espacialidade

Geobiografia dos Lugares

Wallace Pantoja

Geobiógrafo dos lugares, os que existem e os que ainda não, morando no centro e vivendo nas bordas, sonhando com o entre.

O terror autoritário pelo fim das certezas ideais

Vivemos a conexão massiva dos desejosos pelas certezas ideais e paralisias autoritárias, ao ponto de provocarem mudanças políticas, sociais, familiares e pessoais que aterrorizam e, no limite, tentam matar todo aquele e todo o saber que aponta para o tempo indeterminado e o espaço mais caótico da existência, terreno da criatividade e abertura ao ser livre.


Dizem que havia um tempo em que tudo era "preto no branco", que havia "um lugar para cada coisa", que certos princípios eram invioláveis e serviam como bússola segura ao longo da vida. Neste tempo, a estabilidade e a previsibilidade eram irmãs gêmeas que garantiam o curso sereno e sem solavancos até a morte. download.jpg Fonte: https://www.online-therapy.com/blog/borderline-personality-disorder-vs-stability-life/

Porém, há pouco - se pensarmos em escala mais-que-humana - nosso espírito corporificado começou a vibrar em outro ritmo, exigiu uma refundação do que seria o tempo e o espaço, não mais como princípios de certeza, mas feitos do magma caótico das probabilidades, das possibilidades abertas e de um destino incerto. Não era apenas uma sensação, embora só através desta seria possível conexão carnal com estas mudanças sensíveis, era o conhecimento mais abstrato, da física à química, da matemática à biologia que abria este "horizonte de eventos". airplane-vortex-edit-cke.jpg Fonte: https://www.hipercultura.com/o-que-e-a-teoria-do-caos-e-como-ela-pode-afetar-sua-vida/

Ao que parece, fomos sacudidos do "plano da Terra" para sua esfericidade cheia de pontas, cacos e afundamentos que acelera em uma direção cuja flecha do tempo não podemos determinar. E nesta indeterminação de futuro, neste arranjo caótico de espaço, o fim das certezas se impõe como um princípio que convida à liberdade criativa do viver, convite recusado pelo terror autoritário do retorno "ao passado sem males" - se é que um dia foi assim, como dizem que foi - do conservadorismo em sua face politicamente mais plena: o modo reacionário de ser.

Este modo reacionário emerge e emergiu em todos os lugares pontualmente, mas agora é um fenômeno globalmente massivo. Alimenta-se desse desespero de que nada está completamente determinado, enlouquece com a possibilidade de construções criativas de relações no tempo-espaço, precisa sempre de uma voz exterior dotada de autoridade inconteste para garantir um tipo de segurança ontológica para existir. Order-from-chaos-cover-image-bbva-1024x683.jpg Fonte: https://www.bbva.com/en/order-from-chaos-how-to-apply-complexity-theory-at-work/

O modo de ser conservador-reacionário extravasa dos espaços privados para o espaço público, congrega as mentes assanhadas por paralisias (e não exatamente manutenções saudáveis), desejosa de cristalizações que impeçam movimento e mudança, seu signo é a repetitividade degradante, o retorno a um "passado mítico", mesmice que mata o criativo e o liberto atirando-os à fogueira do esquecimento, extirpando as lembranças da potência do vivido para garantir a continuidade da não-vida. arbitrio-onisciencia-e-a-teoria-do-caos-055839.jpg Fonte: http://www.interpretenefita.com/artigo/arbitrio-onisciencia-e-a-teoria-do-caos/104/

Os que se retroalimentam do vômito da própria paralisia do viver são maioria, estão em toda parte e gritam mais alto. Nos contaminam desta desesperança pela liberdade, pela criatividade ao ponto de nos diluir nessa crença cegante de "retornar e ficar lá" (e daí tiram seu único movimento: a inércia). E o apelo não é só poderoso, mas violento com todo aquele que ousa experimentar, criar, sentir a liberdade de ser. O desejo é tão cegante que pode ser eu ou você sem o sabermos, estaríamos já diluídos nesse desejo aterrorizante do autoritarismo reacionário? Da idealização das certezas pelo nojo da diferença e da liberdade dos outros?

As perguntas, tais quais o tempo e o espaço, ficam em aberto para criarmos nossas próprias respostas, como precisa ser!


Wallace Pantoja

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