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ronaldo coelho teixeira

...porque o sabre sabe
que sangrar
é a parte que me cabe...


Escritor e jornalista, mas acredita que o jornalismo tem sido a moeda de troca mais barata depois da poesia.

Jabuti em Tocantins?

"Queria colocar o Tocantins no mapa cultural do Brasil". Jádson Barros Neves, escritor tocantinense de Guaraí, cidade situada a 173km ao norte da Capital, Palmas, teve seu livro de contos Consternação, indicado para o Prêmio Jabuti 2014. Confira a sua história e leia entrevista exclusiva com o escritor.


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Larissa Vittorino

Um feito inédito e histórico para a cena literária tocantinense. O escritor Jádson Barros Neves(foto), 49 anos, de Guaraí, distante 173 km da Capital, teve o seu livro de contos Consternação como um dos indicados na categoria Contos e Crônicas do mais importante prêmio literário brasileiro, o 56º Prêmio Jabuti2014, realizado anualmente pela Câmara Brasileira do Livro (CBL). A divulgação dos indicados em todas as 27 categorias aconteceu no dia 23 de setembro, e o resultado final dos premiados será conhecido somente na cerimônia de entrega aos vencedores, a ser realizada no dia 18 de novembro deste ano, no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo, Capital. O escritor tocantinense está na disputa concorrendo com nomes de peso da literatura nacional, como Milton Hatoum, Rubem Fonseca e Antonio Prata.

Ele é natural de Miranorte onde viveu apenas seis meses. Passou parte da infância, cerca de sete anos no Maranhão, terra de seus antepassados por parte de mãe. Em 1972, a família mudou-se para Guaraí, então norte goiano. Por volta dos 15 anos de idade, foi estudar o antigo segundo grau em Goiânia (GO). Cursou um período de Letras na antiga Universidade Católica de Goiás (UCG), hoje Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-Goiás). Depois, foi parar em São Luís (MA), onde cursou Jornalismo. Voltou para Guaraí e depois viveu alguns anos em Palmas, onde tentou terminar o curso de Letras na Ulbra. Não terminou e foi parar na Capital cearense, Fortaleza, onde novamente tentou finalizar Letras, mas nunca conseguiu concluir.

Foi vendedor de secos e molhados e trabalhou como revisor em jornal de Cuiabá (MT). Voltou para Guaraí, onde reside. “Estou em Guaraí, onde moro ou me escondo, com esse calor, mais escondido, a la Bartleby, revisando um livro, resultado de uma Bolsa de Criação Literária/2012, da Fundação Biblioteca Nacional e Funarte. Entreguei o produto final, o livro, no começo do ano, agora, no falar que usamos, estou tirando ciscos”, disse.

O escritor revela que o caminho da literatura é árduo e difícil. Em 1994, seu conto Exilados não ganhou sequer menção honrosa num concurso do Estado. No mesmo ano, ele inscreveu o mesmo conto noConcurso Internacional de Contos Guimarães Rosa, promovido pela Radio France Internationale, de Paris, França, e concorrendo com 884 escritores de vários países em língua portuguesa, ganhou uma das menções honrosas do certame.

“Morando em Fortaleza, onde ganhei alguns concursos, sempre coloquei o endereço de Guaraí na tentativa de inserir o Estado no mapa cultural do País, o que teve um efeito ruim sobre a minha carreira. Duas editoras importantes se recusaram a publicar meu livro, colocando em evidência o fato de eu estar no Norte, no interior do Norte. Quer dizer, eu dei um tiro no pé”, disse ele.

No ano seguinte, o seu conto Entre eles, os corrupiões, inscrito num concurso estadual do Tocantins, recebeu apenas menção honrosa. Em 2000, morando em Goiânia (GO), com o mesmo conto, obteve o segundo lugar do Prêmio Internacional de Contos Guimarães Rosa, recebendo o prêmio Máison de I’Amérique Latine. Mais de 1400 escritores do mundo inteiro estavam na concorrência. “Mas coloquei o endereço de Guaraí, na tentativa de incluir o Estado no mapa cultural do País”, revelou.

Um fato interessante narrado por outro escritor, Francisco Perna Filho, de Palmas, é que há muitos anos, Jádson participou de um concurso de contos em Araguaína, cidade localizada a 388km da Capital, quando o responsável pela comissão julgadora fez uma série de apontamentos infundados sobre o texto. Chateado, Jádson não se contentou, inscreveu e enviou o mesmo conto para Paris, na França, no Prêmio João Guimarães Rosa, promovido pela Radio France Internationale, e faturou o prêmio.

Para o escritor Altair Martins, professor, bacharel em letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – ênfase em tradução de língua francesa –, mestre e doutor em Literatura Brasileira na mesma universidade, que assina a orelha do livro, os contos de Jádson Barros Neves têm a justeza e a precisão em que se entrevê um Falkner ou um Rulfo. “Os contos aqui presentes venceram o percurso da decantação: foram trabalhados e retrabalhados, deixados ao amadurecimento que só o tempo sabe lecionar”, destacou Martins.

