espaço cósmico

Ligeiras matutagens sobre tudo e mais um pouco

Cosme Rogério

Filósofo, sociólogo, ator, poeta, cantador e produtor cultural.

Ariano no lar de Graciliano

No aniversário de 90 anos do nascimento de Ariano Suassuna, autor de Auto da Compadecida e do Romance d'A Pedra do Reino, recordamos uma visita que o escritor, falecido em 2014, fez dois anos antes à Casa Museu Graciliano Ramos, em Palmeira dos Índios, e da qual fomos testemunhas.


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– Mestre Suassuna, posso tirar uma foto novamente com o senhor?

– E onde foi que a gente tirou outra antes? – perguntou-me sorridente e acolhedor, como sempre, estendendo-me a mão em cumprimento.

– Em duas oportunidades. A primeira foi em Recife, no Congresso Brasileiro de Bioética, em 2004. A segunda, no Festival Literário de Garanhuns, quando lhe dei de presente uma maraca indígena pirografada, feita pelos xukuru-kariri daqui, como presente de aniversário em seus 80 anos.

– Ah, eu sabia que lembrava de você de algum lugar...

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Assim foi o meu terceiro e último contato pessoal com o imortal Ariano Suassuna, quando visitou, às vésperas de seu aniversário de 85 anos, a Casa Museu Graciliano Ramos, em Palmeira dos Índios.

O lugar estava bastante animado. Na véspera, o cineasta Ailton da Costa havia anunciado no Facebook a ilustre presença do autor da peça Auto da Compadecida - bastante popular devido às adaptações para o cinema e a TV - do Romance D'A Pedra do Reino - verdadeiro monumento da estética armorial. Para a recepção, a Secretaria de Cultura deu uma guaribada no ambiente, que cheirava a tinta fresca. Afinal, não é todo dia que recebemos a visita de um tão querido imortal da Academia Brasileira de Letras. Seria mau se as privadas do banheiro permanecessem arrebentadas. Santo Ariano, feitor de milagres, que nos fez envidar esforços no sentido de valorizarmos o nosso patrimônio cultural...

Enquanto Ariano não chegava, paciência. Curiosos ajuntavam-se na rua. Todos queriam, ao menos, tirar uma foto com ele. Aproveitei, enquanto isso, o tempo e a disponibilidade do então secretário de Cultura, Toni Oliveira, para discutirmos algumas propostas que seriam encaminhadas nos meses seguintes. Santo Ariano, fazedor de milagres...

Estávamos na expectativa da vinda do mestre desde as 10 horas da manhã. Ariano só chegou por volta das 4 da tarde, precedido pela equipe que produzia o documentário "Visões do Brasil - O Nordeste de Ariano Suassuna", pelo SESC Nacional. A visita foi rápida, mas satisfez quem esperava por ele. Bastante solícito, dono de uma aura cheia de encantamento, o mestre Ariano afirmou ser uma honra sentar-se na mesma cadeira de Graciliano Ramos, e sentir a energia desse importante escritor brasileiro.

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A tarde sertaneja de Palmeira dos Índios ficou mais alegre com aquela presença. Santo Ariano, fazedor de milagres, quebrou a rotina de monotonia que caracterizava a cidade naqueles tristes tempos. Aquele cantador sem repente, cangaceiro manso, nobre palhaço frustrado, contador mentiroso de maravilhas, nosso maior professor de história e autoestima, fez-nos, por alguns momentos, acreditar na feliz ilusão de que, realmente, ele guardava em sua memória alguma lembrança da gente.


Cosme Rogério

Filósofo, sociólogo, ator, poeta, cantador e produtor cultural..
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