espaço cósmico

Ligeiras matutagens sobre tudo e mais um pouco

Cosme Rogério

Filósofo, sociólogo, ator, poeta, cantador e produtor cultural.

Cultura, política e representação: a atuação de Graciliano Ramos junto à ABDE

Em meio à complexa configuração política da década de 1940, um grupo de intelectuais posicionados contra a falta de liberdade de expressão imposta pelo Estado Novo organizou-se no Rio de Janeiro na forma da Associação Brasileira de Escritores (ABDE). Segundo Denis de Moraes, principal biógrafo de Graciliano Ramos, a entidade tinha o intuito formal de “empenhar-se pelos direitos autorais, mas na verdade voltada à organização de uma frente única de intelectuais”.


ABDE, em 1949.

Em meio à complexa configuração política da década de 1940, um grupo de intelectuais posicionados contra a falta de liberdade de expressão imposta pelo Estado Novo organizou-se no Rio de Janeiro na forma da Associação Brasileira de Escritores (ABDE). Segundo Denis de Moraes, principal biógrafo de Graciliano Ramos, a entidade tinha o intuito formal de “empenhar-se pelos direitos autorais, mas na verdade voltada à organização de uma frente única de intelectuais”. Seu germe foi a Sociedade dos Escritores Brasileiros, primeira de caráter profissional no Brasil, criada em 14 de março de 1942. O nome foi depois modificado para Associação Brasileira de Escritores e, graças à articulação com os escritores da Capital Federal, sua sede passou a ser o Rio de Janeiro e sua abrangência, nacional. Curiosamente, as articulações para a criação da associação se dariam nos escritórios do jornal A manhã, propriedade e órgão oficial do Estado, dirigido por Cassiano Ricardo, um dos porta-vozes do Estado Novo e co-fundador da entidade. Entre os outros fundadores, estavam alguns dos nomes consagrados do momento, como Graciliano Ramos, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Astrojildo Pereira, Sérgio Milliet, Antonio Candido, José Lins do Rego, Mario de Andrade, Raquel de Queiroz, Aníbal Machado e Monteiro Lobato.

A historiadora Ana Amélia de Moura Cavalcante de Melo, estudiosa do tema, chama a atenção para a necessidade de se considerar algumas clivagens importantes ao se pensar a conjuntura política daquela década, especialmente a partir de 1942, ano em que o Brasil entrou na II Guerra Mundial: “Se por um lado há uma mudança da política externa brasileira abandonando a posição de neutralidade, com apoio efetivo aos Aliados, por outro, crescia as manifestações e resistências contra o Estado Novo. A participação do Brasil na guerra significava adesão pública do governo aos princípios democráticos, assinalando, portanto, uma contradição com a política interna autoritária. A nova postura do governo permitiu a elaboração de um discurso de união nacional, ao qual diversos setores aderiram, incluso o PCB, dirimindo algumas arestas oposicionistas. Porém, as demandas internas pela ampliação da democracia não arrefecem. A dinâmica desse processo torna-se visível com o surgimento de inumeráveis organizações e manifestos, reclamando maior liberdade política”.

Congresso Brasileiro de Escritores, 1951.

O posicionamento político-ideológico da entidade em favor desse interesse foi definido no I Congresso Brasileiro de Escritores, realizado quase três anos depois pela ABDE. A ideia de criar esse evento foi incentivada, entre outros, por Jorge Amado, Oswald de Andrade e Aníbal Machado. A reunião dos nomes mais expressivos da intelligentsia brasileira e convidados estrangeiros aconteceu entre 22 e 27 de janeiro de 1945, no Teatro Municipal de São Paulo, com forte cobertura da imprensa. As palavras de Aníbal Machado, presidente do congresso, em seu discurso de boas-vindas, nos informam sobre a tônica do evento naquele contexto político: “Ninguém pode fugir à sombra que o mundo lhe projeta. Nesse chão sem firmeza e por essa cena mal iluminada atravessa o fantasma do intelectual vagamente hamletizado. – Que vens fazer aqui? Perguntará o público-multidão. Resolver os teus problemas ou os nossos? Exibir o teu desespero, agravar as tuas dúvida (sic)? Ou ajudar-nos a encontrar o que nos falta, exprimir o que sofremos, formular o que queremos? É para nos libertar ou para nos explorar que escreves?”.

