espacialidade

Geobiografia dos Lugares

Wallace Pantoja

Geobiógrafo dos lugares, os que existem e os que ainda não, morando no centro e vivendo nas bordas, sonhando com o entre.

AS PAREDES DE MAURÍCIO FRANCO - DE ESPAÇOS OUTROS

A tela é o suporte para a pintura e, em galerias, as paredes são os suportes invisibilizados. O trabalho de Maurício Franco, artista visual de Belém do Pará, espraia na parede um desafio de encontro entre pintura e suporte, não como algo do "estar-sobre", mas do "estar-com", na medida em que os pedaços soltos do reboco, a sujeira cotidiana, as rachaduras e fraturas compõem o conjunto artístico despretensioso e, por isso mesmo, uma abertura marginal para outros mundos, outros espaços.


Descascadas ou virgens, fraturadas ou geométricas, paredes normalmente são molduras para arte, vácuos plasmados de suporte para a luz em galerias que focalizam o objeto artístico direcionando o olhar. Porém, e se as próprias paredes em sua imperfeição não-contornável assumirem a vivacidade artística?

o todo.jpg O Todo

Este é o trabalho do artista paraense Maurício Franco, criações aderentes às paredes dos amigos, espaços de trânsito e desconhecidos doadores de "telas habitáveis", carregadas de marcas e tempo, assumem a quadratura rizomática para sua pintura condenada à inocência, de modo algum efêmera, mas já nascidas para crueza e fragmentalidade porque envolvidas no suporte que as aconchega destrutivamente. Elas não estão sobre, mas com a parede, acompanhando sinuosidades, rebocos destroçados, trepadeiras e sujeira irrevogável que é, ao mesmo tempo, finitude e muco criativo, explorado pelos desenhos de Maurício.

negas.jpg pras negas...

O artista visual é bastante conhecido em Belém do Pará pela variabilidade de seus trabalhos, mas suas pinturas e desenhos aderentes às quadraturas perdidas nos transportam aos entremeios da construção que é criação, da criação que é relação e da relação que é deterioração renovadora, uma beleza discreta que produz contornamentos e contorções ao criar nos limites - sempre inícios e não fins - da materialidade o sentido imaterial que transcende pintura e parede, em reunião.

sereiar.jpg Sereiar

O que Maurício nos pede é uma "parede de felicidade", estranhamente contra a qual não podemos vencer ou avançar, a não ser violentamente, se inscreve ali uma abertura, um novo horizonte de sentidos e sentimentos, confundindo-se com o ambiente, pequenos mundos gostosamente mágicos e rabiscados como que em fuga para o encontro.

A variação temática é enorme, como um fluxo de inconsciência coletiva. Porém, mulheres e religiosidades são recorrentes, uma insistência multiplicada ao infinito, eterno retorno, circularidade que faísca os olhos, o desejo e a celebração da vida e, também, o mistério, o tremendo e o incontrolável despedaçamento.

Paredes vivas abertas pelo Mau...

nadar-voar-libertar.jpg Nadar... Voar... Libertar

narcizo centauro.jpg Narcizo Centauro


Wallace Pantoja

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