espantalho lírico

serviçal do inutilitarismo e do inecessário

ronaldo coelho teixeira

...porque o sabre sabe
que sangrar
é a parte que me cabe...


Escritor e jornalista, mas acredita que o jornalismo tem sido a moeda de troca mais barata depois da poesia.

  • Hilda Hidra Hilst

    Estou em Campinas, interior de São Paulo. Chego à Casa do Sol, fazenda na qual Hilda Hilst viveu durante quase toda a sua vida. Em uma reclusão monástica, cercada de bichos – cachorros, de 70 prá lá – e árvores. Preciso lhe fazer uma pergunta. Mas a sua formulação é tão difícil que, me vejo ela, tentando entender, aqui, antes, durante e sempre, por que não era lida em vida. Estou há cerca de 30 passos dela. Um insight me desmonta e paro: Hilda não escreveu para o mundo, para a crítica. Não queria ser lida por ninguém. Decidido, disparo: – Hilda, vim aqui para te fazer uma pergunta, mas esta chegou há pouco pra mim. Escrevestes para um único e impossível leitor: teu pai. Ela me encara com olhos de alívio, baixa a cabeça sobre as mãos na mesa e desaba em choro. Levanto e saio. Não sem antes ver ali apenas a menina que queria mostrar pro seu pai que também era uma poeta.

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    Flores na Lixeira

    É sábado. Onze e pouco da manhã do dia 17 de dezembro do ano dois mil e dezesseis do nascimento da culpa católica. Saio da 405 Norte, em Palmas, Tocantins, uma Brasília gestada nos anos 2000 mas com cara de 77, devido a tantos vícios e velhacarias, urbanas e culturais. Entro na quadra do hermano quando os primeiros pingos desabam e, numa esquina, avisto uma lixeira comum. Mas, dentro dela, algo me chama a atenção. Dou seta, encosto, desligo o carro. Saco a câmera fotográfica digital, desço e, com ela em punho, disparo vários clicks no alvo: um buquê de rosas já um pouco envelhecido ornava aquele utensílio tão doméstico. Catador de coisas ao rés do chão, não me passa outra coisa na cabeça: as indagas de como e porque aquele ramalhete foi parar ali, naquele lugar último da dita civilidade cosmopolita. Sociedade esta que se esquece, geralmente, de outra camada social que sobrevive daquilo e, em contrapartida, nos devolve a vida.

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    Quando um poste deitado mata (ou a corrupção, esse monstro sem rosto que nós criamos)

    O fato é surreal, coisa que se esperaria apenas de um escritor, um mentiroso e louco escritor. Um homem morre dentro de um poste deitado num canteiro central. O caso aconteceu no Jardim Europa, na Capital goiana. O corpo, em avançado estado de decomposição, só foi encontrado no dia 20 de novembro porque os moradores e comerciantes locais denunciaram o mau cheiro que grassava na região. À parte algumas risadas – depois de sentimentos de estranheza e perplexidade – você leitor, poderá tirar a sua conclusão. E, por fim, eis aqui um escritor e jornalista, antes de tudo um cidadão brasiliano, de origem nordestina, que se queda diante de mais essa tragédia.

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    Silêncio Dylanesco

    Não se surpreenda se no dia 10 de dezembro próximo o cantor e compositor norte americano, Bob Dylan, não comparecer ao jantar de gala da Academia do Prêmio Nobel em Estocolmo, na Suécia. Anunciado como o ganhador do Nobel de Literatura de 2016 no último dia 13 de outubro, Dylan, apesar do barulho mundial contrário – principalmente nas redes sociais – ainda não se manifestou. Reforçando a sua persona como no documentário “ I'm Not There”, de 2008. Quanto a comparecer ao evento, penso que a sua atitude vai ver a mesma de sempre, ou seja, completa ausência. Corroborando a velha e sistêmica sina do “não estou lá”. Porque, afinal, por tudo o que já fez musicalmente, com ou sem Nobel, Bob Dylan estará sempre em todo e qualquer lugar.

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    Picolé de Maconha

    Num início de setembro com gosto de agosto esturricado, derreio meu Voyage em viagem de Palmas à Gurupi. No sentido, apeio em Taquaralto para sacar royalties num caixa eletrônico pru modi da travessia de cerca de 3 horas, gasosa e otras cositas más. Tô lá, descendo, e passa um picolezeiro gritando: "picolé de maconha! Picolé de maconha!". Surtei na hora, tentando construir aquele sabor por entre as salivas. O que o cara queria dizer com aquilo? Picolé de maconha? Era para anestesiar e o consumidor esquecer do fastio, do calor, da insolência? Ou era para o cara ficar diboas, salivando o néctar dos loucos?

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    Solidão interativa

    A primeira vez que vi esse termo foi por meio de um jeca superjóia: Juraildes da Cruz. Tocantino de Aurora, radicado em Goiânia, Goiás e um dos maiores compositores contemporâneos brasileiros. Solidão interativa foi cunhado pelo sociólogo francês Dominique Wolton. Em sua tese, o autor alerta quanto ao cuidado para com o uso da internet, principalmente das redes sociais, chamando a atenção para um detalhe vital no avanço das tecnologias de comunicação: não importam formas e meios de expressão, a comunicação humana não foi, não é e nunca será algo tão simples, sempre vai conter grandeza e dificuldade.