Graciliano tornou-se um dos melhores exemplos da incorporação dessas disposições ético-estético-políticas que se afirmaram a partir daquele momento no campo intelectual literário brasileiro. O intelectual, segundo o Mestre Graça, não deveria estar desvinculado das questões de seu tempo, como havia declarado o pensador à revista Renovação, um ano antes: “Não há arte fora da vida, não acredito em romance estratosférico. O escritor está dentro de tudo que se passa, e se ele está assim, como poderia esquivar-se de influências?”. Assumindo em sua escrita o ponto de vista dos oprimidos, influenciado pelas leituras de Gramsci a respeito do engajamento intelectual, Graciliano Ramos confessou corajosamente ao pintor Cândido Portinari, amigo e camarada de partido, autor da tela Criança Morta, de 1944, em carta de 15 de fevereiro de 1946: “A sua carta chegou muito atrasada, e receio que esta resposta já não o ache fixando na tela a nossa pobre gente da roça. Não há trabalho mais digno, penso eu. Dizem que somos pessimistas e exibimos deformações; contudo as deformações e a miséria existem fora da arte e são cultivadas pelos que nos censuram. O que às vezes pergunto a mim mesmo, com angústia, Portinari, é isto: se elas desaparecessem, poderíamos continuar a trabalhar? Desejaremos realmente que elas desapareçam, ou seremos também uns exploradores, tão perversos como os outros, quando expomos desgraças? Dos quadros que você me mostrou quando almocei em Cosme Velho pela última vez, o que mais me comoveu foi aquela mãe a segurar a criança morta. Saí de sua casa com um pensamento horrível: numa sociedade sem classes e sem miséria, seria possível fazer-se aquilo? Numa vida tranqüila (sic) e feliz, que espécie de arte surgiria? Chego a pensar que faríamos cromas, anjinhos cor-de-rosa, e isto me horroriza. Felizmente a dor existirá sempre, a nossa velha amiga, nada suprimirá. E seríamos ingratos se desejássemos a supressão dela, não lhe parece?”.

Criança Morta, de Portinari

A convergência pacífica no ambiente intelectual foi seriamente abalada em 1949, por ocasião da eleição da diretoria da ABDE. Os comunistas, na ilegalidade desde que o registro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) foi cassado, em 1947, rejeitaram as propostas de consenso, uma vez que não queriam ocupar cargos secundários na entidade. Daí lançarem uma chapa “puro sangue” encabeçada pelo jurista Homero Pires. A chapa adversária, que reunia “direitistas empedernidos e intelectuais progressistas”, obedecia à seguinte composição: Afonso Arinos de Mello Franco (presidente), José Barreto Filho (vice-presidente), Carlos Drummond de Andrade (primeiro-secretário), Otto Maria Carpeaux (segundo-secretário), Jaime Adour da Câmara (tesoureiro). No conselho fiscal, constavam os nomes de Hermes Lima, Alceu Amoroso de Lima, Manuel Bandeira, Otávio Tarquínio de Sousa e Rodrigo Mello Franco de Andrade.

Para Graciliano, também comunista, era uma tolice o PCB pretender controlar a ABDE, conforme Paulo Mercadante registrou 45 dias antes do pleito: “Graça explicou-nos que não há propriamente escritores reacionários, sendo, portanto, aconselhável manter a unidade de todos. Afinal, não se sabe o que virá acontecer. Porém deliberação é deliberação, concluímos. [...] O Partido está mesmo tomado pelo furor do radicalismo. Homero está acima de qualquer suspeita e é preciosa uma personalidade a fim de esconder o sectarismo e o esquerdismo. [...] Graça não dá ao problema da ABDE uma importância extraordinária. Apenas acha uma tolice a mais e já são tantas que não faz diferença. ‘Que valem os escritores, afinal, neste país?’, perguntava-nos”.

A eleição ocorreu em março, e foi bastante tumultuada. José Lins do Rego, por exemplo, aliado de Arinos, vencedor do pleito, berrava acariciando uma peixeira que trazia na cintura. Intelectuais consagrados envolveram-se em agressões verbais e físicas, observados por um Graciliano silencioso, que só quebrou a tensão para dizer ao filho Ricardo: “Quanta bobagem!”.

