espacialidade

Geobiografia dos Lugares

Wallace Pantoja

Geobiógrafo dos lugares, os que existem e os que ainda não, morando no centro e vivendo nas bordas, sonhando com o entre.

CARTAS SOBRE A AMAZÔNIA

A Amazônia existe pelo que não é nas imagens geocartográficas produzidas pela ciência que se acredita descontaminada da vida que estuda. Em meu encontro com famílias no interior da amazônia paraense; e no encontro comigo mesmo como indígena, partilho uma reflexão sobre a inexistência como projeto de extermínio de povos amazônicos e a tomada de seu conhecimento vivo por pensadores do momento. Um pequeno convite à autocrítica e o efeito do aprendizado sobre nós e os outros. E o outro - em seu onde formativo - nos convida a sentir-mo-nos na diferença criativamente liberadora de saberes novos e autônomos.


Sou indígena amazônico. Não vivi em minha aldeia.

Não sei falar a língua de meu povo - a vida inteira ser indígena nem era uma negação, para negar é preciso reconhecer, tematizar o QUEM SOMOS e, sobretudo, ONDE SOMOS. Minha cara grita quem sou, mas ao olhar no espelho não tinha algo a ver além de um autoimposto "exotismo".

Sou geógrafo e, entre outras coisas, estudo o espaço.

20160809_105455.jpg Estudar muitas vezes, em ciência, significa não se envolver. Não "contaminar-se" com a "amostra"; como se pessoas fossem simples objetos contáveis, agrupáveis, selecionáveis para fins de generalização de uma hipótese. Como se nossa presença - observação de campo - nos colocasse acima do espaço vivo e paralisasse a vida ao bel prazer de nosso poder de "deus ex-machina".

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Sendo indígena que não me escolhia existir e geógrafo que faz estudos "sobre" o espaço voltei-me para a Amazônia - de onde sou, mas que nunca se expressou em meu corpo porque metropolitano (deuses são citadinos ou ao menos representados opulentos em cidades). E concordava com quase tudo que a ciência do espaço produzia "sobre" a Amazônia. Porém, quando me permiti mergulhar na Transamazônica - estrada ditadora que corta de ponta a ponta a região - tudo mudou.

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Ao conviver, ainda que por breves períodos com professoras/res, estudantes e agricultores familiares, toda uma geografia constituída sobre minha região deixou de fazer sentido. Pior, suspeitei que o sentido que impunha era monstruosamente arrogante e, ao mesmo tempo, desesperado pela aprovação de grupos que jamais respiraram a poeira transamazônica; atolaram na lama ou choraram por um filho perdido em malária.

Que estrangeiros pudessem ter ideias de internacionalização, argumentassem falta de modernidade regional, confundissem miséria com ausência de multiprocessador em nossas cozinhas ou valorizassem mais as árvores que as gentes da terra era, se não compreensível, ao menos lamentável. Porém, que os próprios geógrafos amazônicos macaqueassem formas de encaixar ideias prontas que tornassem "científicas" as realidades espaciais amazônicas era inaceitável.

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O problema não era usar os conceitos - afinal; quem lê Dostoievski pode retirar daí achados preciosos para dialogar com sua realidade e, quem sabe, torná-la mais compreensiva. O problema não é "usar Foucault" para entender um assentamento rural transamazônico; o problema é a subserviente aceitação de um conceito cunhado em outro tempo e espaço para "tornar mais científico" o entendimento acerca de assentamentos rurais amazônicos. Quando inspiração vira respiração e dependemos dos aparelhos mentais de outros para viver nossas vidas estamos na antessala da morte do pensamento autônomo.

E isto é horrível. Porque inibe a explosão criativa do saber.

Os mapas e cartas amazônicas; com raríssimas exceções, expõem um quadro regional de cima e paralisado, dado a nosso olhar pretensioso, não contaminado com o tecido vivo da existência; não impregnado de cheiro e história, ilusoriamente livre para ver - um olho totalizante, um olho que só reconhece pontos, linhas, áreas; tranquilo porque qualquer um - inclusive você e eu - pode "entender" o que é o espaço amazônico, especialmente com o milagre do Google Earth e toda a informática de precisão matemática - mais real que a realidade - dada a nós como benção reveladora e transparente das alturas celestes.

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E neste quadro visto do céu e paralisado no tempo; desaparecem nações, famílias, diferenciações de cultura e linguagem (a não ser quando legendados em cor uniforme, que torna miseravelmente asséptico o que é movimento e som). Desaparecem povoados, pequenos rios, organizações criativamente inovadoras de gestão da vida humana que não se aparta da natureza; desaparece, enfim, a Geografia construída nas tramas da vida para se dar a nós como ciência generalizante, desalmada – ato de cartografar o que é preciso se expulsa da existência o que importa.

Os mapas são feitos para realizar profecias sobre a Amazônia e a mais moderna e desejosa - ainda que inconfessável - é declarar a inexistência dos povos originários; negar-lhes uma geografia, uma história e, por efeito, um futuro. Seu futuro. Que também é meu.

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Violentar ideias ancestrais para servir aos filósofos e cientistas do momento que roubam concepções jurídicas, maneiras de viver e pensar a relação com o mundo, conceitos seminais para outro(s) futuro(s) e não reconhecem a origem de seus pensamentos. Pensadores que arregimentam multidões às palestras e aos seus livros, acumulando seu prestígio de vampiros – colonizadores do saber e contribuintes da inexistência de povos e coletivos amazônicos e outros povos originários pelo mundo (e cobram patente sobre "sua" propriedade intelectual desavergonhadamente).

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Ao olhar no espelho agora eu vejo um mapa - marcas de um espaço vivo que aponta para luta e beleza; tempo e projeto. E meu sorriso - que carrega a tristeza da perda no espírito - exige uma cartografia "da" Amazônia não "sobre" ela; mapas com canto e vida; com cheiro de mata e gosto de quem conhece na alma seu chão. Estas cartas ainda não existem; ou melhor, foram expulsas da existência pelo Olho (que decide como devemos enxergar o mundo) e está na hora de "re-existir": porque Onde Sou Eu!

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Imagens: Wallace Pantoja


Wallace Pantoja

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