espaço da palmitcha

Porque a imaginação não me deixou escolhas...

Camilla Trigo

Educadora, artista e amante da vida.

Sobre pensar fora da caixa dentro de um sistema e como a arte viabiliza novos rumos

Um dia desses eu estava dando uma das minhas aulas do Curso O Corpo em Cena, um trabalho de expressão corporal que desenvolvo e pesquiso incansavelmente, quando uma de minhas alunas, professora universitária, mencionou” Gosto da forma que você trabalha. Esse mundo nos coloca sempre para pensar dentro da caixa, não podemos ser livres. Aqui, pelo menos, quero ser livre". Já havia pensado sobre isso diversas vezes, mas fiquei repensando durante o dia.


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Dia após dia estamos apenas condicionados a fazer coisas. Não importa muito bem o que sejam essas coisas, contando que elas nos deem algum prazer imediato... e dinheiro. Construímos nossas relações em padrões, não importando muito bem quem é a pessoa e toda sua história. No geral, não pensamos nisso e parece muito maldoso da minha parte falar isso. Mas, por incrível que pareça, a maioria das relações são traçadas pelos seus benefícios, seja a relação sexual no final, seja pela sua funcionalidade como terapia, seja como passatempo. Claramente, ninguém constrói uma relação que não traga algo de bom, o problema é que estamos construindo tudo isso de uma maneira bem superficial, na imediatidade daquilo, bem como com uma visão unilateral e egoísta da situação. Não que isso não ocorresse antes desse tempo pós-contemporâneo (se me permitem assim chamar), mas a frequência com que isso vem acontecendo é muito maior. O sistema nos faz configurar as coisas para esse eixo, e por mais que estejamos cansados de ouvir isso, pouco fazemos para sair dessa zona de conforto, afinal, sair de onde se está, além de delicado, sempre nos parece desastroso demais.

Pensar dentro da caixa é exatamente isso. Continuar como estamos, da forma que estamos, apenas nos adaptando. Uma sociedade camaleão, aonde o diferente é caçado e de duas, uma: ou ele altera ou ele é jogado pra fora do sistema (e aí cabem diversas interpretações). Por mais que os jovens do século XXI estejam movimentando o mundo com o alerta “Saiam da sua Zona de Conforto e reconfigurem o mundo de forma justa”, a maioria é maioria e a coisa ainda caminha a favor do gradiente de concentração.

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Um dia desses eu estava dando uma das minhas aulas do Curso O Corpo em Cena, um trabalho de expressão corporal que desenvolvo e pesquiso incansavelmente, quando uma de minhas alunas, professora universitária, mencionou” Gosto da forma que você trabalha. Esse mundo nos coloca sempre para pensar dentro da caixa, não podemos ser livres. Aqui, pelo menos, quero ser livre". Já havia pensado sobre isso diversas vezes, mas fiquei repensando durante o dia.

Lido com arte, desde muito nova. Trabalho com arte. Sou artista. Quando afirmo isso, afirmo também que acredito na liberdade e no indivíduo como único. Cada um tem seu tempo, por mais que o mundo dite os horários e as situações. Cada um tem sua capacidade de assimilação das situações, por mais que o tempo não pare pra que colemos nossos pedaços ( e isso só me lembra O Menestrel, de Shakespeare). Porém, quando a sociedade nos emprega tudo encaixado, em lotes, não se pode muito bem ser o que quiser, aliás pode, mas sofra as diversas consequências.

Mesmo a “arte” nos impõe algumas caixas. Não falo sobre disciplina, não falo sobre regras ou metodologias em si, acredito na organização das coisas e sou até bem chata com questões de disciplina, mas não acredito na estrutura ditatorial, em remar a favor da maré mesmo não concordando com ela por mero favorecimento momentâneo, por mera compra, não acredito em arte como fonte de status, assim como não acredito em relações como forma de status. Aliás, como se interligar por mero narcisismo, por mera venda de imagem? E arte sem troca não é arte. Isso eu falo sempre. E quando falo de trocas, algumas pessoas ainda vão pensar em dinheiro, moeda. Claramente todo artista precisa comer e ter uma vida saudável, o que inclui a parte financeira. Porém, falo de trocas não palpáveis.

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O que as obras de artes, desde as artes visuais até a música, podem proporcionar de realização, de autorreflexão, autoconhecimento, pesquisa para as pessoas que são tocadas por essas linguagens artísticas. É exatamente essa ponte, essa passagem, que possibilita sair da caixa. A pesquisa de você mesmo, o entendimento pela apreciação, ou incômodo, por tal obra de arte. Tudo isso influi para a formação de opinião, para o indivíduo ir além do que conhecia sobre si mesmo e achava que era capaz. A arte, tanto para quem faz, vive ou experimenta dela, deve ser sempre uma fonte inesgotável de possibilidades, logo de liberdade. E assim, uma diluidora de caixas.

Só a arte salva.


Camilla Trigo

Educadora, artista e amante da vida. .
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