espaço cósmico

Ligeiras matutagens sobre tudo e mais um pouco

Cosme Rogério

Filósofo, sociólogo, ator, poeta, cantador e produtor cultural.

O ser tão poético de José Inácio Vieira de Melo

"O Sertão é dentro. É sempre o mesmo e muda o tempo todo. O Sertão que vivencio é um Sertão profundo, como o dos mestres Elomar Figueira Mello, Ariano Suassuna e João Guimarães Rosa. É uma esfera mágica que está para além de uma mera geografia. Claro que o ponto de partida é um lugar real, onde vivi a infância e boa parte da minha juventude, no país das Alagoas e na nação baiana. Claro que cortei noites bebendo delírios no seio do luar do sertão. E os meus dias ainda são rasgados pelos garranchos da caatinga. Mas esse mundo que aparece no meu fazer poético é completamente idealizado, inventado, como há de ser sempre a arte."


O poeta, em foto de Ricardo Prado

José Inácio Vieira de Melo é considerado pela crítica especializada e pelos seus pares um dos maiores poetas brasileiros contemporâneos. No ano passado, o escritor lançou "O galope de Ulisses", antologia organizada pelo filósofo e também poeta Igor Fagundes. A coletânea reúne setenta poemas originários dos seis títulos até agora publicados por José Inácio: "Códigos do silêncio" (Salvador: Letras da Bahia, 2000), "Decifração de abismos" (Salvador: Aboio Livre Edições, 2002), "A terceira romaria" (Salvador: Aboio Livre Edições, 2005), "A infância do Centauro" (São Paulo: Escrituras Editora, 2007), "Roseiral" (São Paulo: Escrituras Editora, 2010), "Pedra Só" (São Paulo: Escrituras Editora, 2012) e "50 poemas escolhidos pelo autor" (Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2011).

Nascido nas Alagoas em 1968 e radicado na Bahia há 26 anos, José Inácio é um sertanejo solar, reluzente cavaleiro a galopar pelas sertânicas e cósmicas paisagens da existência, como se apreende no poema "Pintura rupestre":

Brusca vertigem que, ao ser vislumbrada,

cresce com cada lápide da santa

arquitetura – lápis da ciência

dos calendários cósmicos, marcando

dentro do coração os fevereiros

futuros. Fruto do vero carmim,

minha carne transgride transparências

concentrada na rosa e no jardim.

O silêncio que pinta a solidão

constrói pedras, passagens e paisagens

para dizer ao tempo suas cores,

como a figura dentro da amplidão

da caverna é a sombra da criança.

Ainda sinto os passos dessas formas.

Lêdo Ivo, outro luminar da poesia brasileira oriundo das Alagoas, gostava de dizer, entre gaitadas: “Não sei pensar, não sei refletir. Eu penso por imagens”. Sabendo que esse poeta compõe a rede de influências literárias inacianas, pedi que o "Ulisses caatingueiro" falasse um pouco sobre os seus processos internos de associações imagético-verbais que dão à luz os seus poemas. Eis a resposta:

"Certamente há processos internos, mas não os tenho definidos porque não sigo uma organicidade, não faço o poema premeditadamente. Ao contrário, no ato da criação poética sou servo da palavra e sinto-me como se estivesse possuído por uma força estranha, mas que ao mesmo tempo é tão familiar, é tão minha casa. Penso muito sobre as coisas do mundo e sobre a minha existência. Faço muitas reflexões que normalmente só me mostram a boca escancarada da estrada e como estou passando tão célere e tão sem sentido. Então, às vezes, esvazio-me dessas pré-ocupações, e sinto-me fazendo parte da paisagem. E da paisagem geográfica passo para outras paragens – as esferas do delírio – e aí começo a me recompor dentro dos cenários que vou inventando. Ultimamente, tenho preferido viver a poesia desses instantes mágicos a escrevê-la no papel e criar esse encanto que se chama ‘poema’. Tenho preferido sentir no corpo e no espírito a força da poesia e depois sentir o sabor de ficar quieto, sem buscar formas e imagens, apenas deixando-a passar por meu barulhos internos, ouvindo a voz do silêncio silenciar-me, sem nada pensar. Mas ao fazer um poema, depois do necessário distanciamento, volto para a sua arquitetura, e aí é a hora de fruir e sentir o ritmo, assim como de perceber a inteireza daquela peça, daquela obra. Então, nesse momento, uso muito do pensamento, uso muito da memória e acesso todas as minhas referências e busco a medida certa, a forma precisa que dê ao poema o sentido de unidade. Nessas horas penso o mundo, carrego o mundo nas costas. 'Pensar é estar doente dos olhos', dizia o poeta Fernando Pessoa, no heterônimo de Alberto Caieiro, e é por isso que estou quase cego".

Inácio.jpg

No prefácio de "O galope de Ulisses", Igor Fagundes falou em “deserto-sertão” para metaforizar o lugar e o tempo da poesia de José Inácio. Nessa corajosa travessia, de que forma as transformações sofridas pelo sertão teriam afetado o escrever-galopar do poeta?

"O Sertão é dentro. É sempre o mesmo e muda o tempo todo. O Sertão que vivencio é um Sertão profundo, como o dos mestres Elomar Figueira Mello, Ariano Suassuna e João Guimarães Rosa. É uma esfera mágica que está para além de uma mera geografia. Claro que o ponto de partida é um lugar real, onde vivi a infância e boa parte da minha juventude, no país das Alagoas e na nação baiana. Claro que cortei noites bebendo delírios no seio do luar do sertão. E os meus dias ainda são rasgados pelos garranchos da caatinga. Mas esse mundo que aparece no meu fazer poético é completamente idealizado, inventado, como há de ser sempre a arte. Agora, é certo que percebo as transformações que estão acontecendo. As tecnologias têm chegado com muita força ao Sertão, levando o jeito urbano às casas dos camponeses e despertando, na maioria, um sonho desgrenhado de cidade. É raro o jovem da roça que ainda sonhe em ter um cavalo bom de passada bem arreado. Hoje qualquer um quer ter uma motocicleta e óculos escuros. Eu sou de um tempo em que cavalo e vaqueiro formavam um único ser: o Centauro do Sertão. E esse espaço/tempo ainda existe, é o Sertão profundo que há dentro de mim".


Cosme Rogério

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