espacialidade

Geobiografia dos Lugares

Wallace Pantoja

Geobiógrafo dos lugares, os que existem e os que ainda não, morando no centro e vivendo nas bordas, sonhando com o entre.

O homem revoltado "pela vida de todas as mulheres" - o universalista desengajado

Ele pode ser um amigo, eu ou você. Tem visão algo progressista, não se percebe como machista - bem ao contrário - é a favor da vida de todas as mulheres. Porém, não perde um minuto em usar a morte de uma contra a organização e engajamento de tantas outras, que lutam diariamente frente a violência pessoal, estrutural e ainda precisam lidar com machos que lançam na lama toda uma rede de auto-afirmação coletiva: o universalista desengajado.


escola-focus-caveira-de-Dali.jpg Imagem: In Voluptas Mors, de Dalí e Halsman

Já sabemos que fracassamos como professores com a emergência da idiotice do "direito de não ter direitos" que une desde militares e seus baba-ovos que acreditam que índio é indolente e negro é malandro ou filósofos que acreditam que o cidadão comum só está preocupado em pagar contas e não morrer (como se cada um de nós não tivesse sonhos, iniciativas, paixões e atitudes minimamente variadas).

Nesse caldo tem um segmento que é bastante sensato, profissional, macho (em geral) e que pode ser seu amigo, parente ou você mesmo que jamais se pensa como "do mal": o universalista desengajado.

Ele se revolta por "todas as mulheres" violentadas e assassinadas. Ele se revolta porque algumas mulheres violentadas e assassinadas são mais visibilizadas do que outras, ele se revolta porque todas são iguais e todas mereceriam a mesma indignidade e engajamento, ele se revolta porque mulheres (feministas de esquerda que só fazem rodas de conversa e querem atrair mídia) escolhem seletivamente mulheres para evidenciar sua luta e colocam outras nas estatísticas, por fim se revolta contra intelectuais - termo usado sempre no pejorativo - que chamam a atenção para a contradição deste pensamento universalista desengajado, já que, na realidade concreta - e ele sabe disso - há diferenças de gênero, cor, classe social, orientação sexual e status que interferem concretamente na quantidade e profundidade das violências, grande e pequenas, sofridas pelas mulheres.

Este universalista desengajado não é um homem ruim, pouco inteligente, na realidade é bem articulado, algo progressista, cuida da família e respeita certas diferenças humanas dentro dos limites que estabeleceu como "naturais". Mas não perde um minuto em desvalorizar as mulheres que estão na ponta lutando por suas vidas e por de outras mulheres seja em rodas de conversa ou em ativismos sociais em rede que ele simplesmente desconhece. Esse universalista desengajado não perde tempo em gritar que uma despertou mais atenção porque é preta, lésbica e esquerdista enquanto que outra era policial e anônima; mas estranhamente, ao invés de se comprometer para visibilizar esta morte anônima que tanto o revolta, prefere denegrir a mobilização das mulheres que focam em um caso emblemático para enfatizar a dimensão concreta do feminicídio no Brasil e, ao mesmo tempo, sua dimensão estrutural que afeta todas as mulheres, mas diferentemente - de modo a canalizar a luta em diferentes contextos e por diferentes mulheres.

Para o universalista desengajado todas são iguais em sua revolta de macho não comprometido com nenhuma pauta concreta das mulheres. Ao diluir todas em sua revolta muito honesta, ele acerta por tabela as diferentes mulheres que descobrem, na pele (algo que nem eu nem ele podemos sentir porque, obviamente, não somos mulheres) que são universalmente diferentes e por isso precisam lutar diariamente por equidade - que é mais que igualdade - afinal, além de toda a podridrão da violência diária ainda precisam lidar com universalistas que confundem nivelamento abstrato com igualdade e reforçam o coro dos militares, babas-ovos, filósofos espertinhos que mal disfarçam sua vontade de conservar um privilégio histórico jamais admitido: o de governar quem são as mulheres - todas elas - em sua vida e em sua morte.


Wallace Pantoja

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