espaço da palmitcha

Porque a imaginação não me deixou escolhas...

Camilla Trigo

Formada em artes e exatas. Coreógrafa, professora, diretora da Angulus Companhia Contemporânea de Dança-Teatro e pensadora.

Universo Particular

Em cada um de nós, uma expansão diferente. Em cada um de nós, estrelas singulares. Em cada um de nós a leitura e releitura de um universo extremamente particular. Uma vivência que só cabe a nós mesmos.


space-stars-galaxy-universe-andromeda-nebula.jpg

Imaginar que o Universo Observável tem um raio cerca de 46 bilhões de anos-luz é assustador. Mas o que nos deixa ainda mais intrigados é pensar que dentro desse mesmo universo, que ainda não sabemos exatamente delimitar (se é que pode ser delimitado), existem bilhões de outros universos: o universo particular de cada indivíduo, que guarda momentos e inúmeras explosões cósmicas emocionais que reverberam de modo diferente para cada um.

Tudo pode ter nascido com um Big Bang, ou não. Não temos respostas claras sobre o “início de tudo” e sobre vários outros eventos que ocorreram e continuam ocorrendo no nosso dia-a-dia. Talvez continuaremos sempre em dúvida, talvez em breve estaremos prontos para responder. Não sabemos exatamente se vibramos em 10 dimensões ou se somos capazes efetivamente de dobrar o espaço-tempo e mudar algumas realidades, porém sentimos a conexão de todas as coisas desse mundo nas nossas vidas. É como se todas essas conexões convergissem para nosso ponto central e depois fossem transferidas para todo nosso Universo Particular, transformando cada um em um poço sem fim de reações. Podem chamar essas conexões de ocultas, como definido pelo físico austríaco Fritjof Capra.

Tudo ao nosso redor age interferindo em como pensamos, em como nos decidimos e logicamente em quem vamos acabar nos tornando. Porém, existe uma essência natural que nasce com a gente. Essa essência juntamente com todos os fatos externos que vão modelar o nosso infinito particular, como já dizia Marisa Monte. Podemos ser apenas instrumentos de uma grande energia cósmica ou uma consciência unitiva, como coloca o físico Amit Goswami. Mas somos ainda mais, somos nós os catalizadores de reações e podemos remodelar as verdades apresentadas.

tumblr_lpceqsfZGG1qccjkxo1_500.jpg

O que faz com que relações humanas sejam complicadas é essa complexidade de laços, nós e química abstrata que nos percorre continuamente e infinitamente. Cada complexidade até alinhar a uma outra complexidade se torna quase impossível e durante esse processo várias outras complexidades vão se formando. Algumas se ajustam, outras não e seguimos com disparidades na maioria das vezes. Reclamamos disso. Reclamamos continuamente de como é lidar com o próximo, reclamamos de como o próximo não nos entende, sem parar para compreender que não existe ninguém que caiba em nosso universo sendo a cópia do nosso próprio universo. O que faz com que haja graça em viver talvez seja contemplar esses diversos universos que fazem parte do nosso universo particular e entender que eles nada mais são do que os elementos que deixam vivos nossa necessária complexidade.

Precisamos alimentar nosso interior com todo tipo de energia através de acontecimentos cotidianos. Precisamos, sem que funcionemos como membranas seletivas. Precisamos deixar que tudo entre, que tudo interfira, para que nós, com nossa essência primordial, deixe o que tiver que ser reagir. Podemos não saber precisamente se o universo em que vivemos é infinito, mas uma certeza se faz: nosso universo particular é, e ninguém tem um igual ao nosso. A graça está em deixar que Big Bangs ocorram, que novas galáxias se formem e deixar, principalmente, que estrelas morram. Porque nem todo conjunto de fusão, por mais potente que pareça ser, é eterno.


Camilla Trigo

Formada em artes e exatas. Coreógrafa, professora, diretora da Angulus Companhia Contemporânea de Dança-Teatro e pensadora. .
Saiba como escrever na obvious.
version 7/s/recortes// @destaque, @obvious //Camilla Trigo