espaço da palmitcha

Porque a imaginação não me deixou escolhas...

Camilla Trigo

Educadora, artista e amante da vida.

Incertezas Contemporâneas – O mundo guiado pela dúvida e regado pela frustração

A possibilidade de conexão mundial em um tempo bem menor, devido a Era da Informação, trouxe o encurtamento de distâncias e a produção e disseminação de conteúdo constante. Com o passar dos anos, essas informações começaram a ser cada vez mais recorrentes, trazendo um problema de excesso, bem como uma tonelada de dúvidas e muitas vezes uma presente sensação de frustração.


My-Anxious-Heart-1-593x479.jpg Foto: Katie Crawford

Para o autor do livro “A teoria matemática da comunicação”, Sharon, a explosão de dados e fatos cria a redução da certeza. Isto é, incertezas são cada vez mais geradas em face de informações quantitativas e não qualitativas, o que gera uma quantidade absurda de vazios. Com esse crescente problema de disseminação de vãos nas informações, foi se criando a necessidade cada vez maior delas serem processadas corretamente. Não basta receber manuais e não aplicar conhecimentos.

O tempo é relativo. Cada um o processa de uma maneira, mas é incontestável que esse borbulhar de conteúdo gerou uma mudança significativa na gestão e processamento desse tempo. Horas são gastas no dia para que possamos ser bombardeados com notícias, novidades, mensagens, etc. Cria-se cada vez mais uma dispersão de conteúdo e uma sensação de frustração pelo não acompanhamento de todas as novidades contemporâneas. O tempo que se tem tanto pra se processar a informação quanto para a reflexão para tomada de decisões, por exemplo, se tornou curto. Muito já se gastou apenas recebendo informações, desde que se acorda até a hora de dormir (ou tentar dormir). E esse recebimento de conteúdo passou a ser uma necessidade, uma espécie de vício.

My-Anxious-Heart-9-595x479.jpg Foto: Katie Crawford

Cada vez mais criamos seres humanos que se alimentam de informações e regurgitam dúvidas. Essas dúvidas quase nunca tratadas se transformam em escolhas erradas. E errar no mundo de hoje é praticamente um pecado. Foi o tempo que podia ter sido gasto na escolha correta. Essa teia de nós que vai sendo criada se enrola no pescoço da sociedade contemporânea, criando cada vez mais ansiedade e frustração. O imediatismo pregado e a pressão para que saibamos de tudo aqui e agora, independente do valor que aquilo realmente nos tem, é constante. Estamos imersos em um grande mar com altas ondas que não param de nos atingir tentando nos afogar (pelo menos é essa a sensação para a maioria das pessoas que conheço). Criamos culpa em cima de culpa por nossas próprias escolhas e não temos nos permitido pedir desculpas para nós mesmos devido aos nossos supostos erros, se é que elas realmente são necessárias. Não permitimos, muitas vezes, tomar rumos diferentes porque somos julgados quando tomamos, seja porque não seguimos um padrão esperado ou porque mais a frente resolvemos mudar de cenário. Estamos nos tornando zumbis. Consumimos sem pensar informações que nem sempre são relevantes, esquecemos nosso filtro e apenas seguimos. Criamos subjetividades e ansiedades, como coloca o pesquisador Fridman.

São tempos de uma civilização que vive um mal-estar, como expõe Zigmunt Bauman em uma de suas obras. “Somos colecionadores de experiências e sensações”. A questão é que estamos colecionando coisas erradas e os anos nos passam rápido, como uma viagem no tempo, e essas sensações nem sempre são tão agradáveis. Estamos virando meros espectadores do que ocorre. Falsamente acreditamos estar ditando nossas vidas, mas poucos têm feito isso. Criamos apenas monstros internos regados de dúvidas e culpas que não cessam.

ilustra5.jpg Ilustração: Jean Jullien

O que nos falta é realmente aplicar um filtro nas informações, aprender a aplicabilidade do que se vê, lê, ouve e até se sente. É ativar nossos reais desejos em prol de nós mesmo, esquecendo essa realidade atual de apenas permitir que a corrente nos leve. Saber quem somos, descobrir um pouco de nós em cada estrada e pensar sobre nossas vidas. E apesar de toda a dificuldade que encontramos na tomada de decisões, pelas milhares de possibilidades, que tiremos um tempo do nosso próprio tempo para que com calma analisemos opções e possamos refletir. Que caminhos sejam viagens deliciosas, mesmo com obstáculos, e que a escolha de para onde ir não seja guiada por medo e pressão, mas sim por uma vontade própria e autorrealização. E quando se quiser mudar de rota, que tenhamos a capacidade de seguir outro rumo sem construir um monstro dentro da gente. A maior liberdade encontrada nessas últimas décadas possibilita ao erro, e possibilita vivenciar vários caminhos. Nenhuma vivência é em vão e somente uma pessoa pode moldar sua realidade: você mesmo.

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Camilla Trigo

Educadora, artista e amante da vida. .
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