espaço da palmitcha

Porque a imaginação não me deixou escolhas...

Camilla Trigo

Educadora, artista e amante da vida.

Tecnologia de cardápio

Com o mundo altamente globalizado nos deparamos com mais e mais tecnologias que vêm não somente para facilitar nossas vidas, mas também para preencher um vazio que essa mesma globalização nos traz.


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Quem nunca se sentiu sozinho em meio a multidão? E estar em meio a multidão não necessariamente significa estar ao vivo com várias pessoas te cercando, mas também uma forma de refletir sobre a presença virtual de milhares de seguidores e amigos, enquanto o peito urge a necessidade ímpar de estar verdadeiramente presente. Viver nesse mundo aonde as distâncias são cortadas em segundos, mas em contrapartida não conseguem saciar o bom e velho contato presencial, cria dia após dia essa sensação. Teclar com várias pessoas ao mesmo tempo e não conhecer a fundo a maioria delas, ter muitos amigos virtuais e nenhum que te ofereça a mão na hora da angústia, e vários outros exemplos dessa solidão cada vez maior que nos envolve. E vale lembrar que ninguém está imune a isso. Muitas vezes nos deparamos com uma ânsia fora do comum em acumular amigos em redes sociais e porque não dizer, nos relacionar com um número considerável de pessoas. Para alguns: uma mera característica dessa sociedade contemporânea. Para outros: um vício, e até uma praga.

A tecnologia de cardápio, aquela do Tinder e similares, aonde escolher uma pessoa para algum tipo de relacionamento (seja ele qual for) nos leva a acreditar numa busca incessante por um número maior de pessoas que venham a suprir a necessidade de nos mesmos. Ou simplesmente o fato de buscarmos mais pessoas que muitas vezes não passarão de meros contatos em nossas agendas telefônicas, ou porque não dizer lista de WhatsApp. Talvez tudo aquilo que não encontramos em nós, buscamos que outro nos ofereça. Mesmo que seja uma análise superficial e abrangente, sabemos que isso, mesmo que em partes, é verdade. Sair com muitas pessoas e nunca olhar para dentro da gente, ter com quem contar histórias do dia, mas nunca quem ouça nossas dificuldades mais urgentes. Difícil fazer essa análise tão seca acerca de nos mesmos e dos outros, porque em vários casos encontramos em meio ao cardápio um grande amigo, uma grande amiga ou um grande amor, quem sabe. Mas entre casos e acasos, existem exceções e muitas vezes são exatamente essa exceções que queremos encontrar.

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O julgamento nesse tipo de aplicativo é imediato. O julgamento faz parte como item obrigatório de uso. Seja pela foto, pelas similaridades, seja pela descrição do perfil. É nesse julgamento do outro que faz com que muitas coisas sejam forjadas a fim de um resultado, no mínimo, positivo. Aí que se entra um desequilíbrio absurdo de quem se é. Por detrás de contas em aplicativos, essências são perdidas em futilidades e mais evaporação do que é ser. E assim relações não são verdadeiramente formadas e tudo que poderia vir a ser se esvai. Porém, nesse mesmo lugar há quem acredite, quem esperançosamente acredite, em muitas coisas, porque apesar da superficialidade aparente desses cantinhos virtuais, existem as grandes profundidades, quase buracos negros, sugando para si tudo aquilo, acreditando nas relações mais sólidas, mesmo em mundo líquido. A tela é usada como escudo, interferindo que as pessoas olhem para elas mesmas e respondam a questão “quem sou eu?”. São nessas máquinas tecnológicas que o recurso de superficialidade está inserido. Mas cabe a cada individuo saber se irá utilizar ou não.

Inclusive, podemos pensar que essa própria superficialidade seja resultado de como as relações humanas estão sendo projetadas hoje em dia. Supostamente, o aplicativo nada mais faz do que refletir como a maioria das pessoas têm se tratado nesses últimos tempos, cabendo a tecnologia apenas reforçar ainda mais essa ideia de laços continuamente frouxos. Mas o que talvez seja pedir demais é empatia. Querer uma relação casual, querer tentar o novo, expandir relações sem compromissos é normal. Mas empatia e sinceridade são fatores que devem caber na sociedade mais líquida de todas, não importa quando, aonde e muito menos com quem.


Camilla Trigo

Educadora, artista e amante da vida. .
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