espantalho lírico

serviçal do inutilitarismo e do inecessário

ronaldo coelho teixeira

...porque o sabre sabe
que sangrar
é a parte que me cabe...


Escritor e jornalista, mas acredita que o jornalismo tem sido a moeda de troca mais barata depois da poesia.

A Solidão do Orelhão (Ou, nós, máquinas extraviadas do Século XXI)

Sim, no fundo, nós é que estamos mais sozinhos do que um orelhão vazio numa praça ou rua qualquer desse País. Há muito deixamos de perceber o outro, o vizinho, o amigo, o conhecido, o colega de trabalho, o próximo. Estamos umbigados nessa maquininha de fazer alienados psicóticos chamada celular, (a TV é a de fazer doidos, não esqueçamos). Centrados no eu, mas um “eu” narcísico, espelho de toda a vã necessidade de se ver e de querer ser visto, mas nunca a de enxergar o outro, nossa exata e temida medida.


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(Para José J. Veiga, Antonio Roveroni, Osmar Casagrande e Odir Rocha)

A cena era típica de catador de coisas ao rés do chão: um orelhão solitário, num início de noite outonina no sertão tocantino, na Capital do Tocantins, Palmas. A bem da verdade, esta um projeto de metrópole vertical sustentada na especulação imobiliária e que, de sustentável, não sustenta sequer os sonhos (apenas devaneios) dos chegantes dos quatro cantos do País.

Ali, na Praça dos Girassóis, onde fica o Palácio Araguaia, sede do Governo do Estado, cercado pelas secretarias, no centro geodésico do Brasil, dizem uns – mas há controvérsias – estava ele. Mas isso pouco importa, se o nosso centro, o centro de cada um, esse a gente nunca acha, feito a pedra drummondiana. Bibelô da falação de outrora, sozinho, rejeitado, cercado de indiferenças dos transeuntes.

Gente que passava apressada. Uns, nas suas diárias caminhadas (cheias de culpas?). Outros, nas suas corridas (neuróticas?) também diárias de fim de tarde e início da noite, além de passantes indiferentes que nem sequer gastavam seus olhares para aquela coisa, agora com jeito estrambótico. Seria ela a nova máquina extraviada do José J. Veiga?

Aquele velho e agora obsoleto aparelho telefônico, parado ali naquela praça, calçada de paralelepípedos, nem parecia que outrora fora a vedete da comunicação no século passado. Estava ali, taciturno e triste, descolorado pelo tempo, emborcado, cabisbaixo, como alguém vencido, um lutador derrotado que, após o décimo round, enfim, entrega os pontos.

E pensar que há pouco mais de 15 anos ele era o centro das atenções, ou melhor, das falações. Ah! Quantas vezes, debaixo de sol ou chuva, de dia ou à noite, ele foi testemunha de amores e desamores, saudades e prantos, desabafos e confissões, acusações e agressões verbais, lamentos e alegrias, esperanças e devaneios, sonhos e sons. Verdadeiro canal fonoumbilical que ligava pessoas de norte a sul e de leste a oeste desse Brasil continental.

Mas, ao ver aquele elo com o passado, coisa de museu hoje, veio-me uns pensamentelhos um tanto angustiantes e saudosistas. Então, cá com meus botões (hightechs), penso que quem anda mesmo obsoleto somos nós, enquanto projeto de sermos humanos.

E a evidência é além-bíblica, é empírica mesmo. Basta percebermos que temos dois olhos para vermos mais, dois ouvidos para ouvirmos mais e apenas uma boca para falarmos menos. A conta é simples, matemática básica do ensino fundamental e que acaba sempre em goleada: 4 a 1 do bom senso futebol clube sobre a associação atlética da maledicência. Mas, quem a tem feito?

Ele continua ali, imóvel e amovível, resignado, parecendo esperar que o usem efusivamente como antes. Não sabe das novas tecnologias da comunicação, da internet e seus parangolés que não param de nascer, das redes sociais, do mundo (virtual) que acabou indo parar dentro de um pequeno aparelhinho chamado celular. Não sabe que já estamos na era das comunicações móveis. E ele preso ali, concretado, no espaço e no tempo.

Sim, no fundo, nós é que estamos mais sozinhos do que um orelhão vazio numa praça ou rua qualquer desse País. Há muito deixamos de perceber o outro, o vizinho, o amigo, o conhecido, o colega de trabalho, o próximo. Estamos umbigados nessa maquininha de fazer alienados psicóticos, (a TV é a de fazer doidos, não esqueçamos). Centrados no eu, mas um “eu” narcísico, espelho de toda a vã necessidade de se ver e de querer ser visto, mas nunca a de enxergar o outro, nossa exata e temida medida.

Estranho e paradoxal: temos mais meios e mais facilidades de comunicação atualmente, mas estamos mais intransigentes e incomunicáveis. A necessidade de comunicação verdadeira continua e, nesse vácuo de comunicantes incomunicados, não sabemos sequer quem mandamos para o analista, se o orelhão ou nós. Nem que seja para ele dizer um “oi”. Porque, no fundo, estamos todos mudos e cercados de solidão. Nós e o orelhão.


ronaldo coelho teixeira

...porque o sabre sabe que sangrar é a parte que me cabe... Escritor e jornalista, mas acredita que o jornalismo tem sido a moeda de troca mais barata depois da poesia..
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