matrizes curriculares e em materiais didáticos estão divididas como se “não tivessem relação entre si”. Obviamente que são disciplinas complementares, assim como o são Física, Química e Matemática. Porém sabe-se que não seria justificável a união de todas num único campo de estudo, pois cada uma tem o seu objeto específico. O mesmo se dá com Redação, Gramática e Literatura: são complementares, mas cada disciplina tem seu objeto específico. A união delas redunda na redução desses objetos ou numa discrepância de perspectiva, como acontece quando a análise sintática serve de pretexto para trabalho com textos literários – que muitas vezes escapam às regras da gramática padrão –, que por sua vez contribui para deslegitimar o trabalho tanto com a gramática padrão, quanto com o texto literário.


Ricardo Gessner

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