espantalho lírico

serviçal do inutilitarismo e do inecessário

ronaldo coelho teixeira

...porque o sabre sabe
que sangrar
é a parte que me cabe...


Escritor e jornalista, mas acredita que o jornalismo tem sido a moeda de troca mais barata depois da poesia.

ENTRE ASSOMBROS E AMENIDADES

Só há um tipo de preconceito nesse brasilzão: o social. Se o negão for um juiz de direito ou um Pelé da vida, todo mundo vai pedir a bênção. E em se falando de politicamente correto, a questão ambiental é de dar nojo. Não há ninguém inocente. Continua se produzindo de um tudo e se consumindo de um todo. E quem consome somos todos nós.


estampa obvious agosto.jpg Aqui, onde imperam dois Brasis, o real e o oficial, afora os magnatas, só é feliz quem nunca perdeu o cabaço da ilusão, da esperança e do sonho. Essa tríade vagabundazinha que, famélicos, alimentamos (nós, do Brasil real), diariamente a fim de sustentar o nosso crânio no pescoço.

Porque aqui, nessa bananada, só se fica rico de três formas: herdando fortuna de família; ganhando na loteria ou explorando escravocratamente o serviço humano (a mais usual). Afora as criminalidades escancaradas, vias fáceis de se chegar a um quinhão, como roubar, traficar e matar. O resto é tudo ilusão. Ah! Sim, agora há uma quarta opção: tornar-se político de carreira.

Num país onde depois de 500 anos o voto ainda é obrigatório e diz-se viver sob uma democracia. Democracia esta forjada na pseudo liberdade de expressão, já que quem dita o consumo, o pensar e o viver é o capital. Então, como já gritou o velho reaça Nelson Rodrigues, toda essa unanimidade corrente, seja na escolha dos políticos, da música de sucesso, ou do modo de se vestir, é simplesmente burra e alienada e, decididamente, não representa o que de melhor temos e somos, enquanto povo trabalhador e rico, culturalmente falando.

Se o legislativo que temos é formado por legisladores analfas, que simplesmente “compram” seus cargos, e que há eras estão pactuados com o executivo e se “vendem” a este em todas as esferas, federal, estadual e municipal. E – mazela de todas as mazelas – resta-nos um judiciário indicado pelo executivo. Lembrando Bolaños que partiu há pouco: “E agora, quem poderá nos defender?”

O saldo é uma tristeza melancólica de ver o sujeito tentando manter um status quo enquanto o seu dito cujo de sonoridade parecida há muito está sendo esfolado. Assim, enquanto uma parte continua a “hospedar o opressor”, como já disse Paulo Freire, ou seja, quando chega num patamar empregatício mais elevado, passa a agir como o seu antigo tirano. Aquela outra parte é a de gente que foi picada pela “mosca azul”, feliz e irônica metáfora que Frei Betto utilizou para identificar as pessoas que se deixam seduzir pelo poder, “picadas” pelo deslumbramento e pela ganância.

Vale lembrar outra grande tirada do Mestre Freire quando disse “que a ‘ordem’ social injusta é a fonte geradora, permanente, desta ‘generosidade’ que se nutre da morte, do desalento e da miséria”. Não estaria aqui a malfadada fama de bonzinho do brasileiro? E aquela velha crença de que, se estudarmos, passarmos num concurso, vamos “ser alguém na vida”.

Por outro lado, isso resultou nessa onda burra do politicamente correto. Pura balela! Só há um tipo de preconceito nesse brasilzão: o social. Se o negão for um juiz de direito ou um Pelé da vida, todo mundo vai pedir a bênção. E em se falando de politicamente correto, a questão ambiental é de dar nojo. Não há ninguém inocente. Continua se produzindo de um tudo e se consumindo de um todo. E quem consome somos todos nós.

Não é porque você não está lá numa caverna na china trabalhando na retirada do minério de ferro do centro da terra ou derrubando árvores na região amazônica que você não é culpado.

E assim, entre assombros e amenidades, a gente vai sobrevivendo nesses cemitérios de esperança chamado cidades. E tudo porque respirar geralmente é um gesto mecânico. E pensar, apesar dos seus variados níveis, também.


ronaldo coelho teixeira

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