espantalho lírico

serviçal do inutilitarismo e do inecessário

ronaldo coelho teixeira

...porque o sabre sabe
que sangrar
é a parte que me cabe...


Escritor e jornalista, mas acredita que o jornalismo tem sido a moeda de troca mais barata depois da poesia.

Pagando Pau

Alienação da realidade social, baixo nível educacional e pura massa de manobra, pão e circo. Talvez assim poderia ser explicada a ascensão da dita música denominada sertanejo universitário no Brasil. Leia e tire as suas conclusões. Pra não ficar pagando pau.


ilustra ronaldo.jpg Sempre fui ligado à música. Por ter uma origem nordestina, e tendo sido criado no então norte de Goiás, hoje Tocantins, as possibilidades de se ouvir (conhecer) uma boa música naquele tempo eram remotas. Mas fui crescendo e descobrindo (curioso que sou) as incríveis melodias que este imenso e rico país oferece. E, naturalmente, comecei ouvindo as sertanejas, Roberto Carlos, entre outros da dita música brega. E, Claro, os hits internacionais, influências da TV e das rádios. Depois, fui achando outros valores, tais como: o pop rock nacional (Engenheiros do Hawaii, Legião Urbana, etc.), a MPB de Chico Buarque, Caetano Veloso, Luis Melodia, entre tantos.

Atualmente, a onda é o sertanejo universitário. Mas essa nova mania nada mais é do que a dita música brega dos anos 70 do século passado, repaginada, mas pra pior. Porque além de não conter nenhuma mensagem social, a poesia (pobre, mas poesia) piegas praticada naquele tempo continua, mas cada vez mais sem ao menos o lúdico, item vital para que possamos suportar as agruras desse dito mundo civilizado e fator necessário para o equilíbrio mental de cada um. Porque manchar o belo e bravo nome de sertanejo com um subgênero da música inicialmente de raiz é, no mínimo, pobreza social e intelectual. Mas vamos ao início de tudo para tentarmos entender porque hoje se ouve o dito sertanejo universitário.

A música caipira ou sertaneja surgiu por volta da década de vinte do último século, praticada por compositores rurais e urbanos, com predominância dos primeiros, quando o som da viola era o principal, e os gêneros musicais praticados variavam entre modas, toadas, cateretês, chulas, emboladas e batuques. O folclorista Cornélio Pires, em seu livro “Conversas ao Pé do Fogo”, assim descreveu a música caipira da época: “Sua música se caracteriza por suas letras românticas, por um canto triste que comove e lembra a senzala e a tapera, mas sua dança é alegre”. Assim, a primeira era da música sertaneja iniciou-se por volta de 1929, a partir das primeiras gravações comerciais, tendo como principais ícones as duplas Alvarenga e Ranchinho, Torres e Florêncio, Tonico e Tinoco, e Vieira e Vieirinha. Até então, o gênero era conhecido como música caipira porque retratava em suas letras a vida do homem do interior.

A era seguinte começou após a Segunda Guerra Mundial, com a incorporação de novos estilos: os duetos com intervalos variados e o mariachi; de gêneros: a guarânia, a polca paraguaia, e o corrido e a ranchera mexicanos; e de instrumentos: o acordeon e a harpa. Os destaques desta época foram Cascatinha e Inhana, Irmãs Galvão, Irmãs Castro, Sulino e Marrueiro, Palmeira e Biá, o trio Luizinho, Limeira e Zezinha, e o cantor José Fortuna.

A introdução da guitarra elétrica pela dupla Léo Canhoto e Robertinho no final da década de 60 foi o grande divisor da terceira era na música sertaneja. Sérgio Reis, lançado pela Jovem Guarda, em setenta, também adere ao movimento sertanejo. Nesse período, o gênero começa a ser divulgado nos circos, rodeios, nas rádios AM e, a partir da década de 80, nas FM e também na televisão, chegando até a compor as trilhas sonoras das telenovelas. Desta era, destacam-se: Trio Parada Dura, Milionário & José Rico, Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano, Chrystian & Ralf, João Paulo & Daniel, Chico Rey & Paraná, e João Mineiro & Marciano.

A quarta era é o proclamado sertanejo universitário ou new sertanejo, cujas características são um som mais eletrônico, um ritmo mais acelerado e os temas abordados são festas e mulheres, algumas com letras ditas engraçadas. Foi assim denominada no final da década de 90 porque seus maiores apreciadores são universitários. E alguns representantes desta são: João Bosco & Vinícius, César Menotti e Fabiano, Jorge & Mateus, Victor e Léo, Fernando & Sorocaba, e João Neto e Frederico.

E pensar que nas décadas de 60 e 70 os estudantes universitários ouviam e pautavam suas condutas sociais e políticas nas grandes canções dos festivais de MPB. Hoje, quando o sertanejo universitário responde por sete em cada dez músicas pedidas nas rádios, deduz-se que o nível educacional brasileiro caiu vertiginosamente. E o que pensar então da qualidade dos profissionais que anualmente vão para o mercado? Eis o saldo: alienação da realidade social e pura massa de manobra, pão e circo. E para ficar num (pobre) trocadilho de uma dupla representante da dita classe universitária, atualmente estamos todos, literalmente, “pagando pau”.


ronaldo coelho teixeira

...porque o sabre sabe que sangrar é a parte que me cabe... Escritor e jornalista, mas acredita que o jornalismo tem sido a moeda de troca mais barata depois da poesia..
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