espantalho lírico

serviçal do inutilitarismo e do inecessário

ronaldo coelho teixeira

...porque o sabre sabe
que sangrar
é a parte que me cabe...


Escritor e jornalista, mas acredita que o jornalismo tem sido a moeda de troca mais barata depois da poesia.

Os protomutantes estão no corredor...

A ocupação das escolas paulistas é uma tapa na cara da minha geração e das anteriores. E mesmo que esse movimento dos secundaristas paulistas tenha sido iniciado sob rumores de que militantes esquerdistas tenham sido contratados para incitá-lo, não podemos negar que uma revolução cultural está acontecendo.


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A ocupação das escolas paulistas é uma tapa na cara da minha geração e das anteriores. Gerações que se acovardaram, se omitiram, fingiram-se de moucas com toda a carga trágica e beligerante da história política brasileira. Nada de "flower power", "paz e amor" e "manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo". A vibe da hora é “tomar o que é nosso”, o que uma banda de rock cantou há três décadas, mas ninguém o fez. Nem o movimento dos caras-pintadas de 1992 – e que derrubou o então presidente Fernando Collor de Mello – tinha em seu núcleo adolescentes em tão tenra idade.

Os caras-pintadas tornaram-se ícones do descontentamento popular mesmo não carregando nos sentidos politizado e militante dos movimentos ocorridos no tempo da ditadura militar. O tom do protesto foi marcado pelo humor e pela anarquia. Passados 20 anos do seu desenlace, outro tom apareceu: o da triste ironia. O líder do movimento, o outrora jovem Lindberg Farias, então presidente da União Nacional dos Estudantes, tornou-se político de carreira e aliou-se ao cassado ex-presidente. Ambos são senadores atualmente.

É essa ponte entre aquele jovem líder da UNE e esses adolescentes paulistas que quero pegar como gancho pr'essa crônica. Quero tentar dizer do momento em que cedemos, e que, mesmo sendo maioria, aceitamos esse mundo dito civilizado com normas e regras ditadas por um sistema que é comandado por uma minoria. E acabamos sendo "mais do mesmo", terminando “como nossos pais” – alerta quarentão de um gênio cearense que não aguentou essa loucura toda e escafedeu-se – e fazendo tudo exatamente igual. Repetidos repetidores dos mesmos erros de ontem, de hoje e de sempre.

Ir no âmago é vital para que possamos entender e contextualizar. Não é novidade que o Brasil foi formado/tomado de forma quase bárbara, com a chegada da corte de Portugal que fugia do poderio napoleônico trazendo a reboque portugueses em sua maioria traficantes e degredados. Iniciou-se ali o cerne da corrupção em terras brasilianas, um sistema de depredação de nossas riquezas culturais, humanas e materiais. E que continua até hoje. O caso da Vale em Mariana é exemplar.

Vide a corrupção crassa dos nossos governantes em todas as esferas. Mas vide também que nós, que geralmente posamos de inocentes, também somos corruptores. Exemplo: aquele veículo que você usa para se dirigir à sua igreja e o estaciona numa das três pistas de uma via de mão dupla por estar inacabada, ao invés de deixá-lo nos bolsões do estacionamento. (Esse é um exemplo constante em Palmas, Tocantins). Viu? Estado, igreja e sociedade fazendo-se de cegos? Há um código de trânsito para ser obedecido. Mas antes há um outro código a ser seguido: o do conchavo, o do conluio, o da corrupção.

Sim, nossa sociedade agoniza, doente, maltrapilha do amor, da doação e da fraternidade. A corrupção grassa porque somos todos corruptos corruptores. Quem financia as campanhas eleitorais quer algo de volta, não acham? Então, é o velho "toma lá dá cá". Não poderia ser diferente. São os desvios de dinheiro público que seriam destinados a obras e serviços para melhoria da qualidade de vida de todos.

