Ricardo Gessner

Professor de Literatura.

Felicidade não traz felicidade

O autoconhecimento não garante felicidade; trata-se de uma atitude de coragem e honestidade consigo mesmo.


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Mantenho profunda desconfiança e crítica em relação à associação entre autoconhecimento e felicidade. Isto é, nessa falsa relação que implica o conhecimento de si mesmo como uma maneira de atingir ou encontrar um estado pleno de felicidade.

Em primeiro lugar, ninguém conhece a si mesmo de maneira plena, o que de imediato redunda nalgumas implicações, como: coragem para se deparar diante de defeitos e aspectos que, antes, não imaginava que pudessem pertencer a si.

Há algum tempo publiquei um artigo chamado “A dignidade da culpa”, em que elogio a postura de Paulo Honório, narrador-personagem do romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, ao reconhecer sua incapacidade de sentir culpa e assumi-la como característica constituinte de sua individualidade. Este é um gesto exemplar de autoconhecimento, de coragem, e que não lhe trouxe nenhuma felicidade. Por outro lado, deu-lhe algo que faltou durante toda sua vida: a dignidade; isto é, a dignidade de não mentir para si mesmo e assumir a culpa por todas as suas desgraças.

Nesse sentido, Paulo Honório esfrega na nossa cara o paradoxo: ele, que sempre foi desonesto, canalha, ambicioso no pior sentido do termo, assassino, por fim, saiu-se mais digno do que muita “gente boa”, que passou a vida realizando “boas ações” vangloriando-se sempre que possível, mas incapazes de reconhecer seus próprios defeitos.

Este é um gesto que falta na maioria daqueles que se propõem a um “autoconhecimento”.

Tem muita gente boa menos digna do que um Paulo Honório.

Obviamente que não elogio as más ações de Paulo Honório, muito menos as defendo. Tampouco defendo o falseamento nas atitudes de pessoas que se vangloriam por “causas” supostamente “boas” – falseamento que podemos nomear como hipocrisia, narcisismo, vaidade. No fundo, tais ações são feitas não por que brota de um ímpeto de bondade naquele que pratica, mas porque pode garantir respeito por parte dos outros. Um respeito ilusório.

Ao abrir um livro de autoajuda o leitor não vai encontrar um encorajamento para reconhecer seus defeitos, ou reconhecer que muitas das desgraças de sua vida é por conta de sua própria culpa ao tomar decisões erradas, precipitadas. Nesse sentido, livros de autoajuda não promovem nenhuma dignidade naquele que os lê, mas endossam uma “automentira” ao dizer que o leitor é lindo, bonzinho, que tudo de bom está dentro de si – só falta encontrar – e que o resto é culpa do mundo.

Se alguém quer conhecer a si mesmo, ao invés de um retiro num lugar ensolarado em “meio a natureza” durante um final de semana, sugiro um mosteiro de corredores escuros e silentes. Emil Cioran é um possível antídoto, eis uma colherada, no livro Breviário de decomposição:

“Dos esfarrapados aos esnobes, todos gastam sua generosidade criminosa, todos distribuem receitas de felicidade, todos querem dirigir os passos de todos: a vida em comum torna-se intolerável e a vida consigo mesmo mais intolerável ainda: quando não se intervém nos assuntos dos outros, se está tão inquieto com os próprios que se converte o ‘eu’ em religião ou, apóstolo às avessas, se o nega: somos vítimas do jogo universal...” (p. 17)

Conhecer a si mesmo é uma atitude séria, não uma maneira de passar o fim de semana, nalgum “retiro”, com alimentação supostamente balanceada e gente esquisita sorrindo o tempo todo.


Ricardo Gessner

Professor de Literatura..
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