espacialidade

Geobiografia dos Lugares

Wallace Pantoja

Geobiógrafo dos lugares, os que existem e os que ainda não, morando no centro e vivendo nas bordas, sonhando com o entre.

A MAGNÍFICA, E DELIMITANTE, DESCOBERTA DA FÍSICA

O extraordinário feito dos físicos contemporâneos ao comprovar que Einstein estava certo sobre o "som do universo", explodiu nas redes do mundo inteiro, revelando uma tendência à fisicalizar nossas relações universais - mas até que ponto partilhamos, em nossos cotidianos, o sistema de compreensão do que deve ser o real erigido pelos físicos?


Todos ficaram embasbacados com a recente comprovação do "som gravitacional" que Einstein teorizava há 100 anos! É magnífica a descoberta e, ao que parece, pode abrir campos completamente novos de estudo, pesquisa e criação de outras estratégias de abordagem tecnológica - tem gente até falando em possibilidade de viagens intergalácticas e imortalidade pela "trajeção" no tempo-espaço.

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Sou um entusiasta da física teórica porque "puxa" o desenvolvimento da aplicabilidade da física e amplia a persistente busca pelo novo. Ousar a comprovação de certos nexos teóricos, como "o som do universo", implica uma demanda colossal de físicos, engenheiros, arquitetos, biólogos e, para quem não sabe, até cientistas sociais em equipes multidisciplinares que, na busca metodologicamente positivista de uma teoria (e aqui de modo algum estou usando o termo no pejorativo), tendem a desenvolver diversos aparatos que irão rebater nos mais recônditos campos da vida humana. Por exemplo, vários aparelhos ligados à saúde surgiram em pesquisas que não estavam diretamente ligadas aos problemas de saúde.

Porém, é muito importante refletir sobre uma questão - o mundo descoberto pelos físicos é, de fato, o mundo dos homens no seu dia-a-dia? Até que ponto uma descoberta bombástica na física se efetiva como uma transformação nos mundos do cotidiano, da química, dos indígenas amazônicos, dos reinos da África Saheliana, dos semi-nômades siberianos? De modo nenhum quero diminuir o esforço titânico, o espírito de equipe e entrega absoluta ao ofício da criação da física como ciência que resultou no "som do universo", mas, se Einstein nos legou uma coisa foi pensar em termos de perspectiva e relativizar as relações tempo-espaciais (muito embora eu esteja sendo metafórico no uso da relatividade numa perspectiva física e não metafórico numa perspectiva geográfica, porque são mundos diferenciais, que podem se nutrir criativamente e entrar em contato, mas estão à luz de distância um do outro).

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É óbvio que não existe materialmente - é essa a tara dos materialistas, ainda que pouco se interroguem o que é, de fato, a matéria - mundos diferentes. Não extensivamente, mas existencialmente sim. O sistema de compreensão de uma idosa indígena, de um morador de rua, de um presidente da república na América Latina, de um professor de sociologia, de outro da literatura comparada com pós-doutorado em Londres, diferem bastante do sistema de compreensão de um físico teórico atuante na descoberta do "som do universo" (Também me parece claro que eles podem, dependendo da disposição de cada um, se comunicar; de todo modo, em seus respectivos mundos existenciais há muitos outros que compartilham o mesmo sistema de compreensão).

Talvez uma idosa indígena também lance mão, ainda que numa linguagem diversa, do termo "som do universo" e, o que significa para ela, e significa materialmente inclusive, é bastante diferente do que para um físico da equipe de descoberta.

Podemos dizer que ela e todos estão errados e apenas fazem jogos de palavras ou quando muito metáforas criativas para explicitar um "som do universo", quem sabe presente na poética inglesa do século XVIII? Ou, o que é mais provável de ser taxado como metafórico ou errado: quando um mongol usa o termo para explicitar sua conexão silenciosa com a "energia do mundo".

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Entretanto, se partirmos da ideia de que a física tem o poder de decidir os rumos da verdade para todos sem distinção - e esta parece ser uma crença cada vez mais absoluta, dada a veiculação planetária desta intenção de "fisicalidade" do real para todos - então poderemos abandonar nossas pesquisas em todas as áreas e esperar que os físicos resolvam ou, ao menos, trabalhem tão enfaticamente em questões como desigualdade humana, depressão generalizada, o recrudescimento de doenças antigas e surgimento de novas, o amor a si e a humanidade ou o potencial das ervas de uso tradicional que realmente curam problemas variados no interior da Amazônia.

Como sabemos que são "mundos compreensivos" e, portanto, são preocupações diferentes, problemas diferentes, mas também semântica, representações e projeções materiais diferentes, é preciso explicitar os limites claros deste achado magnífico da física contemporânea. Caso contrário, a suposição algo exagerada, que a descoberta abre caminho para viagens intergalácticas ou, o que é mais exagero, a imortalidade, se tornará uma mercadoria como qualquer outra que se tem produzido em laboratórios ao redor do mundo que, sim, revelam as conquistas da humanidade e potencialmente mudariam vidas no planeta, mas apenas estão restritas a um grupo seleto de endinheirados em um mundo que não é feito só de partículas, também é feito de relações humanas apodrecidas para os quais o "som do universo" na física nada tem a nos dizer, a não ser, metaforicamente.


Wallace Pantoja

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