escutando arte e conversando sobre ela

porque Arte é sabedoria de si

Diana Veloso

Meus dias têm quatro estações.

A Loucura num conto de Tchekhov

Dois homens. Um médico e um louco com a mania de perseguição. Ambos questionando-se sobre o sentido da vida, buscando respostas em suas leituras. Um médico que começa a aproximar-se do seu paciente.
Este médico é Andrei Efimich e o louco Ivan Dmitrich.


Vincent_van_Gogh_-_Corridor_in_the_Asylum.JPG Vincent van Gogh, Corridor in the Asylum, 1889

Pode ser apenas um conto, mas é um conto demasiado grande para não ser lido. A Enfermaria n°6 de Anton Tchekhov aborda a vida de dois homens, um deles com a mania de perseguição e que, por essa razão, acaba enredado e aprisionado numa unidade hospitalar para doentes mentais, o outro, Andrei Efimich, um médico que trabalha nesse mesmo hospital. E é nesse local que os dois estabelecem um primeiro contacto:

  • - Por que me tem aqui?
  • - Porque está doente.
  • - Sim, estou doente. Mas dezenas e centenas de loucos passeiam em liberdade porque, na sua ignorância, ninguém os distingue das pessoas sãs. Por que razão estes desgraçados e eu temos que estar aqui em nome de todos, como cabeças-de-turco? O senhor, o assistente, o inspetor e toda essa canalha do hospital estão moralmente muito abaixo de nós. Porque havemos de estar encarcerados e não vocês? Onde está a lógica disto?

at eternity's gate Van Gogh.jpg Vincent van Gogh, Old Man in Sorrow (On the Threshold of Eternity), 1890

O médico, através dos diálogos entabulados, apercebe-se da inteligência, genuinidade e lucidez deste paciente e começa a visitá-lo com frequência. Visitas estas que lhe concedem uma enorme satisfação e que se tornam em algo de muito precioso. Ele mesmo o comunica ao louco nas seguintes palavras:

- (...) Se você soubesse, amigo, como me aborrecem a loucura geral, a falta de talento, a torpeza, e como me alegra conversar consigo! Você é uma pessoa inteligente e encanta-me a sua conversa.

Window-of-Vincent's-Studio-at-the-Asylum.jpg Vincent van Gogh, Window of Vincent's Studio at the Asylum, 1889

Quais os parâmetros que podem diagnosticar sem equívoco a insanidade mental? O que é a loucura e o que é a sanidade? E o que leva o ser humano a ficar louco? As razões podem ser muitas. Atentemos no texto “O louco”, de Khalil Gibran, abaixo transcrito:

Foi nos jardins do manicómio que conheci um jovem, face pálida e adorável, repleta de admiração. Sentei-me a seu lado no banco e disse: “Por que estás aqui?” Ele olhou-me com espanto e disse: “É uma questão inconveniente, mas vou responder. O meu pai desejava fazer de mim uma reprodução dele próprio; o mesmo desejava meu tio. Minha mãe via na vida de marinheiro do meu pai o exemplo perfeito que eu devia seguir. O meu irmão acha que devo ser como ele, um excelente atleta. Também os meus professores, o doutor de filosofia, o mestre de música, o lógico, também eles estavam determinados e cada um deles não me considerava mais que um reflexo dos seus próprios rostos no espelho. Por isso vim para este lugar. É mais são. Pelo menos, posso ser eu próprio.” De repente, voltou-se para mim e disse: “Mas diz-me, também foste conduzido a este lugar por educação e bom conselho?” E eu respondi: “Não, sou um visitante”. E ele respondeu “Ah, és um dos que vivem no manicómio do outro lado do muro.”

Em jeito de despedida, deixo-vos um convite à leitura d’A Enfermaria N°6. E quem sabe, a narrativa anteriormente citada d’O Vagabundo, de Khalil Gibran, vos desperte o interesse por esta sua obra.

...também Van Gogh foi louco...

the-grounds-of-the-asylum-1889.jpg Vincent van Gogh, The Grounds of the Asylum, 1889


Diana Veloso

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