espacialidade

Geobiografia dos Lugares

Wallace Pantoja

Geobiógrafo dos lugares, os que existem e os que ainda não, morando no centro e vivendo nas bordas, sonhando com o entre.

BRASÍLIA: UM PINÁCULO FRIO E MEDONHO SE ERGUE

Deriva situacionista na paisagem referência de Brasília - o Congresso Nacional e as Esplanadas dos Ministérios - como imagem síntese de um não-futuro da nação que decidiu assumir-se como monolítica, na relação com o próprio território, cada vez mais fóbico, gélico e fechado.


Domingo sempre foi dia fúnebre em Brasília, ou antes, fúnebre no "topos" de nossa representação da capital - o congresso e a Esplanada dos Ministérios. Tenho certeza que longe daqui a vida acontece e teima em acontecer, escapando a qualquer síntese topológica. É uma paisagem borrada, coberta de sombras diante do futuro triste que se impõe a nós professores (e não só a nós). catedral (2).jpg

Nessa paisagem gélida para um amazônico, faz 18º, alguém trabalha lá no Congresso - talvez maquinando formas novas de submeter a existência de cada um de nós ao plano desejado pela nação - agora homegeneizada e arrancada da realidade "acima de todos, acima de tudo", cifrada na ideia algo questionável, algo apavorante de "maioria". A maquinaria não pára, precisa criar formas renovadas de destruir nossas capacidades de pensar e agir ponderadamente, com base em reflexão e não em histeria evagelizadora moralmente precária. congresso (2).jpg

Fiquei um tempo, respirando o ar parado e sem vida, caminhei pelo vazio dos ministérios, de iluminação amarelada, fantasmagórica. Então, me vi diante de um pináculo, como monólito 2001, e eu, o macaco abismado, sem rumo, esperando que ele produza um salto milagroso para nos levar a nova era: o Ministério da Defesa. ministério (2).jpg

O ministério - na realidade agora são dois - reluzente, monstruoso, é "geossímbolo" desse mergulho na direção de um futuro que não é, porque o fluxo espacial do viver é interrompido por um territorialismo fóbico e fechado sobre si mesmo: do controle dos corpos, nivelamento das mentes, imposição da moral impermeável à diferença, aceitação de que o Capital deve matar na indignidade quem trabalha, com a chancela do Estado. Pretensa "nação" unificada pela mentira: a de que somos uma nação.

E a propaganda estatal "Uma nova Brasília recebe um novo Brasil" escancara a verdade na mentira: de que a compreensão deste país foi reduzida à metáforas espaciais cínicas em frases para memes/slogans de convencimento massivo. propganda (2).jpg

O territorialismo nos afoga a todos nessa luz mortificante do Ministério da Defesa, em sua dureza lisa diante da espereza e aconchego da vida, é a sobredeterminação territorial de um ator-em-bloco programático que combina fé cristã autômata - liberalismo conservador - reacionarismo violento - condenação da inteligência livre - desumanização financeirizada. Inscrevendo seu programa débil, errático, mas com resultados efetivos em cada um dos corpos que teimam em reXistir e em fomentar o saber como resistência, nesta noite melancólica, borrada e sem vida de Brasília e do Brasil.


Wallace Pantoja

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