espacialidade

Geobiografia dos Lugares

Wallace Pantoja

Geobiógrafo dos lugares, os que existem e os que ainda não, morando no centro e vivendo nas bordas, sonhando com o entre.

A EXAUSTÃO DA JUVENTUDE

Vivemos em uma sociedade que se parece mais com a academia fitness que com um presídio, não é o estranho a principal doença, mas nós mesmos pela saturação do ter-que-ser, o que leva ao infarto da alma nesta geografia entupida de estímulos e positividade. Na condição atual a juventude se exaure em nome do "eu posso", pretendendo o altíssimo desempenho multitarefado, acaba caindo pelo caminho do excesso de si.


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O filósofo Byung-Chul Han levanta uma tese que nos faz refletir: na atualidade o "posso tudo" se tornou o imperativo categórico, a saturação do eu por cada um de nós leva à convulsões psíquicas pela massificação do positivo, de modo que diferente de uma sociedade disciplinar foucaultiana, o que vivemos é uma sociedade do desempenho, a imagem do presídio cede lugar à academia fitness.

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Clínicas estéticas, extensividade de beleza, orgasmos ininterruptos, felicidade bricolada em redes sociais; revelam a ascensão do fazer-tudo-ao-mesmo-tempo, de modo que a exigência do "ter-que-ser" atinge uma positividade enlouquecedora, sobretudo para os jovens, mergulhados em uma espacialidade frenética, reticulada, intensiva, permissiva e espetacular. Diferente da violência imunológica - onde o vírus é o estranho a ser combativo - o que se expressa cada vez mais é uma violência neural - do igual, que não é privativa, mas saturante, exaustiva e contra a qual não há anticorpos!

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Estamos em autoprodução nesse ambiente de violência neural, incutindo-nos esta saturação, exaurindo o espírito pelo compromisso da disposição eterna e em altíssima performance - sem tempo para contemplar, vivendo em estado de frenesi, multitarefados, tornando-nos bárbaros nas sociedades que se pretenderam pacificadas e excessivamente libertadoras.

Nós, sujeitos de desempenho, não estamos submetidos a uma instância controladora externa, mas ao "eu", tiranos de si, densos de informação e justificadores da condição depressiva, quase como uma inevitabilidade do mundo atual, efeito super-colateral de "ter de ser", sem pausa para deixar-se, sem um átimo de pensamento pausado, mergulhamos na droga e na brutalidade exibicionista porque plantamos a felicidade na "egolatria", vivemos cansados, atravessando noites, explodindo os nervos em crises existenciais, dilacerando nossos corpos nos esticadores de músculos e entupidos de energéticos e pílulas azuis porque não concebemos um "para ti" (só o prazer exclusivo e enfastiado).

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Fugimos da entrega aconchegante no colo do outro, num movimento de acolher-se para sentir, juntos, o cansaço gostoso da contemplação mútua. Um "cansaço-nós" que escapa à nossa juventude viciada e deprimida pelo próprio eu, emerge hoje não só cansada, mas cansativa segundo a tese de Han: o doping generalizado é a consequência natural do movimento de elevação de desempenho, a receita (assumida até com orgulho) para o infarto da alma.


Wallace Pantoja

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