espacialidade

Geobiografia dos Lugares

Wallace Pantoja

Geobiógrafo dos lugares, os que existem e os que ainda não, morando no centro e vivendo nas bordas, sonhando com o entre.

Os efeitos de um patriotismo (des)topográfico

Quando reduzo o Brasil à imagem achatada e plana, aplacando meu desejo narcísico de controle dos afetos e comportamentos, produzo a mentira no ceio da verdade sobre o que é o bem, a família e a fé. E como a mentira da simplificação de um país complexo e plural me assola, escapo dela provocando a inexistência do real, num círculo patológico cuja solução redutiva é sintetizada no slogan: "Meu partido é o Brasil", sem perguntar de que Brasil sou partidário...


“Meu partido é o Brasil”. Frente a cor vermelha – vista como ameaça – em um jogo partidarizado de posições que é o Brasil e, na realidade, qualquer democracia fraca ou forte, a frase tomou de verdade exterior os corações incertos agora plenos de sua indubitável clareza de “estar do lado certo”, neste nosso Brasil acima de todos. meu-partido-e-o-brasil-bolsonaro-2018.jpg Fonte: https://www.elo7.com.br/lista/meu-partido-%C3%A9-o-brasil

No apelo narcisista – revelador de patologia social – em assumir-se como partidário do Brasil, cabe a pergunta incômoda e não realizada: de que Brasil sou partidário? Porque um país com dimensões continentais, mais de 200 milhões de habitantes, diversas nações indígenas e misturas de toda ordem, fendido pela marginalidade e exclusão mais dramática, com grupos sociais retribalizando-se (ou encastelando-se em condomínios exclusivos) nas metrópoles e assassinando por veneno ou pela arma liberalizada em um campo cuja concentração de terra e, consequentemente, renda, deixa pouca margem para uma esperança de futuro... de que Brasil seriam partidários os que afirmam com tanta veemência que “minha bandeira é verde e amarela”? narciso1-247x300.jpg Fonte: Narcísio, de Caravaggio, Wikipedia.

As respostas mais comuns e amplificadoras do narcisismo, quase ao ponto da ruptura do real são: o Brasil dos cidadãos de bem, que preservam os valores familiares, cristãos, contra essa ideologia de gênero corrupta e a corrupção política. Vê-se aí uma imagem da pura bondade generalista, esvaziada de seus contextos concretos porque assim disponível para uso discursivo de toda ordem. A justificação sem inimigos, mas esquecida de que para cada signo de bondade: o bem, a família, o cristianismo, a honestidade incorrupta – uma espécie de absolutismo pragmático as referencia no plano concreto das experiências ordinárias. Porque o cidadão de bem é o mesmo que se masturba em cima da pornografia infantil/juvenil às escondidas e deseja ser amigo do juiz, assim a lei pode ser entortada para seu lado. Este cidadão finge desconhecer o básico do Brasil profundo, das agruras de uma sociedade adoecidade pelo racismo, preconceito e diferença de classe, cuja saída para manter “seu bem” é a negação putrefata desses mesmos preconceitos, não raro praticados de maneira soberba por este cidadão de bem, que luta com tanto desespero pelo seu direito cristão de se manter preconceituoso e mandar “gays para o inferno” enquanto ri da morte de lideranças camponesas e indígenas que lutam pelo direito básico de acesso à terra como função social antes de ser roubada (dentro da legalidade dos cartórios Brasil a fora) como propriedade privada. Charge_Ronilso_herzog_usina_valores_racismo_brasil_colonial_problema_estrutural.jpg

Deslizando e, no fundo, aterrorizado, pela complexidade espacial que não compreende – e não quer realizar o esforço de compreender – o “cidadão de bem” achata, alisa, aplaina, simetriza este espaço nacional em um exercício monossilábico: eu, nós, sim, fé... recorrendo ao repertório de palavras que trazem o conforto da mentira, da mesmice replicada e multiplicada em espelhos do eu. Não é bem sua ignorância que lhe impede de abrir o sentido de território plurinacional que devemos enfrentar e aprender a conviver – afinal, todos somos em muitos níveis ignorantes, não existe ninguém com a chave que destrava o real de uma vez por todas – é a simplificação geográfica, redutiva do Brasil a uma imagem do bem, do bom, que, inevitavelmente vaza, de mentiras carentes de estancamento não pelo ato de enfrenta-las, mas de torna-las inexistentes, o escapismo que torna o bem a morada da suspeita eterna, até mesmo por parte deste cidadão que, na dúvida insuportável, surta ou tiraniza seu corpo e dos outros das mais variadas maneiras. Neste partido que é o Brasil sem enfrentar o Brasil que é meu partido, o círculo vicioso instala o brasileiro em um looping nesta topografia lisa de um país que não existe e não existirá. E a inexistência sempre é a fonte mais contundente de paixão, porque adia até o infinito o acerto de contas entre nossas experiências e nossas expectativas.


Wallace Pantoja

Geobiógrafo dos lugares, os que existem e os que ainda não, morando no centro e vivendo nas bordas, sonhando com o entre..
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