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    Bestágios da humanidade

    Depois de Ser e Ter, tudo indica que agora a humanidade está no seu terceiro estágio: o de Parecer. Nunca tantos pareceram ter o que não têm e ser o que não são, quanto agora, nessa supérflua e insaciável boca modorrenta do Século XXI. A esperança é a de que, parecendo ser cíclicas todas as coisas terrenas, os valores herdados pelos gregos antigos sejam novamente reconduzidos aos seus devidos lugares, ou seja, a cabeça e o coração do Homem. Porque, antes de ter e parecer, o nosso maior anseio é o de se reconhecer.

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    Um Trovador entre o Som e o Sonho (ou, o dia em que Belchior voltou a ser Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes)

    O bardo tupiniquim deu pistas do que faria antes que a velhice completa lhe arrudiasse. É só assuntar bem nas suas letras ao longo de cinco décadas de uma carreira musical não celebrizada a se olhar pelo filtro do infecto tubo – seria agora acachapante byte? – mas, incontestavelmente exitosa em se tratando de um pensador nordestino que insistiu em melodiar seus críticos e agudos pensamentos. Porque transformar Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes em Belchior de um dia para o outro não é para qualquer um. Mas, sim, Belchior, ao longo da sua discografia deixou pistas de que um dia pediria pro mundo parar para ele descer. E ele o fez.

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    Cultura é tudo! (Ou uma pequena estória do enigma chamado Cultura)

    E, apesar de ter criado também algumas formas nocivas de fuga da realidade, e como estas às vezes o impedem de se manifestar como poderia e desejaria, ele se viu diante do enigma da Arte. Ele sabe que sua grande tarefa é decifrá-lo ou senão, por ele, será devorado. Ele agora sabe (e sente) que é possível se sentir completo através da Arte. Mas sabe também que agora pode ser considerado, definitivamente, um Homem.

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    Entre o Mcpoema e o insight só a iconoclastia pode nos salvar

    Os poetas contemporâneos escrevem com urgência o cultivo do ego e, quando muito, somente para afastar o tédio. Esquecem eles das crises públicas, ou seja, das guerras, dos colapsos econômicos e da destruição ambiental em todo o planeta. Agarram-se a uma tábua de salvação chamada de ‘voz singular’ que, no final, só faz eco entre sua caixa torácica e o seu abdômem. Pensam eles que apenas um insight, um trocadilho ligeiro, ou uma rima rasteira salvam o poema.

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    Permanências e provisoriedades

    Eis a dicotomia cruciante que se apresenta para o homem contemporâneo: a partir da segunda metade do século passado, ele acabou trocando o impermanente pelo novo, assim como o permanente pelo velho. Como consolo, eis-nos diante da telinha bigbrotherana, vendo passar esses objetos de desejo chamados de permanências, mas ainda loucos pelos quinze minutos de fama preditos por Warhol. Mas esta, longe de nos revelar (principalmente para nós mesmos), faz com que cada vez mais percamos o sentido do permanente, de tão provisórios que nós mesmos nos tornamos.

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    Cultura pra cuspir na estrutura

    O título é do maior roqueiro brasiliano que já existiu: Raul Seixas. Roubei-o do Maluco Beleza porque a hora grita, principalmente aqui no Tocantins. E vem avassaladora sob o anúncio da extinção da Secretaria de Estado da Cultura. Beradeiros, em ambas as margens do agonizante, mas ainda belo e majestoso Rio Tocantins, mofinamos onomatopeizados, num quadro social surreal para quem diz se encontrar em pleno Século XXI: miséria, fome, sede, doenças, insegurança, e falta de perspectivas. Eis-nos encalacrados na boca mutilada e faminta do agora e sem mais qualquer senso de percepção do absurdo.

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    A felicidade e seus possíveis caminhos

    A felicidade é sempre o prato do dia nessa histérica e paranóica era dos surtantes 15 minutos de fama. Além de alvo de pesquisas há mais de 30 anos em boa parte do planeta, ela invade o cotidiano das pessoas, seja nos jornais, revistas, TVs e na internet, que não cansam de explorar este filão. Por isso, este que ora vos escreve – também perseguidor da insana há mais de 30 anos – tenta colocar em poucas linhas os seus possíveis caminhos.

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    Os protomutantes estão no corredor...

    A ocupação das escolas paulistas é uma tapa na cara da minha geração e das anteriores. E mesmo que esse movimento dos secundaristas paulistas tenha sido iniciado sob rumores de que militantes esquerdistas tenham sido contratados para incitá-lo, não podemos negar que uma revolução cultural está acontecendo.

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    O Grande Bocejo

    O título meio grogue é para, paradoxalmente, tentar provocar o nosso despertar. Estamos, todos, há muito sonolentos, nessa modorrice bocejante chamada de Século XXI. Sua autoria não é minha, é do mestre Octávio Paz. O mesmo foi aqui aplicado para falar de um livro do escritor peruano Mario Vargas Llosa, "A Civilização do Espetáculo", subintitulado de "Uma Radiografia do Nosso Tempo e da Nossa Cultura". O autor, atento e arguto observador do seu tempo e dos seus, traça um panorama (nada animador, diga-se de passagem) acerca do empobrecimento intelectual do nosso tempo, da banalização das artes, do triunfo do jornalismo sensacionalista e a frivolidade da política. Tripé que, segundo Llosa, afeta e provoca a derrocada da sociedade contemporânea. Bem vindos à bufonaria...