O livro havia sido resenhado em julho último pelo mais importante suplemento literário do País, o jornal literário Rascunho. Confira o que foi dito sobre o livro no endereço http://rascunho.gazetadopovo.com.br/breves_171/

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Diante de um feito inédito no Estado caçula do Brasil, fui ouvir outros escritores acerca desse importante e histórico acontecimento. “É uma notícia animadora saber que um escritor tocantinense foi indicado ao Prêmio Jabuti, de grande expressão literária nacional. Nosso Estado tem um relevante potencial literário, apesar de não haver um significante incentivo, e Jádson Barros Neves com sua obra Consternação, rompe essa barreira. A Academia Tocantinense de Letras (ATL) parabeniza o escritor pelo seu feito,” afirmou Mary Sônia Matos Valadares, presidente da Academia Tocantinense de Letras.

“Estamos diante de um dos maiores contistas deste País. Dono de uma verve literária que encanta, Jádson já conquistou mais de uma dezena de prêmios, dentre eles, o Prêmio Cidade de Belo Horizonte, o Prêmio João Guimarães Rosa, da Radio France Internationale”, disse o poeta e mestre e doutorando em Estudos Literários, Francisco Perna Filho.

“Não temos política pública clara e permanente de apoio à literatura no Tocantins. Quando o ocorre, mais parece favor que merecimento ou incentivo ao desenvolvimento cultural. A indicação do livro de contos Consternação de Jádson Barros Neves, de Guaraí, a finalista em 2014 do Prêmio Nacional Jabuti demonstra que a literatura do Tocantins é competitiva. Nossa literatura poderá se desenvolver mais e mais rápido com fomento dos órgãos públicos competentes,” falou JJLeandro, jornalista e escritor araguainense.

“O livro de contos Consternação é uma obra de precocidade clássica, com destino de permanência, pela forma e pela mensagem - um profundo e cuidadoso mergulho em temas da condição humana. Literatura elaborada com o rigor e a elegância de quem persegue, obstinadamente, o sentido primeiro e último de cada palavra, de cada imagem,” Paulo Aires Marinho,poeta e escritor.

O escritor Jádson Barros Neves concedeu-me uma entrevista exclusiva, onde fala sobre a indicação como finalista do Prêmio Jabuti e os projetos que tem em andamento. Leia a seguir:

Qual a importância dessa indicação na sua carreira literária?

É uma indicação, não há como avaliar. Mesmo com a possibilidade de estar entre os três premiados, não saberia dizê-lo. Vendo a lista da categoria em que participo, é como se fosse convidado a almoçar com autores dos quais gosto muito, e isso é ótimo.

Você esperava essa indicação?

O Chico Lopes, que é um escritor de primeira linha, foi quem me deu a notícia em meu mural noFacebook.

Como você avalia a cena literária nacional?

Com muitos bons autores e teria de subjetivizar. O que não farei.

E a tocantinense?

Não mudou muito em 20 anos. A história é longa.

Quais as maiores dificuldades que um escritor iniciante ou sem visibilidade no eixo Rio-São Paulo enfrenta?

Uma coisa que papai me dizia: “Se quer morrer afogado, procure nadar no oceano.” Aqui, se perdem nadadeiras.

Quando descobriu que queria ser escritor?

Não há como responder, pois eu era desenhista.

Quais escritores você admira e que te influenciam/ confluênciam?

No momento, Franz Kafka , J. M. Coetzee e Imre Kertész, este último mais do que os outros dois.

Que dicas você daria para um escritor iniciante?

Ler muito e ter a humildade de entender que o cesto de lixo é um ótimo local para deixar as vaidades.

Quais livros indicaria para um escritor iniciante ou para um bom leitor?

Nenhum. Pela prudência de Ana Maria Matute, talvez isto, em minha tradução: “Não tenho o costume de recomendar nada a ninguém, porque se a gente recomenda, a pessoa faz o contrário. Porém, me atrevo a sugerir que leiam contos no verão e no outono, na primavera e no inverno.” Vale lembrar que Jorge Luís Borges não receitava livros a seus alunos. O cânone é individual, mesmo entre escritores com afinidades.

Quais são seus próximos projetos literários?

Outro livro de contos e um romance. O de contos, com título provisório de O Homem sem Nome, foi vencedor da Bolsa de Criação Literária da Fundação Biblioteca Nacional e Funarte, ganho em 2012.

Na sua opinião, o Estado tem a obrigação de ter políticas públicas de incentivo à leitura, ao livro e ao escritor?

Quem quer ler ou escrever não se atém a isso ou a outros envoltórios. Porém, desde que bem intencionados, costumam dar bons resultados. Um bom exemplo é o que acontece no Rio Grande do Sul.

Quais escritores tocantinos você admira e acha que tem ‘bala na agulha’ para acontecer?

Depende do tiro que queiram dar.

Uma mensagem final:

Algo antigo: “Mais árvores e menos concreto nas cidades.”


ronaldo coelho teixeira

...porque o sabre sabe que sangrar é a parte que me cabe... Escritor e jornalista, mas acredita que o jornalismo tem sido a moeda de troca mais barata depois da poesia..
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