espantalho lírico

serviçal do inutilitarismo e do inecessário

ronaldo coelho teixeira

...porque o sabre sabe
que sangrar
é a parte que me cabe...


Escritor e jornalista, mas acredita que o jornalismo tem sido a moeda de troca mais barata depois da poesia.

Sem Título

A maçã newtoniana espatifou-se na minha cabeça ao participar de mais uma, dentre tantas, abertura de uma coletiva de artes plásticas. E eu, mutatis matutandis - como diria o saudoso e sábio Mussum - me vi diante de cerca de 15 peças entre telas e esculturas e, na maioria delas, tava lá na etiqueta: Título: Sem Título. Então, de repente me vi em el infinito mundo de la especulación: o que leva um(a) artista a não batizar suas obras? O questionamento foi um só, mas as possibilidades de explicações pluralizaram na minha cabeça, ao contrário do aparente branco singular reinante nas cucas de nossos artistas do visu, incluindo os da fotografia.


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Esta é uma crônica e tem título. Sim, é esse mesmo o seu título. Pera! Não tenha um troço, quiçá uma agoniazinha sobre essa proposital brincadeira ironizante. É que o título Sem Título é para nomear o assunto que tratarei adelante: a falta de títulos em grande parte das obras das artes visuais atuais. Pare e repare: a maioria das peças que compõe a abertura de uma exposição dessa categoria artística não tem título. Ou sim, tem esse: Sem Título.

Não, não usei e nem vou usar aquele termo francês porque acho que é coisa de primo pobre, eterno complexo de inferioridade que nos apequena ainda hoje. É abertura mesmo ou, no máximo, inauguração. Ademais, penso viver no Brasil Real e não no Oficial. Se não concorda comigo, comprove por meio de um dicionário a definição da não dita palavra francesa: a véspera de uma exposição, quando os pintores dão a seus quadros a última demão de verniz; inauguração de uma exposição de obras de arte. Viu?

Se bem que eu poderia ter iniciado esta com um trecho da música "Bienal", de Zeca Baleiro que, inteligentemente debochou dessa categoria, como podemos comprovar no seguinte trecho: "Desmaterializando a obra de arte do fim do milênio / faço um quadro com moléculas de hidrogênio / fios de pentelho de um velho armênio / cuspe de mosca, pão dormido, asa de barata torta..."

A maçã newtoniana espatifou-se na minha cabeça ao participar de mais uma, dentre tantas, abertura de uma coletiva de artes plásticas. E eu, mutatis matutandis - como diria o saudoso e sábio Mussum - me vi diante de cerca de 15 peças entre telas e esculturas e, na maioria delas, tava lá na etiqueta: Título: Sem Título.

Então, de repente me vi em el infinito mundo de la especulación: o que leva um(a) artista a não batizar suas obras? O questionamento foi um só, mas as possibilidades de explicações pluralizaram na minha cabeça, ao contrário do aparente branco singular reinante nas cucas de nossos artistas do visu, incluindo os da fotografia.

A primeira: seria a falta de inspiração do autor(a) quando do momento em que produz a peça? Mas do instante em que esta é concluída até a sua inclusão em uma exposição leva dias, meses e em alguns casos, até anos. A segunda: seria por intenção deliberada em copiar artistas "famosos" contemporâneos, um jeito chique de posar de artista e, ainda por cima, altamente intelectual? Talvez.

A outra explicação poderia ser - e nessa eu aposto - a revelação da falta de um lastro cultural por parte dos mesmos? Ok, não vou entrar no mérito artístico dessas atuais obras visuais, até porque os conceitos de gosto, de interpretação e de crítica requerem simplesmente uma postura subjetiva. Mas que dá vontade de dizer que as obras de arte contemporâneas há muito não dizem nada, cópia da cópia da cópia dos clássicos. Resumindo-se em apenas borrões, tão distantes da classuda, imponente e perene arte produzida pelos grandes gênios dessa categoria a um, dois séculos atrás.

Porque, depois de Duchamp e Warhol, as artes plásticas nunca mais foram as mesmas em todo o mundo. O primeiro escancarou o vazio esverdeado da arte, e o segundo, nadou de barriga nas migalhas das sombras do que um dia fora chamada de arte e ganhou, não só os 15 minutos de fama que preconizou, mas a perenidade, pois continuamos falando dele.

Duchamp quis provocar uma discussão acerca dos rumos capitalistas que essa manifestação artística estava tomando. Não deu outra, já que a cena visual estava na latrina, foi entronizado o deus do urinol. Já Warhol, por meio de serigrafia e publicidade, reproduziu estampas de celebridades e de latas de sopa, virou grife. Isso mesmo, grife, mas não artista.

Assim, como cobrar desses transartistas do vão e do ermo da arte do presente títulos como: Davi, ou Pietá, ou A Criação de Adão, de um Michelangelo? Gioconda (Mona Lisa), ou A Última Ceia, ou Madona do Fuso, de um da Vinci? A Persistência da Memória, ou O Grande Masturbador, ou Girafa em Chamas, de um Dalí? Guernica, ou Absinto (Rapariga no Café), ou Velho Guitarrista Cego, de um Picasso? O Nascimento de Vênus, ou A Tentação de Cristo, ou O Inferno de Dante, de um Botticelli? Noite Estrelada, ou Os Comedores de Batata, ou Girassóis, de um Van Gogh?

E pra não dizer que não falei do meu Brasil Real: Os Retirantes, ou Colhedores de Café, ou O Sapateiro de Brodósqui, de um Portinari? Abaporu, ou Operários, ou Antropofagia, de uma Tarsila do Amaral? Mulatas e Pombas, ou Gafieira, ou Samba, de um Di Cavalcanti? E, na fotografia, Trabalhadores, ou Terra, ou Êxodo, de um Salgado?

Mas, afinal, penso que essa crise de falta de títulos nas artes visuais só pode ser a somatória desses elementos, aliados ao mercantilismo e coisificação da arte. Também em grande parte por esse vazio que a arte moderna instaurou. E, claro, pela derrocada dessa civilização já preconizada pelos sábios de plantão. Então, juntando esse vazio com a falta do que dizer, só poderia dar nisso: esse branco encarapuçado na maioria das cabeças de nossos artistas. Coisa que o escritor angolano José Eduardo Agualusa tão bem cutucou ironicamente no seu livro "O Vendedor de Passados, lançado em 2004, quando, a certa altura solta: "...O que me parecia menos real ali era a tela na parede... Não pelo tema, pois não era possível adivinhar qual fosse o tema, o que talvez seja a maior virtude da arte moderna..."

Assim, só invocando o Baleiro mesmo pra arrematar essa antititulante crônica: "...Minha mãe certa vez disse-me um dia, / vendo minha obra exposta na galeria, / meu filho, isso é mais estranho que o cu da jia / e muito mais feio que um hipopótamo insone..." Mas, descontando a imagética escabrosa do poeta, vale lembrar que mesmo os aspectos fisiológicos dos animais citados sendo estranho e feio, respectivamente, o autor (ou autores?) de ambos, este sim, é um artista verdadeiro, porque os fez de forma única e se encontra além das escolas, dos modismos, dos egos, dos chiliques e do vazio. Ao contrário dos nossos pseudos-artistas atuais.


ronaldo coelho teixeira

...porque o sabre sabe que sangrar é a parte que me cabe... Escritor e jornalista, mas acredita que o jornalismo tem sido a moeda de troca mais barata depois da poesia..
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