Então, em que momento jogamos por terra tudo o que trazíamos de belo, limpo, leve e solto nas nossas cabeças de criança e adolescente? Quando deixamos de ver a beleza nas coisas? Quando deixamos de acreditar no outro, sem maldade alguma no coração e passamos a prejulgá-lo, a divisá-lo, a afastá-lo porque passamos a vê-lo como o diferente? Quando matamos o sonho dentro de nós? A poesia, o deleite puro e simples do viver sem subterfúgios? Quando perdemos o contato com o divino que há em cada um de nós? Sim, ainda acredito no humano, que somos centelha do maravilhoso, e essa molecada paulista me dá ânimo para continuar acreditando.

O que justifica nos tornarmos esses seres mesquinhos, falsos, solitários num eterno ritual de fanfarronice nas nossas desgastadas relações humanas? Relações recheadas de falsidades, de hipocrisias, de desencontros, de tropeços, de fugas e agressões. Somos educados numa velha e voraz sina de competidores quando, no final, não deveria se assim. Penso que cada um de nós tem um potencial único em alguma coisa, algum talento individual. É a velha frase que repito por aí quando me dão oportunidade: não existem pessoas erradas, existem pessoas certas nos lugares errados.

E tudo isso me fez lembrar do velho "Bigode", o psicoterapeuta Roberto Freire (1927-2008). Em seus livros de vieses libertários e anarquistas, ele preconizava a chegada dos protomutantes, uma nova geração que faria tudo de forma diferente, com uma pegada holística, colaborativa e fraternal. Praticantes de um amor sem barreiras sociais, adeptos de uma relação social saudável, baseada no bem-estar individual, sem a cancerígena chantagem nas relações, chaga maior de todas as doenças no mundo.

Uma revolução cultural está acontecendo nos quatro cantos do mundo. Um sinal é o modelo de emprego que vem mudando. As pessoas querem empreender e a maioria com um sentido colaborativo. Falando nisso, a economia colaborativa já é uma realidade em vários países. Outro sinal é a questão da internet, ainda não a estamos usando como deveríamos, mas já há indícios de que ela pode sim ser uma ferramenta vital, pois vem nos livrando do senhorio das "notícias oficiais" geralmente alienadas e alienantes. Quanto ao consumo exagerado a que fomos submetidos há séculos, movimentos como o lowsumerism, slow life, slow food, começam a surgir para nos dizer que podemos consumir menos, buscar alternativas e viver apenas com o necessário. Movimentos que estão nos levando para uma alimentação mais saudável e orgânica. Até a escola, alvo maior desse texto, vem sofrendo alterações, vide iniciativas como o hackschooling e o homeschooling, que visam substituir a velha escola burra e formadora de pessoas ordinárias e medianas. Por fim, a crescente onda de espiritualização que vem tomando conta do planeta. Tanta racionalidade nos desligou de nós mesmos e do outro.

E mesmo que esse movimento dos secundaristas paulistas tenha sido iniciado sob rumores de que militantes esquerdistas tenham sido contratados para incitá-lo e, com isso, colaborar com o PT na luta de Dilma Roussef contra o impeachment, vejo com bons olhos e certo alumbramento essa atitude. Ver jovens de 14 ou 15 anos enfrentando o status quo, ocupando seu lugar e fazendo do seu espaço um local de práticas sociais, solidárias e participativas, numa verdadeira autogestão, é coisa de avivar o coração e ainda continuar a acreditar no humano.

E como tão bem frisou Freire: “Você é útil para o conjunto por causa da sua originalidade. E você precisa da originalidade dos outros para completar a sua.” Os protomutantes estão chegando. Eles já estão no corredor. Mesmo que nós, os bárbaros, ainda estejamos na antessala.


ronaldo coelho teixeira

...porque o sabre sabe que sangrar é a parte que me cabe... Escritor e jornalista, mas acredita que o jornalismo tem sido a moeda de troca mais barata depois da poesia..
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