espantalho lírico

serviçal do inutilitarismo e do inecessário

ronaldo coelho teixeira

...porque o sabre sabe
que sangrar
é a parte que me cabe...


Escritor e jornalista, mas acredita que o jornalismo tem sido a moeda de troca mais barata depois da poesia.

O Grande Bocejo

O título meio grogue é para, paradoxalmente, tentar provocar o nosso despertar. Estamos, todos, há muito sonolentos, nessa modorrice bocejante chamada de Século XXI. Sua autoria não é minha, é do mestre Octávio Paz. O mesmo foi aqui aplicado para falar de um livro do escritor peruano Mario Vargas Llosa, "A Civilização do Espetáculo", subintitulado de "Uma Radiografia do Nosso Tempo e da Nossa Cultura". O autor, atento e arguto observador do seu tempo e dos seus, traça um panorama (nada animador, diga-se de passagem) acerca do empobrecimento intelectual do nosso tempo, da banalização das artes, do triunfo do jornalismo sensacionalista e a frivolidade da política. Tripé que, segundo Llosa, afeta e provoca a derrocada da sociedade contemporânea. Bem vindos à bufonaria...


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Se só pelo título lido você já sente vontade de bocejar, tranquilo, boceje, pois você tá na vibe desse século. Mas o título meio grogue é para, paradoxalmente, tentar provocar o nosso despertar. Estamos, todos, há muito sonolentos, nessa modorrice bocejante chamada de Século XXI. Sua autoria não é minha, é do mestre Octávio Paz, confirmando que o velho continua novo e o novo, mesmo feto, já nasce morto, em face da velocidade das coisas nesse planeta byte.

O mesmo foi aqui aplicado para falar de um livro do escritor peruano Mario Vargas Llosa, inclusive, nobel de literatura. Llosa é um troçador na melhor acepção da palavra. Um troçador social, pois apesar de realizar denúncias sociais cometidas na ou contra a Pátria Grande – ou Puta Grande, a depender da localização/ideologia do(a) leitor(a) – a América Latina, em seus livros, ele o faz sempre com muita troça e achaque.

Craque, sabe que tratar acerca de algo extremamente sério por meio da brincadeira e do jogo é a melhor forma de inculcar os alertas necessários no outro. Isso pode ser comprovado em obras como "Pantaleão e as Visitadoras", "A Guerra do Fim do Mundo", e "A Cidade e os Cães".

Mas, desta vez, Llosa escreveu um livro sério. Trata-se do "A Civilização do Espetáculo", subintitulado de "Uma Radiografia do Nosso Tempo e da Nossa Cultura". O autor, atento e arguto observador do seu tempo e dos seus, traça um panorama (nada animador, diga-se de passagem) acerca do empobrecimento intelectual do nosso tempo, da banalização das artes, do triunfo do jornalismo sensacionalista e a frivolidade da política. Tripé que, segundo Llosa, afeta e provoca a derrocada da sociedade contemporânea.

Sobre o que seja alta cultura, Llosa inicia citando T. S. Eliot, crítico do modelo atual de educação que pretende transmitir aquela à totalidade da sociedade, ressaltando que isso só pode ser conseguido com o empobrecimento da mesma, tornando-a cada vez mais superficial. Como exemplo, o peruano desce a lenha na literatura atual, segundo ele, light, leve, ligeira, fácil. Uma literatura "que sem o menor rubor se propõe, acima de tudo e sobretudo (e quase exclusivamente), divertir". E nos lembra do sumiço da crítica literária, afirmando que a ausência desta foi preenchida pela publicidade, esta que se transformou na parte constitutiva da vida cultural e, pior que isso, em seu vetor determinante.

No gancho desse surreal termo inglês, Llosa ressalta que a literatura light – que deve ser traduzida não por leve, mas por "irresponsável e idiota" – o cinema light e a arte light enchem o leitor/espectador de uma cômoda impressão de ser culto, revolucionário, moderno e vanguardista. Quando, na verdade, essa sopa light propaga apenas o conformismo por meio da complacência e da autossatisfação.

Nas artes plásticas, o peruano escancara esse tempo de "descaramento e bravatas, gestos provocadores e desprovidos de sentidos" dos pseudos artistas, sempre com o aval das máfias controladoras do mercado de artes e dos coniventes ou imbecis críticos. Artistas que escondem sua inteligência e seu vazio na treta e no descaramento, porque sequer entenderam a provocação social do mictório de Duchamp.

Nem o erotismo escapa à sua observação, lembrando-nos que a contrapartida da emancipação sexual foi a banalização do ato sexual. E encaixa dizendo que o erotismo, assim como a crítica e a alta cultura, desapareceu. Para ele, é o erotismo que transforma o ato sexual numa obra de arte.

Tampouco o jornalismo foge da sua inteligente visão quando destaca a sua grande influência na civilização do espetáculo atual. Llosa argumenta que a fronteira que separava o jornalismo sério do marrom desapareceu. E, nessa banalização da notícia, o jornalismo entronizou a frivolidade num local que antes era ocupado pelas idéias e pelas realizações artísticas. Assim, o que esse jornalismo ignoto resvala diariamente são tão somente escândalos, deslealdades, bisbilhotices, violação de privacidade, difamações, calúnias e falsas notícias.

Sobre a questão educacional, revela sua preocupação com uma civilização que, no rumo que vai, teme que o "mundo do futuro não se divida entre analfabetos funcionais e especialistas ignorantes e insensíveis". E, putz! Não é isso o que já vem acontecendo?

Sequer a religião escapa. Sobre assunto tão polêmico, o autor diz que a cultura poderia tomar o lugar vazio deixado por ela, se não fugisse pela tangente, se imiscuindo dos problemas e tornando-se apenas entretenimento.

Acerca da prodigiosa revolução na comunicação por meio da internet, que hoje tem como ponto nevrálgico a discussão do limite entre o que seja público e o que seja privado, Llosa alerta que o infringimento desse limite pode transformar um ato libertário num liberticídio, significando a derrocada da democracia e uma dura queda na nossa civilização.

Mas o ponto que aguçou a minha preocupação, ainda dentro do tema da internet, foi o tipo de leitores que estamos nos tornando. É que, com a facilidade desta plataforma digital, estamos cada vez mais despendendo poucos esforços de concentração, atenção, reflexão, paciência e prolongada dedicação àquilo que lemos. Ou seja, o livro, que é uma extensão do nosso cérebro – como bem apontou Jorge Luis Borges – corre o risco de ficar de fora dessa nova civilização internética, pois, muletados nos computadores para acharmos todas as soluções dos nossos problemas, a “capacidade cognitiva de nosso cérebro de construir estruturas estáveis de conhecimento é reduzida”. Ou seja, corremos o risco de ter o cérebro atrofiado.

Llosa arremata brilhantemente seu livro, ressaltando o grande paradoxo em que nos encontramos, vivendo num mundo confuso em que já "não há mais como saber o que seja cultura, onde tudo é cultura e nada é cultura". Mas a fodástica mensagem que Llosa deixa nessa obra é que num tempo em que computadores, tablets e celulares e outras plataformas egovisuais reinam, o bufo é o rei. Porque na civilização do espetáculo, o intelectual só interessará se entrar no jogo da moda e se tornar bufão.


ronaldo coelho teixeira

...porque o sabre sabe que sangrar é a parte que me cabe... Escritor e jornalista, mas acredita que o jornalismo tem sido a moeda de troca mais barata depois da poesia..
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