espacialidade

Geobiografia dos Lugares

Wallace Pantoja

Geobiógrafo dos lugares, os que existem e os que ainda não, morando no centro e vivendo nas bordas, sonhando com o entre.

A VISÃO ESSENCIALISTA (E CÍNICA) EM RELAÇÃO AOS POVOS INDÍGENAS

Nossa visão sobre os povos indígenas brasileiros é politicamente estratégica: ao decretarmos o que é um índio verdadeiro - um tipo de duende da floresta paralisado no tempo - negamos que tais povos possam viver no espaço contemporâneo e, portanto, negamos a legitimidade das suas lutas por território, pelos seus lugares geossimbólicos e por um projeto de futuro sociodiverso realizável. Negamos também que possam utilizar todo o aparato técnico disponível na sua luta em um país que os empurra, com nossa conivência, ao abismo.


1074548-jfcrz_abr_27.04.2017_0580_1.jpg Imagem 1: José Cruz/Agência Brasil

O Acampamento Terra Livre (ATL) em Brasília mobiliza indígenas de todo país num período concentrado de ações políticas na capital, lançando mão do "Dia do Índio" para transformá-lo em seu significado historicamente padronizante. Na quinta feira (27/04) ocorreu uma manifestação massiva e fervor sereno de quem tem sido massacrado/a nos últimos 517 anos: a formação de um território nacional é, ao mesmo tempo, morte por uma violência enlouquecida de centenas de outros territórios e milhares de lugares geossimbólicos. dsc_1109-capa.jpg Imagem 2: ATL/Mobilização Nacional Indígena

Não surpreende, embora seja profundamente decepcionante, ver nas redes sociais e conversas cotidianas o tom de deboche pela existência de índios em pleno século XXI! Usando imagens de índios com celulares ou sacando dinheiro em caixas eletrônicos como uma justificativa para sua falseabilidade e desqualificação. Ora, nós, os urbanocêntricos (eu, índio que me neguei em ser historicamente, me incluo), queremos que as nações indígenas sejam peças de museu? Petrificadas no tempo? E para que? Para enquadrar-se nos estereótipos e representações com os quais enxergamos o mundo dos outros em dois tons, enquanto reservamos ao nosso cores e nuances diferenciadas! dia2_mob_indigena_lunae_parracho-2.jpg Imagem 3: Isabel Harari/Mobilização Nacional Indígena

Ao impor uma etiqueta sobre o que não somos, tornando o desconhecimento uma virtude, melhor exercermos o que sabemos exercer: ignorância, estupidez, racismo e etnocentrismo. Evocamos um arremedo de representação que coloca cada sociedade em uma posição inferiorizada em relação a "nós mesmos" e nos fazemos massa de indivíduos e coletivos que resolveram abdicar do entendimento complexo do Brasil, papagaiando uma sociedade fraturada, na qual ser "índio" e "não-índio" é apenas uma das inúmeras expressões binárias que povoam o moralismo amoral. dia2_mob_indigena_lunae_parracho-7.jpg Imagem 4: Isabel Harari/Mobilização Nacional Indígena

Desconhecemos a historicidade e os saberes ancestrais, desconhecemos os sistemas políticos complexos e as civilizações que existiram simultânea e sequencialmente no que hoje é Brasil, desconhecemos as cidades gigantescas, as estradas de comércio, as estratégias sanitárias e de saúde, a espiritualidade holística da Terra sem Mal, a capacidade de sobrevivência "mais que humana" ao longo dos séculos, o desenvolvimento de antropotécnicas próprias e a incorporações de técnicas modernas na melhoria das condições de vida, desconhecemos a luta - embora não a violência cega que se impõem aos indígenas - e queremos nos reservar ao direito de manobrar tecnologias (incluindo as indígenas) e negar aos outros que também as manobrem. dia2_mob_indigena_lunae_parracho-5.jpg Imagem 5: Isabel Harari/Mobilização Nacional Indígena

Ao idealizar indígenas como "duendes espirituais da floresta", este moralismo ignorante se torna recipiente de toda sorte de interesses comprometidos com um só projeto político: tornar o mundo homogêneo, ambientalmente impossível, socialmente fraturado, expressamente patriarcal, mono-religioso e aberto a lei do mais forte travestida de meritocracia retardada. Nos alerta Ailton Krenak: "os indígenas são apenas os primeiros a ser empurrados para o abismo, mas não se preocupem, vai ter para todos". dsc00692-1.jpg Imagem 6: Nathália Clark/Greenpeace

Estamos em uma rota de colisão direta com o colapso dos recursos e dos modos de viver planetários, anestesiados pela virtualidade e defendendo o indefensável: um capitalismo estatizado que decidiu triturar a natureza como recurso e com ela todos que se opõem à coisificação do ser humano. Entramos na era do humano-coisa, para além da biologia do homem-animal; e a devastação dos ambientes corresponde à devastação das mentes, uma alimentado a outra, canibalismo turbinado cuja Evolução da Espécie é a Extinção da Existência. foto12.jpg Imagem 7: Sem crédito/ATL


Wallace Pantoja

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