espaço cósmico

Ligeiras matutagens sobre tudo e mais um pouco

Cosme Rogério

Filósofo, sociólogo, ator, poeta, cantador e produtor cultural.

O desafio de Chico Nunes e Pedro Basílio

Como chegou a dizer Mário Lago, Chico Nunes era safado, mas poeta; cachaceiro, mas poeta; tudo o que não prestava, mas poeta; e a tudo o que se disser dele deve-se acrescentar "poeta", pois ninguém foi mais poeta do que ele.


A pequena história que vou contar é uma das que mais me são solicitadas. Agrado-me de recitá-la, e eis já fiz muito isso por esse Brasil afora. Os protagonistas são dois versejadores alagoanos, contemporâneos de Graciliano Ramos, mestres do repente que viveram na cidade de Palmeira dos Índios: Pedro Basílio, cantador de toadas de vaqueiro, e Chico Nunes, cantador de cocos de embolada.

A única foto conhecida de Chico Nunes

O desafio entre os dois aconteceu há uns oitenta anos, na antiga Rua Pernambuco Novo, rua mesma onde nasceu, viveu e morreu o "rouxinol da Palmeira" (por isso hoje justamente chamada de Rua Chico Nunes), e se tornou um clássico das disputas de repentistas, contado e recontado de diversas maneiras e até mesmo com outras personagens. Além do que sobrevive na tradição oral, a versão mais conhecida desse relato é a que foi transcrita pelo ator e sambista Mário Lago, no livro "Chico Nunes das Alagoas", publicado em 1975.

Capa da segunda edição de "Chico Nunes das Alagoas", de Mário Lago.

Não apresentarei todos os versos do desafio porque o espaço não me chega para tanto. Seguem aqui apenas o primeiro, de Pedro Basílio, e o último, de Chico Nunes, a título de ilustração. Sendo dada, como mote, a frase "Eu sou melhor do que tu", Pedro Basílio começou: "Sou rico, sou potentado / Sou poeta do direito / Sou um homem de respeito / Sempre fui considerado / Como um cantador honrado / Desde o Norte até o Sul / Até o Barão de Traipu / Me daria confiança / Vivo cheio de esperança / Eu sou melhor do que tu". Chico Nunes tomou uma lapada de cachaça, e respondeu, na bucha: "Já perdi a cerimônia / Ando cambaleando / Andam até me chamando / De fumador de maconha / Ajuntei-me a uma sem-vergonha / Levei ponta pra chuchu / Fui corno em Caruaru / Veado no Marimbondo / E, mesmo dando o redondo / Eu sou melhor do que tu".


Cosme Rogério

Filósofo, sociólogo, ator, poeta, cantador e produtor cultural..
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