espaço da palmitcha

Porque a imaginação não me deixou escolhas...

Camilla Trigo

Formada em artes e exatas. Coreógrafa, professora, diretora da Angulus Companhia Contemporânea de Dança-Teatro e pensadora.

Sobre se amar

"O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. Só o que está morto não muda!", já diria nossa eterna Clarice. Mas, é a mudança que fazemos em nós mesmos que nos edifica. A mudança que fazemos sendo outra pessoa é a que nos destrói.


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Às vezes, me questiono porque é tão difícil se gostar. Na verdade, acho que nem é falta de gostar ou falta de amor, mas acho que, por vezes, ficamos muito distantes e decepcionados com nós mesmos. Nos afastamos de quem realmente somos pra nos transformar em máquinas, pra mentir um pouquinho pra gente que em breve vamos mudar, que aquele momento (ou esse) não passa de um momento que precisamos passar pra tudo dar certo, e então vamos seguindo por entre ruelas e becos do nosso íntimo. Então vamos cavando mais e mais um imenso labirinto cada vez mais para sermos quem não somos.

Somos impostos pela TV, somos impostos desde cedo na escola como devemos sentar e pensar, somos impostos pelos nossos pais, pelos nosso tios, pela família inteira. Somos diagnosticados errados, então mudamos. Precisamos de emprego, então mudamos. Queremos entrar na roupa da vitrine, então mudamos. Esquecemos de moldar quem realmente somos, então vendemos nossa imagem enquanto juntos vendemos nossa alma. Somos enganados quase que 24 horas. Placas são trocadas pra nos enganar, motivos são estabelecidos pra nos convencer, somos regados com o sistema e fadados a morremos sendo outra pessoa. "O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. Só o que está morto não muda !", já diria nossa eterna Clarice. Mas a mudança que fazemos em nós mesmos que nos edifica. A mudança que fazemos sendo outra pessoa que nos destrói.

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Me pego pensando muito no meu futuro. Se estou no caminho certo, se escolhi fazer o que realmente amo e viver da forma que eu realmente viveria, e muitas vezes a resposta é "não". Parece que pensar e planejar o futuro não passa de uma armadilha pra deixar a gente confuso, diante de tantas possibilidades. Mas pensar também nos faz mudar, e mudar da maneira que deve ser. Se um dia eu gosto de cantar e depois de um ano eu resolvo me dedicar mais ao desenho isso não quer dizer que eu não saiba quem eu sou, mas que eu sei tanto quem sou que consegui mudar as rotas. Mudar rotas é muito importante porque faz com que consigamos alcançar as direções corretas da nossa vida. Uma vez, um grande mestre me disse que saber o que não gosta já é o suficiente pra começar a tomar decisões. E de fato! Se conhecer sempre será o grande começo pra longas e verdadeira caminhadas na vida. A gente se reinventa e se cria a cada momento e é importante que isso tudo aconteça de modo verdadeiro. Mas o que isso tem a ver com se gostar? Bom, não tem como começar a se gostar se você não sabe quem é. Talvez até saiba, mas é importante a ação. Aonde se quer chegar? O que pode ser feito AGORA? Deixamos muitas coisas pra amanhã e vamos robotizando toda a coisa, vamos seguindo aonde não queremos e tudo se põe a perder.

Se gostar deve ser difícil por isso. Por tantas pedras que encontramos no caminho até entendermos quem somos. O preconceito, os limites, o tempo. Mas cada uma delas deve ser um combustível, um estímulo (por mais difícil que seja) pra alcançar nós mesmos. Se eu pudesse dar uma dica, mesmo sendo essa pessoa que tenta fazer as pazes consigo mesma, a dica seria: dedique 24h do seu tempo pra sempre ser você. Buscar sua raiz, sua identidade, ter orgulho do seu berço, dos lugares que passou, do que gosta e das suas escolhas.

Que as pedras no caminho sejam sempre dicas de bons caminhos e não empecilhos pra se amar.

{Esse foi um texto escrito mais em forma de desabafo, mas talvez ajude alguém.}


Camilla Trigo

Formada em artes e exatas. Coreógrafa, professora, diretora da Angulus Companhia Contemporânea de Dança-Teatro e pensadora. .
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