espantalho lírico

serviçal do inutilitarismo e do inecessário

ronaldo coelho teixeira

...porque o sabre sabe
que sangrar
é a parte que me cabe...


Escritor e jornalista, mas acredita que o jornalismo tem sido a moeda de troca mais barata depois da poesia.

Mais do Mesmo Barroco

Você, eu, a gente queria falar de outra coisa. Você sabe, eu sei. Mas terminamos falando sempre mais do mesmo. Queríamos falar da beleza sem medida desse País continental, da sua riqueza, sua rica e multicolorida flora tupiniquim, sua exuberante e polimorfa fauna, dessa única e belíssima cornucópia sonora da musica brasileira. Queríamos falar de sonhos, de promessas, de possibilidades, de tudo o que poderia vir-a-ser. Mas terminamos enredados nesse labirinto da fera: o minotauro do agora, carcomido e fugaz, porque não teve o seu alimento no passado e sua fome agora é de séculos.


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Você, eu, a gente queria falar de outra coisa. Você sabe, eu sei. Mas terminamos falando sempre mais do mesmo.

Queríamos falar da beleza sem medida desse País continental. Mas a feiúra das nossas cidades, das nossas praças e parques, e das nossas estradas não deixam.

Falar da riqueza desse Brasil, ainda potro em relação à velha Europa. Mas as pobrezas neoanalfabetas intelectual, material e funcional do nosso povo nos queda sempre a fala e o ato.

Queríamos falar dessa rica e multicolorida flora tupiniquim. Vergada, mas ainda imponente apesar dos campos concentrados de soja a perder de vista e a turvar nossas retinas, fatigadas de tanto nada. Desertos que prenunciam tornados e furacões. Quem há de domá-los? Quem há de sobrevivê-los? Nós, os filhos da agrodependência?

Falar dessa exuberante e polimorfa fauna. Já exangue pelas matanças seriadas e brutais de nossos ditos animais. Enquanto o ‘bom selvagem’ em nós domesticou o medo e continua espalhando o terror entre os nossos pobres bichinhos restantes e até entre nosotros, ditos humanos, quiçá entre os sobreviventes guerreiros indígenas.

Dessa única e belíssima cornucópia sonora da musica brasileira. Que até espanto e ameaça representou para os norte-americanos. Mas o lixo alienado e alienante dos hits da hora – forjados a cada tlim-tlim – nos ensurdecem a alma e achatam o nosso senso de ridículo. Argumentar sobre e escutar a si, quem há de? Quando o reino da onomatopéia grassa.

Das belezas naturais dos lugares parasidíacos Brasil adentro, que nunca preenchem a iris da maioria da população. E simplesmente porque essa geralmente não tem sequer os dois metros de latifúndio que lhes cabe na hora derradeira. Quem sabe a sua interior e necessária transfiguração do eu, necessitada de lonjuras e livramentos, refletidas nas palavras seculares de Pessoa que já nos dizia: “a nossa única riqueza é ver”.

Desse rico e variado continente de terra e de águas doces e salgadas, de clima tropical equatorial semi-árido predominante, mas cujo povo em grande parte já está acima do peso normal. Empaturrado que está de fast food e hormônios do capital ensandecido do globalizante e agressivo agronegócio. (Desconfio que foi o Tio Sam que nos empurrou o biotônico Fontoura, aquele remédio do peixe, para que gerações não gostassem de carne branca, porque esta, bíblica e dadivosa, não gera o agrocapital).

Queríamos falar de sonhos, de promessas, de possibilidades, de tudo o que poderia vir-a-ser. Mas terminamos enredados nesse labirinto da fera: o minotauro do agora, carcomido e fugaz, porque não teve o seu alimento no passado e sua fome agora é de séculos.

Porque aqui, no final das contas, tudo continua novo e velho, belo e feio, moderno e atrasado. Um mais do mesmo com gosto de século dezenove e, sim, ainda totalmente barroco. E o que nos resta é abafar esse lancinante grito que trazemos na alma e tentar controlar esse choro amiúde, convulsivo e rouco.

Afinal, onde o belo e o feio se excedem, o expectador, partido em excessos, não tem como possuir nenhum senso de pertencimento. Eis-nos: brasilianos desterrados, desde ontem, desde sempre.


ronaldo coelho teixeira

...porque o sabre sabe que sangrar é a parte que me cabe... Escritor e jornalista, mas acredita que o jornalismo tem sido a moeda de troca mais barata depois da poesia..
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