escutando arte e conversando sobre ela

porque Arte é sabedoria de si

Diana Veloso

Meus dias têm quatro estações.

SIMPLICIDADE

“As coisas mais belas são/ Como as cria a Natureza” (António Aleixo)


Após sentir o fardo do fingimento, o peso da máscara social, a ansiedade desmedida (com ou sem razão aparente) algo impele os humanos a uma busca pela pureza da infância, por aquilo que é leve e inocente. Pode-se tentar esquecer este tesouro ou desejar reavivá-lo. Encantados ou enamorados por simples camponesas, transparentes como crianças, os poetas cantam as suas canções...

Assim, Florbela Espanca, no seu poema “Rústica”, exausta da sua amargura corrosiva e ansiando por uma vida livre de cogitações, sonha...

  • Ser a moça mais linda do povoado,
  • Pisar sempre contente o mesmo trilho,
  • Ver descer sobre o ninho aconchegado
  • A benção do Senhor em cada filho.
  • (...)
  • Meu Deus, dai-me esta calma, esta pobreza!
  • Dou por elas meu trono de Princesa,
  • E todos os meus reinos de Ansiedade.

wheat-stacks-with-reaper-1888 van Gogh.jpg Vincent van Gogh, Wheat Stacks with Reaper, 1888

Já o poeta algarvio António Aleixo, nos versos que se seguem, confronta a beleza natural da sua amada camponesa com a artificialidade das senhoras da cidade:

  • Teus lábios nunca pintaste,
  • És linda sem tal veneno;
  • Toda tu cheiras a feno
  • Do campo onde trabalhaste;
  • És verdadeiro contraste
  • Com a tal flor delicada
  • Que só por muito pintada
  • Nos poderá parecer bela;
  • Mas tu brilhas mais do que ela,
  • Tu és a flor minha amada.

E, não se limitando a uma mera reflexão sobre a figura feminina, António Aleixo sustém-se ainda na dicotomia campo/cidade. A cidade tida como local onde coabitam o engano e a degradação humana:

  • És tu que não tens maldade,
  • És tu que tudo mereces,
  • És, sim, porque desconheces
  • As podridões da cidade.
  • Vives aí nessa herdade,
  • Onde tu foste criada,
  • Aí vives desviada
  • Deste viver de ilusão:
  • És como a rosa em botão,
  • Tu és pura e imaculada.

sower-with-setting-sun-1888-3.jpg Vincent van Gogh, Sower with Setting Sun, 1888

É a vida serena, em meio da natureza, um regresso do corpo ao seu lugar vivo na Terra, um desejo de paz na alma, que somente a simplicidade e a união com o meio natural podem proporcionar.

Nesta mesma linha, temos um romance no qual é aprofundada esta vontade intrínseca de fusão com o que é natural, de fusão com o que é mais genuíno, refiro-me a Anna Karénina, de Tolstoi. Neste, o personagem Levine depara-se com as benesses do trabalho e do estreito contacto com as atividades agrícolas, pelo que se decide, independentemente das consequências e apesar de ser o proprietário, a participar ele mesmo nestes lavores:

(...) quando atravessava o campo, ao recordar as sensações que experimentara nesse trabalho, quase resolveu fazê-lo. Depois da discussão com o irmão, voltou a lembrar-se da decisão que tomara. “Preciso de exercício físico; caso contrário, azeda-se-me o caráter”, pensou. E decidiu que ceifaria ainda que isso parecesse incorreto para com o irmão e os camponeses.

red-vineyards-at-arles-1888.jpg Vincent van Gogh, Red Vineyards at Arles, 1888

A certa altura, Levine questiona-se se não seria melhor lançar-se nos braços de uma camponesa, levar uma vida singela, trocar “a sua penosa vida individual, artificial e ociosa, por essa outra vida pura de trabalho alegre e comum”. Bem ilustrativo das situações por ele presenciadas no convívio com os camponeses, as quais deram origem às suas reflexões, é o episódio que se segue, no qual, o personagem do famoso romance, observa um jovem casal trabalhando em conjunto:

Levine examinou atentamente Ivan Parmenov e a mulher, que não longe dali carregavam o carro. De pé na carroça, Ivan recebia, acamava e arrumava enormes braçadas de feno, que ela, bonita e jovem, lhe atirava (...). Trabalhavam sem esforço, ágeis e alegres. (...) Ivan mostrou-lhe como devia amarrar a espia e a um dito da mulher desatou a rir às gargalhadas. No rosto de ambos, pintava-se um amor intenso e juvenil, ali mesmo avivado.

arles-view-from-the-wheat-fields-1888- van Gogh.jpg Vincent van Gogh, Arles View from the Wheat Fields, 1888

Poemas, contos ou romances... em qualquer um deles este reencontro que se afigura imprescindível com o que, apesar de parecer um dado adquirido, tem um valor inequivocamente elevado. Uma canção alegre na ceifa, o descanso depois de um longo dia de trabalho sob o sol, as carícias do vento. Um sorriso descontraído no rosto da bem amada e uma paz no coração. Sentir a gratidão por mais um dia e por uma simples e bem merecida refeição...

Para concluir, deixo-vos com um pequeno excerto do “Sétimo Sonho” d’O Livro dos Sonhos, de Rainer Maria Rilke:

(...) Porque, na realidade, as estrelas são os olhos dos homens que se escapam das suas pálpebras, quando fechadas, e sobem ao firmamento, e tornam-se brilhantes, e assim repousam. Esta a razão por que na província, onde todos dormem de noite, o céu tem todas as estrelas, que lhe pertencem; no firmamento que fica por cima das cidades, já assim não acontece: vêem-se poucas estrelas, porque há muita gente que se aflige, que chora, que lê, que ri ou não dorme, e desse modo, guarda os olhos abertos.

the-starry-night-1889.jpg Vincent van Gogh, The Starry night, 1889


Diana Veloso

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