O episódio mais constrangedor envolvendo a ABDE aconteceu durante a posse da nova diretoria, conforme descreveu Lucila Soares: “Um grupo de militantes foi escalado pelo PCB para empastelar a cerimônia de posse da diretoria eleita. Dela faziam parte Dalcídio Jurandir, Astrojildo Pereira, Alina Paim, Milton Pedrosa, Lia Correia Dutra, Victor Konder, Maurício Vinhas de Queiroz e Graciliano Ramos, muito a contragosto. Avisado por Octavio Tarquinio, Afonso Arinos decidiu sair armado de casa. O ato de transmissão do cargo teve cenas de pastelão, com respeitáveis intelectuais subindo em mesas para trocar golpes de guarda-chuva e xingamentos. Houve até tentativa de roubo de ata, num episódio que provocou enfrentamento físico entre Dalcídio Jurandir e Carlos Drummond de Andrade – uma disputa que parecia destinada a verificar qual dos dois era menos talhado para o papel. Na última e desesperada tentativa de pôr fim à insensatez, Graciliano Ramos subiu numa cadeira e gritou: – Vão todos à puta que os pariu!!!”.

No dia seguinte, a diretoria eleita renunciou coletivamente. O episódio deixou marcas profundas, desfez amizades e, fundamentalmente, demonstrou que novos tempos haviam chegado.

O escândalo promovido pelo PCB afastou da ABDE centenas de associados, que depois fundariam a União Brasileira de Escritores (UBE), tendo ainda como consequência a fobia antimarxista no meio intelectual, “para delírio da ditadura maquiada do general Dutra” (Dênis de Moraes). Em 1951, o partido indicou o nome de Graciliano para presidir a ABDE, como resultado do esforço de Álvaro Moreyra para restabelecer o diálogo entre os intelectuais, esforço também assumido pelo autor de Vidas secas em seus dois mandatos à frente da instituição (em 1952 ele foi reeleito), embora os ressentimentos fossem nutridos. Ele encabeçou manifestos contra a bomba atômica, contra o uso de armas bacteriológicas na guerra da Coreia e a favor da paz mundial e do monopólio estatal do petróleo. Protestou contra atentados à liberdade de expressão, como o que resultou na apreensão de O mundo da paz, de Jorge Amado, e perseguições ideológicas, como a praticada contra Oscar Niemeyer, impedido de assumir uma cátedra na Universidade de São Paulo. Também deu continuidade à eterna batalha pelos direitos autorais. Apesar de aventurar-se em campo minado, Graciliano pôde colher dessa experiência certo prestígio e reconhecimento internacional como escritor brasileiro, especialmente quando, por ocasião das celebrações alusivas ao 1.º de Maio de 1952, o Comitê Central do PCB convidou o presidente da ABDE para que integrasse delegação de intelectuais e sindicalistas que visitariam a então União Soviética. Convencido pela mulher, pelos filhos e amigos, Graciliano aceitou o convite.

Graciliano em Moscou, 1952.

A participação nas delegações internacionais do PCB representava uma distinção no conjunto da militância comunista, bem como um tipo de reconhecimento político que evidenciava suas posições na esfera cultural, dentro e fora do partido. Não deixa de ser eloqüente o fato de que até os que relutavam e resistiam ao zdanovismo, como Graciliano, aceitavam integrar comitivas do partido – seja porque se sentiam prestigiados com a escolha, seja porque consideravam uma oportunidade extraordinária conhecer as experiências socialistas em curso e ampliar contatos no exterior.

O que se observa no estudo dessas trajetórias é que, entre as décadas de 1930 e 1940 temos um processo lento de autonomização do espaço intelectual, diretamente vinculado a profundas mudanças ocorridas na sociedade, possibilitando alargar a participação e promover mudanças também no campo cultural. Nos estertores do Governo Vargas, diversos grupos se mobilizaram em oposição ao Estado Novo, dando origem a formas institucionalizadas de atuação. A criação da ABDE se deu no contexto das manifestações pela redemocratização, expressando também as aspirações de autonomização do campo intelectual. A esses processos, se juntou mais um: o mercado editorial se ampliou, e algumas editoras passaram a pagar antecipadamente os direitos autorais aos seus autores editados, permitindo-lhes atuar profissionalmente como escritores.

Para saber mais:

MELO, Ana Amélia de Moura Cavalcante de. Associação Brasileira de Escritores: dinâmica de uma disputa. Varia hist., Belo Horizonte , v. 27, n. 46, Dec. 2011 . Available from .access on 28 Sept. 2013. http://dx.doi.org/10.1590/S0104-87752011000200016.

RIDENTI, Marcelo. Brasilidade revolucionária: um século de cultura e política. São Paulo: UNESP, 2010.

SOARES, Lucila. Rua do Ouvidor 110: uma história da Livraria José Olympio. Rio de Janeiro: José Olympio / FBN, 2006.


Cosme Rogério

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