espacialidade

Geobiografia dos Lugares

Wallace Pantoja

Geobiógrafo dos lugares, os que existem e os que ainda não, morando no centro e vivendo nas bordas, sonhando com o entre.

BRASÍLIA - ILUSÕES DA VIDA CAPITAL

A capital do Brasil, reconhecida por sua monumentalidade banhada em luz profissional, se apresenta como movimento, água e pilhas de livros. Anônimos que, no centro, criam para si uma ilusão quente, sem a qual, talvez, nenhum brasileiros se reconheceria como membro da nação. O que temos aqui é um exercício de tensões vividas no "nervo motor" dessa comunidade concretamente imaginária.


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Coisas que me chamam a atenção em Brasília: todos carregam uma garrafa com água e há montanhas de livros sobre política governamental apodrecendo nas paradas de ônibus. Não quero falar sobre a monumentalidade esquadrinhada em cada fração subatômica por fotógrafos e pensadores amadores e/ou profissionais - falemos das miudezas, como a água enjaulada, pilhas de livros e a nervosa secura da vida no centro.

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Brasília é de um modernismo mistificador, esconde mitologias alienígenas, profecias messiânicas e esconde a si mesma atrás do mito da Cidade Planejada. Feita para durar uma eternidade, coração de artérias tentaculares que se lançam para irrigar o território brasileiro. Brasília é, também, desejo - "e desejo mora no coração", já disseram. Desejo de fuga para uma vida encastelada em ministérios; desejo de sentir alguém através das avenidas cardeais que lhe autorizam enxergar ao infinito, mas sem tocar; desejo que a festa de aniversário não precise de convite protocolado com carimbo de repartição pública; desejo dos que existem "fora do plano" de se reconhecer na imaginação de quem pensa a capital como decalque fotográfico de limites bem definidos.

Cidade quase sempre exaltada pela Borboleta a jato concretada no planalto central, cerrada, secando - todos agarrados em garrafas plásticas, bocas chamativas, descascando através das máscara c(h)eirosa de cacau: "Nada de beijo, meu bem, minha flor desidrata rápido neste sertão capital". Se um país é uma comunidade imaginada, Brasília é o nervo motor imaginário da nação.

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Nesse imaginário, livros se amontoam nas paradas de ônibus, direito internacional, municipal, diplomacia Brasil-Vanuatu, milhões de páginas dedicadas à comunidade imaginada e, justamento por isso, tão sólida quanto o concreto armado que paralisa o tempo-urbe. Os livros, escritos por sabe-se lá quem, lidos por sabe-se lá ninguém, descarregados para as gentes se apropriarem dos direitos de limite do Uruguai, das diplomacias de Andorra ou simplesmente enrolar um baseado enquanto o ônibus para Planaltina não vem, nunca vem...

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Nas paradas, aqui e ali, brota Cora Coralina. Ontem e amanhã emerge suor roçado entre braços coloridos. A cidade é vivida através do movimento aquoso, orgânico, que nenhum planejamento pode capturar: Jeremias - filósofo "andarilho", pernoitando na rodoviária; Mariazinha e sua banca improvisada, abastece de bombons clandestinos, na calada da noite, o Ministério do Abastecimento; Sérgio, em juventude engravatada que sabe pensar mesmo soterrado sob o peso da burocracia, mais densa que os prédios que a abriga; Chico, que empilha livros com o cuidado religioso em seu pequeno templo perfumado de conhecimento - não se enganem com a foto para a Globo, sua banca é uma zona e é perfeita!

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"A porra da boceta é minha" pinchada em monumento de Niemeyer, marca a pa(i)ssagem. Um casal gay se acarinha no chão universitário, enquanto a senhora horrorizada confidencia: "o mundo está podre"! Mas não seriam os livros?

Brasília - de água plástica e livros apodrecidos sem leitores - tem sede e saber, tem vontade de libertação e paralisia, não é uma foto bonita desenhada com estilo. Transborda, vaza, pluraliza, amontoa-se. Parafraseando o velho antropólogo, o Brasil não vive só de ilusões, mas dificilmente viveria sem elas.


Wallace Pantoja

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